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Murdoch, Cabrini e o jornalismo

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 3 min

Foi-se, de longe, aquele tempo romântico e, há quem ache, talvez o melhor que o Jornalismo viveu em suas redações. A surrada Olivetti, o texto quase que literário e os desafiadores dribles na censura. Tínhamos uma missão, fazer um País livre. Na outra ponta da produção, uma diagramação feita à unha, a tipia forjada a chumbo e o forte cheiro da tinta, quase inebriante, que anunciava o jornal pronto.

A cada nova edição, uma voz instigante que excitava corações e mentes para uma reflexão crítica. Sim, havia um mundo ainda maior, e quem dera, possivelmente melhor do que o herdado pelos limites a nós proporcionados. Samuel Wainer, Cláudio Abramo e Mino Carta são alguns entre tantos conhecidos e anônimos que fizeram das redações uma grande angular capaz de ampliar os sentidos de nossas vidas. Mino ainda o faz, está bem vivo e preserva a boa efervescência. Mesmo cultuado como peça de museu.

É obvio que existia lixo, e aos montes, como hoje. O fato de sermos livres não quer dizer que somos justos. O ponto é que sem liberdade jamais chegaremos à justiça almejada. Talvez nem existam, como desejamos, nem liberdade nem justiça. Mas podemos ser melhores quanto maiores forem as nossas opções de aquisição de conhecimento, de ampliação da nossa capacidade de discernimento e do desejável equilíbrio de oportunidades. Nestas buscas, a imprensa, livre, foi, é, e será sempre uma grande, forte e fiel aliada. Para dar certo, no entanto, é preciso combinar uma coisa, fundamental. Ela tem que ser ética. Ah, também precisa ser crítica. Sem esses ingredientes não há imprensa, ou melhor... não é imprensa.

As redações mudaram, já não existem mais os grandes mestres formando seus competentes pupilos. Essa responsabilidade pela formação foi para a faculdade, frágil. Com seus currículos cada vez mais técnicos e uma visão exageradamente mercantilista não soube, aliada à opacidade da categoria, nós jornalistas, ensinar uma lição básica: liberdade de expressão é diferente de desregulamentação da profissão. Quem faz da formação de opinião o seu ganha-pão precisa estar preparado, e bem, para fazê-lo.

 E se nas redações a realidade já não é mais a mesma, nas ruas também. Cadê nossos repórteres? Roberto Cabrini, Tim Lopes, Caco Barcelos, entre outros poucos, são raros bons exemplos deste segmento em extinção. Numa profissão que são os olhos e ouvidos da sociedade, ainda tão cheia de maracutaias, falcatruas e crimes de toda a ordem, exercer o bom jornalismo tem seus riscos. À espreita, não faltam ciladas que mancham reputações, eliminam vidas ou enquadram ímpetos.

E assim foi, respectivamente. Mas e Rupert Murdoch?  Ah ta. Formar opinião num mundo cada vez mais pautado pela informação dá muito poder e lucro, até aí tudo bem. A sensação de onipotência, onipresença e onisciência como efeitos colaterais podem levar ao esquecimento de que no ramo da comunicação, o Jornalismo antes de ser um negócio, é uma instituição. E só será um bom negócio se for respeitado como instituição que é. 

O autor, Luís Victorelli, é jornalista e atua na USP. Criou o primeiro curso privado de Jornalismo de Bauru e foi diretor do Sindicato dos Jornalistas de SP por três gestões. Dividiu com Cabrini Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. lvbauru@gmail.com

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