Polícia

Mãe pede prisão de filho dependente

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 4 min

A mesma aflição de uma infinidade de mães que têm os filhos dominados pelo crack motivou a vendedora ambulante Aliel Pereira Alves, 49 anos, a tomar uma atitude de desespero. Sem saber o que fazer com a agressividade do filho e na tentativa de evitar maiores problemas, a mãe chegou ao extremo de acionar o 190 e pedir a intervenção da Polícia Militar.

O drama da comerciante começou quando seu filho de 27 anos teve mais uma crise na noite desta segunda-feira, na casa onde mora com a mãe e um irmão mais novo.

"Fazia quatro dias que ele estava fora de casa, perdido na cracolândia daqui. Já tinha rodado toda a cidade atrás dele com meu namorado, e não encontrei. Na segunda ele veio para casa, mas queria sair novamente. Foi então que tentamos impedir e ele acabou pegando uma faca para tentar abrir a porta. Foi quando liguei para a polícia", conta Aliel.

Dois policiais foram deslocados até a residência situada na Bela Vista, mas o drama da mãe aumentou. "Os policiais disseram que não podem prender usuários, e meu filho acabou escapando". Inconformada, ela voltou a ligar no Centro de Operações da PM (Copom), onde foi instruída a buscar a Base Comunitária Noroeste e solicitar o nome dos dois soldados que atenderam a ocorrência.


Resistência


Ela conta que poucos minutos depois, os dois soldados que estiveram em sua casa chegaram na base. Depois de tentar conversar com eles, em desespero e aflita, a mãe acabou sendo presa por desacato, resistência e desobediência, segundo consta em boletim de ocorrência lavrado no Plantão Policial às 4h45 de ontem.

No B.O. consta ainda que Aliel Pereira proferiu as seguintes palavras de desacato: "Vocês não resolvem nada. Eu pago os salários de vocês. Vocês têm que prender meu filho" (sic).

A comerciante confirma que mencionou o pagamento dos salários dos policiais, mas nega ter erguido o tom de voz. "Pagamos os impostos que são destinados a pagar as contas do Estado. Estou errada? Não. Mas em nenhum momento alterei minha voz ou ofendi os policiais", diz a mãe.

Acusada de desacato, ela confirma que se negou a passar informações necessárias para a elaboração do B.O., como consta no documento. "Eu estava com medo e desesperada", diz. Conduzida até o Plantão, Aliel Pereira aguardou a chegada de seu namorado e foi liberada.

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Um drama comum a muitos


O drama vivido por Aliel Pereira, infelizmente, faz parte de uma realidade cada dia mais evidente em uma sociedade dominada pela violência gerada pelo tráfico de drogas. Como foi mostrado na reportagem do JC no dia 24 de julho, intitulada "Culpa faz adoecer as ?mães? do crack", muitas vezes ter um filho dependente químico é sinônimo de fracasso.

Os momentos de angústia são constantes na vida daquelas que projetaram um futuro melhor para os filhos, mas que os viram tomar rumos bem diferentes dos almejados.

O caso do filho de Aliel Pereira Alves é a repetição de um futuro promissor interrompido pela dependência química. "Ele começou usando maconha, depois foi para a cocaína, mas havia parado. Foi quando ele mudou- para São Paulo, arrumou um ótimo emprego, mas acabou caindo de vez no crack", conta a mãe do dependente.

O retorno para Bauru seria a saída do mundo das drogas. Mas ao chegar na cidade, a realidade foi a mesma encontrada na Capital. "Aqui ele achou a mesma coisa de lá, a cracolândia. Cinco minutos nesse lugar e você pode ver coisas que nunca imaginou. Parecem um monte de zumbis te agarrando pelo braço e pedindo ajuda", conta a mãe, lembrando de suas buscas para encontrar o filho nas "bocas" das periferias.

Se não bastasse o transtorno da última segunda-feira, a mãe que chora pelo constrangimento de ter sido presa por desacato sofre com mais um sumiço de seu filho. "Ele não veio de novo. Não sei quando vai voltar e se vai voltar. Já perdi uma filha por doença e um filho por causa da droga, e estou vendo que vou perder mais um. Minha vontade é de ter uma família feliz, mas não estou conseguindo", lamenta.

Até o fechamento desta edição o jovem não havia retornado para casa. "Não sei o que fazer agora. Mas enquanto eu puder lutar por ele, eu vou lutar", desabafa.

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