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Nações Norte: muito além do asfalto

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Asfalto. Na definição técnica do dicionário, é a mistura de rocha asfáltica triturada, betume e outros componentes usados para pavimentação de ruas. Entretanto, longe dessa proposição "fria" da palavra, para alguns o asfalto significa muito mais. É o caso dos moradores de bairros margeantes da recém-inaugurada avenida Nações Norte, em Bauru. Como numa plateia maravilhada, se apropriam a cada dia do simples asfalto frio e seus entornos para promover lazer, cultura, diversão, esportes e tudo mais que é carente ? ou inexistente ? nos bairros onde vivem. Mas por lá também tem imprudência.

Para constatar tudo isso, basta andar nos 3,5 quilômetros da avenida. Pessoas fazendo caminhada, outras de bicicleta, algumas bem à beira do asfalto brincando com seus filhos e netos como se estivessem em uma praça ou bosque. E isso bem no meio da semana.

"Antes era só mato. Eu gosto é de andar de bicicleta. Mas só quando minha mãe vai junto", conta Cauã Mateus, 7 anos, que, sobre o muro da sua casa, localizada no bairro Nossa Senhora de Lourdes, observava o movimento da via.

"Moro há 20 anos aqui e mudou tudo. Tenho três filhos e, mais do que uma avenida, isso aqui virou um ponto de lazer para a criançada e para todos nós", conta a dona de casa Vanderléia Fermino, 35 anos, mãe do pequeno Cauã.

Aos sábados e domingos, o tranquilo local de lazer se transforma em point. Desde que foi inaugurada, no dia 18 de junho, a avenida tornou-se local de encontro de jovens e adultos atraídos pelo "campo de batalha" de pipas, por conhecer gente nova, tomar uma cervejinha e ou simplesmente ouvir ao ecletismo musical que, em poucos metros e carros de som à frente, varia do rap (predominante) ao sertanejo universitário.

Mais do que um meio de ligação entre os bairros, a Nações Norte tornou-se o que, com muita propriedade, define o encarregado Márcio Amilton Nunes, 35 anos, como a "Nações da Periferia".

"Isso aqui (o local onde existe a promessa da construção do Parque do Castelo) é nada mais do que um buraco. Ainda não tem nada pronto e olha a alegria desse pessoal. Olha que coisa bonita. A gente se diverte aqui porque nos nossos bairros não têm nada. Queremos ginásio, parques, praças", desabafa Márcio, morador do Núcleo Gasparini e que, com uma bolsa térmica "municiada" de cervejas, veio passar o domingo na avenida com um grupo de 25 amigos.


Programa dominical

Após atravessar todo o terreno sob olhares desconfiados lançados pelos margeantes que utilizam seu mais novo espaço de lazer, a reportagem encontrou uma família na outra "borda" do local.

"Moramos na Vila Garcia. Antes, era só mato e não estaríamos aqui. Com certeza, estaríamos na frente da TV. Passamos a tarde toda de domingo sentados vendo a galera", conta o vidraceiro Marco Antônio Ferreira, 37 anos, acompanhado da esposa, irmãs e sobrinhos.

A cena da família simboliza exatamente o que se tornou o local. Do mesmo modo que alguns vão ao cinema ou ao teatro, eles, sentados com cadeiras que levaram de suas casas, assistiam a tudo lá de cima. Cada pipa que perdia altura no céu, seguida automaticamente pela aglomeração da criançada, retirava um sorriso da família.

"Somente quando escurece e os pernilongos começam a atacar é que todo mundo vai embora. Mas, no fim de semana que vem, todos voltam", conta Marlene Ferreira, assinalando não só que o domingo acabara, porém, principalmente, a expectativa de lazer ? mesmo temporário - que esses margeantes da Nações Norte encontraram em um simples asfalto.

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Os margeantes


Um grande número de bairros está nas beiradas da Nações Norte. Entre esses margeantes e sua população estão a Vila Seabra, Jardim José Kalil, Jardim Nossa Senhora de Lourdes, Vila Bom Jesus, Jardim São Jorge, Vila Marajoara, Jardim Coral, Jardim Progresso, Núcleo Residencial Alto Alegre, Parque Roosevelt, Parque Vista Alegre, Vila Formosa, Jardim Maria Angélica, Jardim Ponte da Castelo, Jardim Godoy, Jardim Jacyra, Jardim Estrela D?Alva, Vila Garcia , entre outros. Ainda existem mais alguns bairros que também passaram a conviver com a avenida como o Núcleo Gasparini, Parque Jaraguá, entre outros.

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Prefeito admite carências


Quando questionados sobre o porquê utilizam como lazer o que era para ser inicialmente apenas uma avenida, todos são unânimes em dizer que é pela falta ? ou inexistência - de opções da Zona Norte. O prefeito de Bauru Rodrigo Agostinho (PMDB) concorda e ainda vai além.

"Não é só lá. A cidade inteira é desprovida de áreas de lazer. Ela cresceu de maneira muito rápida sem esses espaços. Temos o Parque Vitória Régia e pouquíssimos bosques urbanizados. Estamos tentando mudar isso com as praças e as academias ao ar livre, que estão sendo entregues", aponta.

Para o prefeito, a construção do Parque do Castelo, cuja área destinada no projeto equivale a 15 vezes às dimensões do Vitória Régia, é esperada para tentar suprir relativa parte dessa carência. "Além de um lago, teremos quadras, um complexo poliesportivo, instalações para shows, pontos de lazer, entre outros".

Entretanto, ainda parece faltar algum tempo para a obra sair do papel. "A prefeitura está montando o projeto de urbanização do parque de acordo com o relevo que ficou após a construção da rodovia. Antes, não sabíamos como ia ficar o relevo e, por isso, é que agora estamos fazendo inclusive a iluminação daquela parte", completa o chefe do Executivo.

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