Bairros

Vizinhos ?ocupam? Nações Norte e revelam falta de lazer nos bairros

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 14 min

Asfalto. Na definição técnica do dicionário, é a mistura de rocha asfáltica triturada, betume e outros componentes usados para pavimentação de ruas. Entretanto, longe dessa proposição “fria” da palavra, para alguns o asfalto significa muito mais. É o caso dos moradores de bairros margeantes da recém-inaugurada avenida Nações Norte, em Bauru. Como numa plateia maravilhada, se apropriam a cada dia do simples asfalto frio e seus entornos para promover lazer, cultura,  diversão, esportes e tudo mais que é carente – ou inexistente – nos bairros onde vivem. Mas por lá também tem imprudência.

Para constatar tudo isso, basta andar nos 3,5 quilômetros da avenida. Pessoas fazendo caminhada, outras de bicicleta, algumas bem à beira do asfalto brincando com seus filhos e netos como se estivessem em uma praça ou bosque. E isso bem no meio da semana.

“Antes era só mato. Eu gosto é de andar de bicicleta. Mas só quando minha mãe vai junto”, conta Cauã Mateus, 7 anos, que, sobre o muro da sua casa, localizada no bairro Nossa Senhora de Lourdes, observava o movimento da via.

“Moro há 20 anos aqui e mudou tudo. Tenho três filhos e, mais do que uma avenida, isso aqui virou um ponto de lazer para a criançada e para todos nós”, conta a dona de casa Vanderléia Fermino, 35 anos, mãe do pequeno Cauã. 

Aos sábados e domingos, o tranquilo local de lazer se transforma em point. Desde que foi inaugurada, no dia 18 de junho, a avenida tornou-se local de encontro de jovens e adultos atraídos pelo “campo de batalha” de pipas, por conhecer gente nova, tomar uma cervejinha e ou simplesmente ouvir ao ecletismo musical que, em poucos metros e carros de som à frente, varia do rap (predominante) ao sertanejo universitário.

Mais do que um meio de ligação entre os bairros, a Nações Norte tornou-se o que, com muita propriedade, define o encarregado Márcio Amilton Nunes, 35 anos, como a “Nações da Periferia”.

“Isso aqui (o local onde existe a promessa da construção do Parque do Castelo) é nada mais do que um buraco. Ainda não tem nada pronto e olha a alegria desse pessoal. Olha que coisa bonita. A gente se diverte aqui porque nos nossos bairros não têm nada. Queremos ginásio, parques, praças”, desabafa Márcio, morador do Núcleo Gasparini e que, com uma bolsa térmica “municiada” de cervejas, veio passar o domingo na avenida com um grupo de 25 amigos.

 

Programa dominical

Após atravessar todo o terreno sob olhares desconfiados lançados pelos margeantes que utilizam seu mais novo espaço de lazer, a reportagem encontrou uma família na outra “borda” do local.

“Moramos na Vila Garcia. Antes, era só mato e não estaríamos aqui. Com certeza, estaríamos na frente da TV. Passamos a tarde toda de domingo sentados vendo a galera”, conta o vidraceiro Marco Antônio Ferreira, 37 anos, acompanhado da esposa, irmãs e sobrinhos.

A cena da família simboliza exatamente o que se tornou o local. Do mesmo modo que alguns vão ao cinema ou ao teatro, eles, sentados com cadeiras que levaram de suas casas, assistiam a tudo lá de cima. Cada pipa que perdia altura no céu, seguida automaticamente pela aglomeração da criançada, retirava um sorriso da família.

“Somente quando escurece e os pernilongos começam a atacar é que todo mundo vai embora. Mas, no fim de semana que vem, todos voltam”, conta Marlene Ferreira, assinalando não só que o domingo acabara, porém, principalmente, a expectativa de lazer – mesmo temporário - que esses margeantes da Nações Norte encontraram em um simples asfalto.

 

Os margeantes

Um grande número de bairros está nas beiradas da Nações Norte. Entre esses margeantes e sua população estão a Vila Seabra, Jardim José Kalil, Jardim Nossa Senhora de Lourdes, Vila Bom Jesus, Jardim São Jorge, Vila Marajoara, Jardim Coral, Jardim Progresso, Núcleo Residencial Alto Alegre, Parque Roosevelt, Parque Vista Alegre, Vila Formosa, Jardim Maria Angélica,  Jardim Ponte da Castelo, Jardim Godoy, Jardim Jacyra, Jardim Estrela D’Alva, Vila Garcia , entre outros. Ainda existem mais alguns bairros que também passaram a conviver com a avenida como o Núcleo Gasparini, Parque Jaraguá, entre outros.

 

Prefeito admite carências

Quando questionados sobre o porquê utilizam como lazer o que era para ser inicialmente apenas uma avenida, todos são unânimes em dizer que é pela falta – ou inexistência - de opções da Zona Norte. O prefeito de Bauru Rodrigo Agostinho (PMDB) concorda e ainda vai além.

“Não é só lá. A cidade inteira é desprovida de áreas de lazer. Ela cresceu de maneira muito rápida sem esses espaços. Temos o Parque Vitória Régia e pouquíssimos bosques urbanizados. Estamos tentando mudar isso com as praças e as academias ao ar livre, que estão sendo entregues”, aponta.

Para o prefeito, a construção do Parque do Castelo, cuja área destinada no projeto equivale a 15 vezes às dimensões do Vitória Régia, é esperada para tentar suprir relativa parte dessa carência. “Além de um lago, teremos quadras, um complexo poliesportivo, instalações para shows, pontos de lazer, entre outros”.

Entretanto, ainda parece faltar algum tempo para a obra sair do papel. “A prefeitura está montando o projeto de urbanização do parque de acordo com o relevo que ficou após a construção da rodovia. Antes, não sabíamos como ia ficar o relevo e, por isso, é que agora estamos fazendo inclusive a iluminação daquela parte”, completa o chefe do Executivo.

 

Moradores ressignificaram a avenida

O comportamento dos margeantes da Nações Norte pode ser explicado. Para professores, o que ocorre é um fenômeno de ressignificação do espaço e, consequentemente, de seus objetivos principais. No ponto em questão, o fato é intensificado pelas condições periféricas dos bairros próximos, que, no bom sentido, impuseram uma “rebelião” no local. 

Para o professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Cláudio Bertolli, esse fenômeno que colocou em segundo plano o sentido de acesso na avenida é bastante visto em obras desse porte.

“A sociedade, por sua própria natureza, toma os espaços. Quando a urbanização ocupa lugares, a primeira reação do grupo é reagir e resistir. É uma rebelião. Por isso é que se encontram pessoas andando na via como se não passassem carros e motoristas sem o costume de andar por lá”, explica.

No caso da região onde a Nações Norte foi construída, ainda existe outro fator que intensifica essa ressignificação: por serem áreas periféricas, muitos bairros não têm nada para o lazer. Segundo o professor, a população de renda mais baixa enxerga ali um local onde pode se divertir – mesmo em um “buraco” sem qualquer urbanização – e não sofrer qualquer tipo de preconceito.

“Existe algo na antropologia que se chama ‘pedaço’. Quando a pessoa diz que aquela é a ‘Nações da Periferia’, ela quer dizer isso. Ela sente que as classes mais altas tomaram a outra parte da avenida. Assim, este pedaço, que foi construído agora, é das classes mais baixas”.

O professor de história e filosofia da rede de ensino estadual Pedro Fernandes desenvolve atualmente uma pesquisa sobre áreas periféricas. Em convergência com a visão do professor de antropologia Bertolli, ele afirma que o tamanho da área propicia a ressignificação e aglomeração.

“O morador da periferia está acostumado a conviver lado a lado com a criminalidade. E ele faz isso em pequenos espaços. Em uma área grande, a criminalidade também existe, porém, ela está em determinados núcleos. Esses núcleos, por terem espaço amplo, conseguem ficar separados uns dos outros. É um ponto de encontro em que grupos ficam separados”, explica.

 

Moradias

Com foco em assentamentos da periferia, a pesquisa do professor Fernandes elucida outra faceta interessante do fenômeno. A própria estrutura precária das moradias repele a população para as ruas.  “As casas são pequenas e geralmente as famílias são numerosas. Assim, não ficam dentro de casa. Preferem ficar na rua. E, como não existem opções de lazer, eles se apropriam do que já existe. É por isso que, na Nações Norte, enxergam e fazem um lazer improvisado”, conclui o professor.

 

Futuro

Para o professor Cláudio Bertolli, a tendência é de que, com a própria urbanização e o passar dos meses, a avenida Nações Norte recupere sua significação natural. “Ao passo que os motoristas entendam e se acostumem a usar a via, acredito que, dentro de alguns meses, o local voltará a ter seu primeiro objetivo, que é o de ser uma simples avenida”. A utilização do espaço para o lazer deve continuar – de forma bem melhor - somente se for construído o Parque do Castelo.

 

Consciência

Em conversas com os usuários do lazer criado na Nações Norte, todos os margeantes são quase que unânimes em afirmar que improvisaram a área por conta da ausência de  espaços de lazer. Mais do que um entendimento estrutural e logístico da cidade, o professor de antropologia da Unesp de Bauru, Cláudio Bertolli, explica que essa consciência surge de algo intrínseco ao ser humano: a necessidade de lazer.

“Isso é algo que está presente desde os gregos e egípcios. Todos têm essa consciência de que o lúdico é necessário. E eles buscam isso, mesmo que seja pelo improviso”, conclui.

 

Vizinhos se queixam da falta de mais acessos

Alguns moradores nos entornos da avenida reclamam que a Nações Norte dificultou a interligação entre bairros. Por conta disso, alguns revelam sentimento de estarem praticamente ilhados. É o caso de Daniela Priscila Bispo, 30 anos. A dona de casa, moradora do bairro Nossa Senhora de Lourdes, tem parentes do outro lado da avenida e afirma que a situação piorou bastante com a obra. “Ou atravessamos a pista ou temos que dar a volta lá na rotatória, que é lá em cima. Até para ir de carro ficou muito longe. Precisa de mais acessos e de passarelas urgentes”, reclama. 

Amanda Bonini, 31 anos, também vive a mesma situação. Ela reside de um lado da pista e seu sogro, do outro. “Fico preocupada em alguma emergência. Ficou mais demorado. Até motoristas do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) já reclamaram”, conclui, em tom de cobrança.

 

‘Os excluídos dificilmente excluem’, explica professor

Diversidade. É exatamente isso que se vê na Nações Norte. Em meio ao amontoado de pessoas, encontra-se gente de diversos estilos, idades, preferências musicais e orientações sexuais. Uma concentração que, ao contrário do que seria provável, não resulta em qualquer desentendimento.

Para o professor de história e filosofia da rede de ensino estadual Pedro Fernandes, a harmonia ocorre porque todos têm algo em comum: a exclusão. “A maioria das pessoas que estão lá são excluídas. E os excluídos dificilmente excluem. Então, eles sabem conviver com a diversidade”.

Para o professor, além desse sentimento comum da periferia, contribui ainda o comportamento pacífico do bauruense. “Esse é outro ponto importante. O povo daqui é pacífico. Às vezes, ocorrem diversos problemas e eles não se manifestam, não brigam. É esse comportamento pacífico que também não faz com que surjam mais problemas”.

 

‘Linha’ separa a brincadeira da tragédia

No chão, a pessoa segura um carretel com metros e metros de barbante; no céu, as pipas se digladiam em intensas batalhas. Apesar das inúmeras atividades desenvolvidas ao longo da extensão da Nações Norte, essa é a que predomina. O terreno, onde será o Parque do Castelo, tornou-se um verdadeiro coliseu dessa atividade, na qual a munição - quase que - obrigatória é a ilegal e perigosa linha com cerol.

Nessa batalha, orgulha-se quem mais cortar a pipa do adversário. E isso é bastante frequente. Frases como “já é a décima (pipa) que eu corto” e outros gritos de “corre para pegar que ela caiu” dão ideia desse curto intervalo de tempo. Alguns nem chegam a empinar a pipa: ficam com uma vara de bambu esperando para pegar alguma que foi abatida pelos céus.

O terreno ajuda. Com grande área para correr e poucos fios elétricos, muitas pessoas passam o dia inteiro enfrentando os adversários. Entretanto, essa batalha, concentrada bem distante do solo, pode acabar em tragédia.

É quase impossível encontrar alguém que não utilize cerol em sua linha. O problema já assumiu proporções tão grandes que alguns jovens, cujas identidades foram preservadas, revelam uma situação extrema. “A procura pelo cerol é tão grande que alguns estabelecimentos já vendem a linha com o cortante”.

Muitos outros confessam o uso do cerol. Todos afirmam tomar cautela, principalmente, com motociclistas. Os problemas, todavia, não deixam de aparecer. “Esses dias quase que um motociclista foi pego. Por pouco a linha não o acertou”, revela outro adolescente.

Há ainda mais um grande perigo quando se usa esse tipo de linha. Caso atinja algum fio de energia elétrica, a possibilidade de que haja descarga elétrica é muito grande. Em alguns casos, o choque chega a ser fatal.

 

Polícia

Segundo o comandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, estão sendo feitas fiscalizações na área, entretanto, como é um local novo, ainda há estudos em andamento.

“Apesar de fazermos fiscalizações, ainda estamos estudando o local. A polícia sempre age mediante a demanda que possui. Como é um lugar novo, ainda não existem tais demandas”, explica.

Em várias incursões policiais no local, muitas pipas com cerol foram apreendidas. De acordo com o Centro de Operações da Policia Militar (Copom), várias das denúncias feitas pela população são relativas ao cerol, sendo que, grande parte, é na Nações Norte.

“Quando fizemos o estudo do videomonitoramento, que, em breve, contará com 20 câmeras em Bauru, não havia a Nações Norte. Então, teremos que realocar os pontos já definidos. Certamente é uma via que irá necessitar de algumas dessas câmeras”, completa o comandante Garcia. Os pontos das câmeras foram definidos recentemente, entretanto, a Nações Norte não foi contemplada.

 

Acidentes e prejuízos

O último acidente registrado em Bauru, segundo levantamento extraoficial feito pelo JC, envolvendo motociclistas e linha de cerol foi registrado em 2009. Atualmente, grande parte dos condutores faz uso de uma antena na motocicleta para evitar que a linha chegue ao pescoço. No entanto, o restante do corpo fica exposto ao cortante.

Segundo dados divulgados pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) de Bauru, no ano passado, o cerol foi responsável por 207 desligamentos de energia elétrica na cidade. A companhia alerta também para o problema de probabilidade de choque através da condução de eletricidade pela linha da pipa.

 

Velocidade dos carros e imprudência de pedestres assustam

Além da batalha que “rasga” – literalmente – os céus, existe outro grande risco: os atropelamentos. Por várias oportunidades, a reportagem flagrou jovens que, entretidos com as pipas, atravessavam a avenida sem sequer olhar para os lados.

Alguns, que querem se manter longe do local onde será construído o Parque do Castelo, até mesmo ficam sobre a pista. A disputa de espaço com os veículos, inclusive caminhões, é assustadora. “Esses espaços foram tomados desses garotos. Antes, existiam terrenos baldios. Agora, com a pista, eles resistem e continuam se comportando da mesma maneira”, explica professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Cláudio Bertolli.

Sem qualquer redutor de velocidade, os excessos dos motoristas também são frequentes. Além dos carros, existem os motociclistas que vão ao local para demonstrar irresponsáveis acrobacias. O prefeito Rodrigo Agostinho explica que não é possível colocar lombadas na via por conta dos declives. “Além de campanhas de conscientização, iremos comprar radares”.

Entretanto, para serem instalados os radares, é necessária a conclusão de um estudo que está sendo realizado pela Empresa Municipal do Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb). Por meio da assessoria de comunicação, a empresa municipal informou que complementou a sinalização horizontal e vertical em parte da avenida.

Em relação ao estudo, informou que os objetivos são analisar o número de veículos na via, comprovar abuso de velocidade e o potencial de risco. A data em que será finalizado, porém, não foi mencionada.

 

Animais

Outro perigo existente na via é a presença de animais. Recentemente, conforme o JC noticiou, em menos de um quilômetro de distância, um grupo de vacas e outro de cavalos andavam livremente pela Nações Norte. No quilômetro 1 da avenida, cinco vacas pastavam no canteiro central. Já no quilômetro 2, três cavalos atravessavam a pista. Algumas pessoas tentaram espantar os animais, porém, sem êxito. Felizmente, nenhum acidente ocorreu.

 

Pipas criam até novo empreendedor

Além dos que se divertem com as pipas e do risco envolvido nessa atividade, há aqueles que, com espírito empreendedor, encontraram uma forma de angariar renda extra. É o caso de Alexon Luís Correa dos Santos, ou melhor, Alex Pipa.

Há pouco mais de duas semanas, o mecânico, de 26 anos, passou a vender pipas na Nações Norte durante os sábados e domingos. “Eu sempre vinha soltar pipa aqui. Via que muitas pessoas tinham as linhas cortadas e não tinham mais como brincar. Então, fui para São Paulo, comprei algumas pipas e estou vendendo agora”.

Ele garante que a renda extra compensa. Aos sábados, o jovem tem uma média de R$ 70,00 de lucro e, aos domingos, esse valor passa de R$ 100,00.

“Está dando tão certo que comecei com pipa e agora estou vendendo refrigerante e cerveja. A procura é muito grande”, completa Alex Pipa.

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