Cultura

Jorge Aragão: a grande estrela dos 115 anos de Bauru

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 6 min

Jorge Aragão, um dos compositores de samba mais consagrados do País, com músicas gravadas por Elza Soares, Beth Carvalho e Ney Matogrosso, se apresenta amanhã, em Bauru, no Parque Vitória Régia, na grande festa comemoração dos 115 anos da cidade. Marcado para as 20h30 do feriado de segunda-feira, o show gratuito, que tem o oferecimento do JC e encerra as atividades no dia do aniversário do município "coração de São Paulo", atende a aprovação do público bauruense constatada em consulta realizada a pedido do Grupo Cidade. O carisma do artista, que foge do esteriótipo convencional do típico sambista dos morros fluminenses, tem o reconhecimento de gerações.

Em entrevista exclusiva ao JC, o sambista revela curiosidades dos mais de 30 anos de carreira e conta histórias que o fizeram se consolidar como um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira (MPB). Perdendo as contas do número de letras compostas e de álbuns lançados, Aragão mostra fazer parte de um grupo seleto da MPB: "Eu não sou artista. Sou compositor. Não sou cantor, mas sim intérprete do autor".

Um dos maiores nomes do samba raiz, Jorge Aragão enxerga a carreira como uma extensão de sua vida. As letras que trabalham a realidade e os dilemas do amor, da alegria e da saudade, comprovam o espírito romântico do autor.

Com mais de 30 anos de carreira, Aragão ingressou na carreira solo apenas nos anos 90, com o primeiro CD lançado sob o título "Sambista a bordo". Desde então tornou-se um dos artistas brasileiros mais populares. Chegou a atingir a marca de 2 milhões de discos vendidos entre os anos de 2001 e 2002.

Antes, o músico ainda fez parte da formação do Grupo Fundo de Quintal. Foi também um dos compositores do tema da campanha Globeleza da Rede Globo e teve seu trabalho reconhecido internacionalmente em um momento inusitado de sua carreira. Em 1997, a canção "Coisinha do Pai", interpretada por Bete Carvalho, foi usada como "despertador" para o robô Sojourner em Marte. E relembrar o fato é o bastante para deixar vir à tona o bom humor do artista: "Pois é, sou o compositor mais tocado em Marte" (risos).

Ainda "na ativa", como ele mesmo diz, Aragão corre contra o tempo para cumprir a maratona de shows. Entre um evento e outro, o sambista faz fisioterapia para tratar seu problema de má circulação nas pernas, atende a imprensa e aproveita todo o tempo restante para passar com a família.

Foi entre uma sessão de fisioterapia e a gravação do novo DVD de Alcione, a "Marrom", que Aragão conversou com a reportagem do JC.

Jornal da Cidade: O convite para sua apresentação no aniversário de Bauru é resultado de uma consulta com a população que demonstrou aprovação e reconhecimento quanto ao seu trabalho. Como você enxerga essa popularidade entre várias faixas etárias?

Jorge Aragão: Primeiro gostaria de parabenizar pela iniciativa de fazer com que a arrecadação do Viva Bauru seja destinada a entidades assistenciais. Isso é muito importante e deveria ser repetido mais vezes. Com relação ao carinho do público, a única coisa que eu tenho a fazer é agradecer. Sou imensamente agradecido por isso. Agradeço à população de Bauru por entender minha música, entender minha letra. O que eu tento é passar o recado através do meu trabalho, e subir no palco é meu agradecimento. Quando subo no palco não espero reconhecimento. Na verdade, quero uma interação com o público. Isso que é legal.

JC: Diante disso, como lidar com a fama?

Aragão: Vejo a fama como a forma que as pessoas encontram para dedicar carinho. É o reconhecimento por você também ter buscado a vida pública. É meio sem sentido buscar essa vida e querer que ela seja privada. Isso é incompatível. É claro que têm horas que você está mal. Mas, se você puder, é melhor ficar em casa e evitar. É difícil se o cara discute com alguém, está num dia difícil, ou brigou com a mulher. Aliás, brigou não. A gente nunca briga, a gente incompatibiliza com nossa companheira (risos). Isso é uma coisa natural. Dor de barriga e unha encravada dá em todo mundo. Às vezes, eu entro num shopping na época de final de ano e de repente junta um monte de gente. Eu vou atendendo, mas chega uma hora que eu peço para me deixarem: "Gente, dá licença que eu vou gastar um pouquinho. Tenho que comprar presentes para meus filhos e netos". E o povo respeita. Aconteceu uma coisa engraçada um dia com meu compadre Mussum. Ele estava vindo de Angra dos Reis, por volta das 13h. Ele teve a falta de sorte de furar o pneu na estrada, e naquele sol ele tentava se virar. Parou um carro com uma senhora e com uma criança com 10 anos. Ele achou que era uma ajuda, mas quando a senhora viu que era o Mussum, ao invés de ajudar, pediu para ele virar uma cambalhota para o filho dela. (risos). Naquele sol, trocando o pneu, quando ele pensava que teria uma ajuda vem uma dessa. Quando ele me contou, eu ri muito disso.

JC: Cada dia surgem novos artistas na música, mas poucos com talento para compôr de verdade. Esse mercado hoje está carente no Brasil?

Aragão: O problema na verdade é o padrão que alguns escolhem. Qual é a concepção deles: estar bonitinho, estar todo saradinho e com cabelo arrumadinho. Para eles, tem que ter uma estética para fazer o som, porque isso dá um retorno bem rápido. A mulherada vem toda. E, quando a mulherada vem toda, os homens também vêm. Isso acaba estereotipando um artista com alguma coisa para ser idolatrada nele. É o pensamento deles e que está comandando a garotada principalmente. Em contrapartida, o que vai acontecer é que não vão colocar samba difícil. Aquela história do "gorjear da passarada", a letra de samba como se fosse seresta, mudou aos poucos. Então, vamos buscar uma coisa fácil. Esse é o caminho que eles traçam, mas não quer dizer que o mercado está escasso de compositores. Letristas bons, já está um pouco mais difícil. Os donos das canetas estão em falta. Mas temos que prestar atenção porque tem gente fazendo muito e não estão nem na sombra de fazer sucesso. Nosso País, graças a Deus, é repleto de bons valores.

JC: Você já pensou em se dedicar exclusivamente à carreira de compositor?

Aragão: Isso, inclusive, já aconteceu. Eu sai do Fundo de Quintal porque não queria mais fazer shows com eles. Sou um dos fundadores do grupo, mas fui sincero. Eu gosto de ficar escrevendo, de fazer música e de criar. Esse negócio de fazer chacrinha não é minha cara. Eu não me sinto à vontade. O meu barato mesmo é a criação, montar minha história, contar minha emoção, padronizar isso que eu faço através da música.

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