Bairros

Espelho, espelho meu...

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 10 min

Atenção especial


Uma recepção composta por cadeiras antigas restauradas, um belo lustre e um piso todo trabalhado em pastilhas pretas e brancas dão, já na porta de entrada, uma pista do que é possível encontrar ao percorrer o amplo corredor da casa que abriga o Divina Depil, instituto de depilação, estética e cabelo, no Altos da Cidade.

A partir daí, o que vem na sequência é consequência. Além do salão, onde são feitas as produções, o casarão conta com diversas cabines de depilação e massagem individuais, uma sala exclusiva para clientes que estão fazendo a unha, um jardim de inverno para fumantes, um minissalão para crianças e adolescentes, uma sala de maquiagem e uma área externa onde, se a cliente preferir, pode ser arrumada lá.

Mas a estrutura é apenas um detalhe que deixa transparecer o principal objetivo do salão: o atendimento personalizado às clientes.

Criado há um ano e seis meses, o Divina Depil é a materialização do salão de beleza dos sonhos da empresária e administradora de empresas Vivian Canedo.

"Sempre frequentei salões de beleza e sentia dificuldade em encontrar um que tivesse, além da higiene, atendimento personalizado. Quando surgiu a oportunidade de montar meu próprio salão, busquei reunir nele as características que mais prezava", justifica ela, que afirma que, para 90% das mulheres salão é terapia. "E terapia deve ser bem feita", defende.

E no casting de terapeutas-cabeleireiros do Divina Depil figura o renomado Gil Jorge Milagre, que não revela a idade, mas não reluta em afirmar que está no mercado há 26 anos. Com ele no comando da tesoura, meio caminho já está andado: as boas risadas estão garantidas.

"Sou apaixonado por cabelo e maquiagem. Gosto de deixar mulher pobre com cara de rica. Aliás, de milionária! É gratificante", brinca, rindo, ele que costuma transformar clientes em amigas-confidentes.

O bom humor e a tesoura afiada também são características pertinentes a Dulce Biagio e Val Nascimento, que ajudam a fazer a cabeça das clientes do salão e estão na profissão há sete anos.

Tanto glamour, tem preço. O corte varia de R$ 50,00 a R$ 60,00, com a lavagem das madeixas já inclusas. Já a produção completa, daquelas para ficar com cara de rica...

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Tradicional


Sebastião Ferreira de Souza, 72 anos, e Luzia Toma de Souza, que não revela a idade, formam o casal que dá nome ao salão de beleza mais tradicional de Bauru: o Sebastião e Luzia Beauty Shop Cabelo e Estética, existente há 46 anos.

Difícil encontrar na cidade quem nunca tenha ouvido falar do casal. Mas até se tornarem sinônimo de tradição e fazerem escola, Sebastião e Luzia percorreram um longo caminho.

Sebastião exercia a profissão de barbeiro, no Paraná, quando decidiu fazer um curso em São Paulo para assumir o título de cabeleireiro. Em 1963, mudou-se para Bauru e abriu por aqui uma escola de beleza, a Oásis, que abrigava em seu interior um salão.

Apenas alguns meses na nova profissão já foram suficientes para que Sebastião fosse convidado a participar de um programa de TV local chamado "O assunto é mulher", comandado por Clorinda Resta, que produzia cabelo e maquiagem de modelos, debutantes e rainhas de Carnaval de salão.

Dois anos depois, em 1965, Sebastião casou-se com Luzia, que também trabalhava como cabeleireira na Capital, e, como consequência, juntaram, além da escovas de dentes, as tesouras.

"Foi quando abrimos o Sebastião e Luzia. Nosso primeiro salão foi em uma casa simples, pequena, sem luxos", lembra Sebastião. E, para resistir à convivência intensa, estabeleceram uma regra: ?não se deve palpitar no trabalho do outro?.

Atualmente, a marca Sebastião e Luzia é sinônimo de tradição. O salão, com quase 500 metros quadrados, concentra 28 profissionais da beleza, 30 vagas de estacionamento, e produtos e materiais de última tecnologia. Cortar o cabelo lá sai por R$ 70,00, fora a lavagem, que é mais R$ 13,00.

"Mas o segredo da sobrevivência não é somente modernidade e tecnologia, é também o bom atendimento e a harmonia. Esse, faço questão de manter desde o dia em que eu e o Sebastião abrimos as portas pela primeira vez", frisa Luzia.

Quando questionado se alguma coisa mudou em quase 50 anos de profissão, Sebastião é direto: "Hoje, ninguém mais pede corte da moda só porque uma artista está usando. As pessoas procuram cortes leves, práticos, e que lhes caiam bem. Pelo menos nunca ninguém chegou pedindo um cabelo a la Amy Winehouse", brinca, simpático.

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No coração do bairro


Treze reais. Esse é o valor cobrado pela cabeleireira Maria Luz da Silva Ramos, 50 anos, mais conhecida como Lúcia, para aparar as madeixas de seus clientes. Nesse valor já está incluso a lavagem e a simpatia de Lúcia. O preço também não sofre variação se a madeixa for lisa, cacheada, curta ou muito longa.

Mas o baixo preço não é sinônimo de pouca qualidade nos serviços e tem justificativa.

"Meu salão está localizado na Vila Dutra, na rua São Paulo, que tem pouco fluxo de carros, ou seja, minhas clientes são do bairro e adjacências. Além disso, não pago aluguel. Não dá para cobrar caro", explica.

Lúcia está no ramo há 13 anos. Fez um curso de cabeleireira logo que casou-se mas não assumiu a profissão de cara. Trabalhou como cuidadora de idosos e ajudou o marido no bar, que também é de propriedade do casal e fica ao lado do salão, anexo à casa onde moram.

"Foi quando resolvi atualizar meus conhecimentos e me tornar, de uma vez por todas, cabeleireira", conta.

Pelo jeito, a opção foi correta. Embora Lúcia trabalhe sozinha e conte apenas com os serviços de uma manicure, conseguiu juntar dinheiro suficiente para pagar a faculdade do filho.

"O segredo é fazer as coisas bem feitas. Assim você garante a clientela", ensina, enquanto informa a uma cliente que acabara de chegar que a agenda está cheia até o fim de semana.

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Terapia


A maioria das mulheres não gosta de cortar o cabelo e, nem se gostasse, não dá para aparar as madeixas semanalmente. Caso tentem, provavelmente ficarão carecas porque o cabelo demora um pouco para crescer. Tingir o cabelo, fazer luzes ou qualquer outro tratamento de beleza também requer um certo intervalo entre uma sessão e outra. Não há fio que resista a uma carga tão grande de química, por melhor que ela seja.

Como então arrumar um pretexto para fazer a terapia do salão, que, para os menos entendidos, consiste em bater papo, relaxar e ficar sabendo das últimas novidades?

A resposta é simples: basta agendar um horário fixo, por semana, para fazer as unhas.

Pode parecer piada, mas os diversos salões espalhados pelos bairros de Bauru estão recheados de mulheres que comparecem semanalmente ao local para conversar e relaxar enquanto a manicure troca o esmalte, muitas vezes intacto.

"Digo que 90% das mulheres vêm ao salão para fazer terapia, distrair. É que o ambiente aqui é muito alegre", justifica a empresária Vivian Canedo, dona de um salão de beleza no Altos da Cidade.

Dependendo do salão, a terapia de fazer pé e mão pode variar de R$ 15,00 a R$ 35,00. Isso quando não aparece um vendedor de doce ou de roupa oferecendo seus produtos.

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Sonho de criança


Quem passa pela quadra 9 da rua Carlos de Campos, na Vila Souto, e observa uma porta de vidro adesivada com a marca Mayara Morales Coiffeur, mal pode imaginar que, por trás daquele vidro, dez profissionais trabalham freneticamente para dar conta do intenso fluxo de clientes

Aos sábados, por exemplo, uma média de 60 pessoas entra e sai do salão durante todo o expediente. Algumas, cortam o cabelo e vão embora. Outras, fazem pé, mão, depilação, penteado, luzes, maquiagem e tudo mais o que têm direito.

Nesses dias, Mayara Cecília Morales de Araújo, 23 anos, proprietária do salão, costuma levantar bem cedo. Fica em pé durante todo o dia. Corre de um lado para o outro o tempo todo. E no começo da noite vai para casa, exausta, mas com um sorriso de satisfação no rosto.

Ela não se importa em trabalhar de terça à domingo, mais de dez horas por dia. Pelo contrário, sabe que o trabalho é consequência de um sonho."Nunca pensei em ser algo que não fosse cabeleireira. Nunca cogitei a hipótese de não ter um salão. Por isso, sei que preciso trabalhar. Essas são as condições da profissão que escolhi por amor", explica.

E quem acha que Mayara é nova para ser dona de salão vai se assustar ainda mais ao saber que ela deu os primeiros passos na profissão aos 12 anos, quando ganhou uma chapinha de presente de Natal do pai e passou a atender as amigas em casa.

"Cobrava R$ 3,00 cabelo pequeno e R$ 5,00 cabelo grande. Não pagava nem a energia", lembra, rindo.

Aos 15 anos, Mayara entrou formalmente como funcionária de um salão, onde aprendeu a fazer coloração, maquiagem, escova, corte, entre outras técnicas. Saiu de lá aos 19 anos e fez diversos cursos. De lá para cá, foi um passo para ter seu próprio salão.

Hoje, Mayara cobra R$ 30,00 o corte e comemora o sucesso ao lado do marido Jhonny Araújo, que deixou o emprego de auxiliar administrativo para ajudar a esposa no salão. "É um negócio nosso. Dá gosto acompanhar de perto e trabalhar para que cresça", explica ele.

E já que a ordem é ajudar, Jhonny não poupa esforços. Cuida, principalmente, da parte administrativa do salão, mas, se precisar, lava cabelo e auxilia a amada nos penteados e cortes.

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Tesourinha viajada


Olavo Joaquim dos Santos, 78 anos, é cabeleireiro e proprietário de um salão que leva seu nome, localizado próximo à Beneficência Portuguesa.

Há 52 anos, quando começou a profissão, Olavo jamais permitiria que tal descrição lhe fosse dada. Morria de vergonha. Dar seu nome ao estabelecimento, então, nem pensar!

"Entrei na profissão por acaso. Meu pai recebeu os equipamentos de um salão como pagamento de uma dívida e me colocou para trabalhar nele como barbeiro. Eu tinha vergonha. Mal conseguia arrumar namorada por causa disso", diverte-se, lembrando da época.

Vislumbrando que não teria possibilidade alguma de sobreviver como barbeiro, Olavo superou a vergonha e fez um curso profissionalizante de cabeleireiro, mudou-se para Bauru, aliou-se a nomes famosos do cenário e passou a dar cursos em diversas partes do mundo. "Eu e minha tesourinha já viajamos muito!", conta, animado.

Hoje, Olavo abandonou o glamour. Atende somente os clientes antigos, à portas fechadas e com horário marcado. Além disso, só corta cabelo de homens e cobra R$ 50,00 pelo serviço.

No salão, os aposentos são simples, o piso escuro, antigo, assim como as cadeiras e os lavatórios. Nas paredes, diplomas emoldurados por quadros mostram que Olavo já recebeu muitos prêmios. Agora, trabalha porque quer e para quem ele quer.

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Sobrevivente


Duas cadeiras antigas, um espelho médio, e uma prateleira com produtos populares, como o talco Alma de Flores, compõem o mobiliário salão de Zélio Póvora, 77 anos, que reúne os títulos de cabeleireiro e de barbeiro.

O espaço de poucos metros quadrados, localizado na Vila Falcão, não tem luxos. Seus frequentadores, a maioria pessoas idosas, sabem que Zélio não está ali para papear e muito menos para assumir o papel de terapeuta. A função dele é cortar o cabelo, fazer a barba e pronto.

E é assumindo esta função que Zélio contabiliza 66 anos de profissão. "Desde que comecei, só faço barba e cortes masculinos. Cabelo de mulher dá muito trabalho, não vale a pena", explica, enquanto apara as madeixas brancas de Augusto Trombini, um de seus clientes mais recentes.

Zélio não atende com hora marcada. Para cortar o cabelo com ele é só chegar. O preço de seus serviços varia de R$ 7,00 a R$ 10,00.

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