Leio no JC que o tratamento de esgoto em Bauru vai atrasar mais um pouco, por conta de algum motivo que eu não entendi direito (ou fingi que não entendi). Como escrevi neste espaço na semana passada, minha estadia na Irlanda, em julho, serviu para muitas coisas além do turismo tradicional. Fiquei extremamente curioso para saber o que os irlandeses fazem com seu esgoto. Estive em três cidades: Dublin, Galway e Cork. Elas são cortadas por rios e canais onde não se vê um indício de sujeira. Ao invés de cocô, os rios da Irlanda permitem que as pessoas observem o fundo rochoso, peixes, patos e cisnes.
Eu fiquei até com raiva em Galway. Vi pessoas pescando salmão no centro da cidade. Já haviam me contado que no Tâmisa, em Londres, depois da limpeza, o pessoal pescava salmão. Eu achava que era lorota, pois o salmão só vive em águas muitíssimo limpas. Mas vi pessoas pescando salmão no centro da cidade, nos cinco dias em que passei em Galway.
Galway tem 100 mil habitantes. Mas enquanto estive lá, durante o Galway Art Festival, a cidade ganhou mais 160 mil pessoas. Adolescente é adolescente em qualquer lugar. Eles jogavam latinhas de cerveja no chão e emporcalhavam a cidade todos os finais de tarde. No dia seguinte, não havia um grampo no chão.
Antes que alguém comece a me enxovalhar com aquela história de que o Brasil não tem comparação com a Irlanda, porque a Irlanda é um país minúsculo e é muito mais fácil administrar a Irlanda do que o Brasil... eu já digo que sim. Sim, eu concordo que é mais difícil administrar o Brasil.
Mas há uma comparação que não pode deixar de ser feita. A independência da Irlanda aconteceu em 1922. Cem anos depois da nossa. Em 1922, a Irlanda era um país pobre. Muito pobre. Um pouco antes, em 1845, mais de 2 milhões de pessoas morreram de fome por causa de uma praga nas plantações de batata (quase agora, para um país que tem uma história tão longa). E mais outros tantos milhões imigraram para os EUA. Só a partir de 1922 é que os irlandeses puderam pensar no que fazer para melhorar e crescer. Antes, a Inglaterra proibia até a língua irlandesa.
Agora, mesmo com a crise econômica na Europa, a Irlanda tem o quinto maior IDH do mundo. E dá pra ver isso na rua - conversando, por exemplo, com motoristas de táxi que exibem um conhecimento histórico e cultural do próprio país de dar inveja. Um deles fez questão de me levar para ver a casa de David Norris - segundo ele, um dos maiores escritores da Irlanda. Queria que ele fosse eleito presidente.
"-Ele não precisa nem saber governar", explicou o motorista. "-Aqui quem manda é o Primeiro-ministro. O Presidente é figurativo. Nós temos que ter um artista para nos representar. Todo irlandês é artista ou pelo menos acha que é", completou.
Voltando ao tema central: o que eles fazem com o esgoto? Podemos pedir para o Rodrigo Agostinho ligar lá e perguntar pra alguém, ver se dá pra fazer alguma coisa parecida aqui... sei lá! Com o rio Bauru fedendo é que não dá mais pra ficar.
Minha filha de 7 anos perguntou: "-Por que esse rio fede tanto?" Eu disse que era o cocô das pessoas que caia lá. Ela achava que era porque as pessoas jogavam lixo no rio.
São as duas coisas, é óbvio. É o poder público que não atua, ou não consegue atuar; e somos nós mesmos, o povo, que sujamos a cidade. Talvez haja uma pista para resolver a questão.
A Irlanda é um país onde as crianças são alfabetizadas (100% das crianças) em 2 línguas: inglês e irlandês-gaélico. O irlandês é apaixonado por arte, por literatura e por música. Em Dublin há um teatro em cada esquina. Em cada esquina há um grupo de jovens apresentando alguma música, alguma peça, ou lendo alguma coisa. Os irlandeses têm amor pela sua história. É o único país do mundo que tem um feriado nacional dedicado a um livro: 16 de junho, o Bloom?s Day, em homenagem ao anti-herói de James Joyce.
Um povo desses não ia querer viver rodeado pelo esgoto, não é mesmo? Nós, brasileiros, só resolveremos o problema quando não aceitarmos mais viver assim.
O autor, Luis Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião