Quem é nascido dos anos 90 em diante dificilmente sabe, a não ser que algum parente mais velho tenha mostrado, o que é sentar num canto da casa apenas para ouvir música. O ritual de tirar o bom e velho disco de vinil de dentro daquela capa enorme de papelão, ajeitar o braço da vitrola com a agulha na faixa predileta e ouvir aquele ruído característico, ainda mais na mudança de uma faixa para outra, é algo que nenhum aparelho de reprodução sonora digital conseguirá, sequer, emular.
Seja por nostalgia ou até mesmo por qualidade - tem gente fã do vinil que garante terem os "bolachões" qualidade na reprodução de timbres superior ao sucessor CD e aos atuais tocadores no formato MP3 - os discos de vinil, mesmo que de forma tímida, ganham novamente o gosto dos fãs mais detalhistas, que consideram a música algo muito mais valioso - e por que não palpável? - do que bits, bytes ou megas.
O preço, entretanto, ainda não soa bem aos ouvidos. Apesar de algumas bandas e artistas solo lançarem trabalhos novos, os mesmos álbuns, em comparação aos CDs, são caros, alguns deles, encontrados em lojas especializadas da Capital ou em sites, chegam a custar em torno de R$ 200 ou até mesmo R$ 500. Apesar das cifras, tem gente que acredita que os bolachões ainda vão bombar no País.
Independentemente a caírem no gosto das massas ou não, os aficionados dizem nunca ter abandonado o formato analógico que, para alguns, é superior até mesmo aos CDs. "Os graves e agudos, no caso do vinil, têm mais respostas. A nitidez é maior", atesta o técnico em eletrônica Adriano Bueno. Fã confesso do antigo formato, ele é um dos que dedica algumas horas da semana para apreciar o ritual de ouvir música.
Diferentemente da maioria dos ouvintes modernos que apenas tem a música como companheira de algum tipo de atividade, seja física ou no trânsito, ele é testemunha de que apenas parando para ouvir, sem pressa, além de se ter o equipamento adequado, é que a maior variação de timbres garantidos somente pelo atrito da agulha com os sulcos dos antigos discões, de fato, aparece. "O CD não tem o chiado característico", admite. "Mas esse formato não traz a resposta em termo de ganho em grave e agudo observada no vinil", detalha o técnico. Segundo ele, o ganho dos compact discs é até 20% menor que os bolachões.
Dono de um grande acervo, o produtor fonográfico Gilberto Santos demonstra maior flexibilidade em aceitar que o presente e futuro da música é mesmo digital. Fã incondicional dos Bee Gees, o ex-crooner mantém cerca de 1,5 mil álbuns no antigo formato. "Não consigo ficar uma semana sem por o bolachão para rodar", confessa. "Essa é a beleza da música, ver o disco girar, o chiado entre uma faixa e outra", descreve.
Para ele, a dita pureza do som digital é supérflua. "Os chiados fazem parte. Numa festa, por exemplo, a música está presente e independente ao formato, há barulho acompanhando e mesmo assim todo mundo dança. Claro que mídias como o CD ou o DVD são melhores. Além disso, o vinil não voltará por causa do alto custo de produção", aceita. "Mas não há nada como os discos", diz o aficionado.
Proprietário de raridades como os primeiros EP?s (discos compactos, apenas com uma música de trabalho de cada lado) dos Beatles George Harrison ("Another Day"), Paul McCartney ("Another Day") e John Lennon ("Imagine"), Santos trabalha em seu estúdio apenas no formato digital. Nesse caso, garante, a qualidade e a perfeição são asseguradas pelo formato atual. Mas o bom e velho disco, assegura, tem um brilho impagável: "Isso aqui é charme", empolga-se, ao armar a antiga vitrola Gradiente num raro disco dos Bee Gees lançado somente no Japão.
Ritual
Outro fã "pé no chão" do formato é o jornalista Helton Ribeiro. Ciente de que o CD tem qualidade superior, ele não abre mão de, ao menos semanalmente, rodar os antigos LP?s, principalmente de rock nacional dos anos 1980 e MPB. "Tenho mais vinil do que CD. Para mim, é mais uma questão de ritual, tem toda a mística, um charme de virar o disco de lado", descreve o fã, que pretende comprar o novo álbum de Rita Lee. No entanto, o alto custo ainda assusta. "Está na faixa de R$ 200,00", estima ele, que ainda se aventura apenas em lojas de discos usados, com os álbuns bem mais em conta. "Existem muitas lojas de usados com preços bem legais", recomenda.
Heróis da resistência
O Brasil abriga a única fábrica de vinil na ativa em toda a América Latina. A Polysom, sediada no Rio de Janeiro, mantém as atividades de olho num possível ressurgimento, mesmo que apenas por nostalgia, do antigo formato de gravação audiofônica. Localizada em Belford Roxo, a indústria voltou à ativa há cerca de dois anos.
No entanto, mais do que os discos, é necessário um bom equipamento para curtir todos os ditos timbres a mais dos bolachões.
Além dos sebos - em Bauru um bom local para encontrar vitrolas, pick-ups e receivers é a tradicional Feira do Rolo, sempre aos domingos de manhã na rua Júlio Prestes - a Internet é um bom caminho. Em alguns sites de mercadorias usadas, conjuntos de som para tocar vinil são vendidos desde a faixa de R$ 200 até R$ 1.500,00. Para os que querem unir modernidade com nostalgia, um site que indica aparelhos modernos que tocam discos antigos é o www. digitaldrops.com.br.
Lá, é possível encontrar "vitrolas" com saída USB para plugar diretamente no computador ou munidos de drives para a gravação direta de CDs. No final da discussão: o analógico pode "casar" com o digital. Mas, qual a plataforma tem melhor qualidade? A discussão se repete, igual a um disco que enrosca.
Lugar de música é no disco, analógico ou digital
Apesar das divergências, há um consenso entre os apreciadores do vinil ou do som digital do CD. Lugar de música é no disco, seja ele analógico ou digital. Ou seja, para quem está preocupado com qualidade, os modernos tocadores do formato MP3, apesar da grande capacidade de armazenamento, estão na lanterna das paradas.
Luiz Henrique De Conti Telles, o "Ike", é programador da rádio 96 FM. Ele conta que, apesar da emissora reproduzir a maioria das músicas em sua programação a partir do armazenamento de arquivos em computador, todas as faixas são guardadas em formato Wav, o mesmo dos CDs. Tão digitais como o MP3, os compact discs, detalha, apesar de perderem a preferência pela música baixada, na maioria de graça, pela qualidade superior. Enquanto no disco digital as faixas são preservadas em tamanho original, o mesmo conteúdo, é compactado no caso do MP3. "Quando há compactação, alguma coisa se perde."
Com relação aos antigos discos de vinil, Ike já adota uma linha mais radical. Para ele, os velhos bolachões tem qualidade muito inferior ao som digital do CD. "Hoje, nosso ouvido está muito mais treinado", considera. "Apesar de que os aparelhos de som antigo, com as caixas acústicas de madeira, grandes, eram bem melhores", pondera, considerando as pick-ups atuais "descartáveis".