Foi muito bom que o governo da presidente Dilma tenha encontrado a oportunidade para a execução de uma política industrial. Sempre existem muitas críticas de pessoas que crêem que o mercado sozinho providencia o crescimento, que o Estado não tem um papel a desempenhar no processo de desenvolvimento. Mas isso é negado na História dos países que se desenvolveram mais do que outros.
Não é a história brasileira. A história do mundo ensina que nunca houve um processo de crescimento econômico correto e sustentável sem um Estado Indutor capaz de conduzi-lo. Foi assim no Império Britânico do século 18, foi assim na extraordinária história do desenvolvimento dos Estados Unidos e não foi diferente na Alemanha ou na França. Em todos esses países, o Estado Indutor forneceu os rumos para o setor privado realizar o crescimento.
Não é preciso confundir as coisas: de fato, quem faz o desenvolvimento é o setor privado, mas sob a indução de um Estado que sabe o que quer. Em nosso caso, infelizmente, setores de ponta da indústria brasileira estão sendo destruídos por culpa dos equívocos acumulados nos últimos anos que permitiram a super valorização do Real, desestimulando os investimentos orientados para as exportações industriais, com o abandono da atividade por parte de empresas altamente capacitadas para a competição nos mercados externos.
Tenho reclamado a atenção dos responsáveis pela política monetária, em diferentes ocasiões, para um raciocínio simples que muitos insistem em ignorar porque lhes parece que um horizonte de vinte anos é tão distante que não adianta se preocupar com o que estamos construindo (no caso, destruindo) agora: 2030 está ali à vista, é o tempo de uma geração de brasileiros se tornar adulta e nós estamos negligenciando a oportunidade de criar empregos de boa qualidade para os 150 milhões de brasileiros que terão entre 15 e 65 anos. É de uma evidência absoluta que nossa economia não terá as condições de atender as necessidades mínimas de empregos decentes para estes brasileiros, com o modelo atual sustentado na produção agrícola e mineral e dependente de exportações para a China. Em primeiro lugar ninguém garante que a China vai continuar se comportando de forma a manter o ritmo atual de crescimento pelos próximos vinte anos.
O que realmente pode nos dar a condição de retomar o desenvolvimento e sustentá-lo pelas próximas décadas é a execução de um programa permanente de política industrial com dois objetivos fundamentais: o primeiro é que estimule duramente a competição interna, quer dizer, que internamente o Brasil caminhe na direção de um sistema altamente competitivo; e o segundo objetivo é construir um sistema que proteja externamente e com inteligência a indústria nacional, de tal forma que ela só complete o seu custo mínimo na margem das exportações. Significa que o Brasil tem que usar o seu mercado interno, que é o maior ativo que possuímos, para sustentar os investimentos na ampliação e modernização da produção industrial que nos permitam garantir níveis de emprego e a continuidade da inclusão social aos milhões de jovens que anualmente chegam ao mercado de trabalho.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento