O comportamento dos margeantes da Nações Norte pode ser explicado. Para professores, o que ocorre é um fenômeno de ressignificação do espaço e, consequentemente, de seus objetivos principais. No ponto em questão, o fato é intensificado pelas condições periféricas dos bairros próximos, que, no bom sentido, impuseram uma "rebelião" no local.
Para o professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Cláudio Bertolli, esse fenômeno que colocou em segundo plano o sentido de acesso na avenida é bastante visto em obras desse porte.
"A sociedade, por sua própria natureza, toma os espaços. Quando a urbanização ocupa lugares, a primeira reação do grupo é reagir e resistir. É uma rebelião. Por isso é que se encontram pessoas andando na via como se não passassem carros e motoristas sem o costume de andar por lá", explica.
No caso da região onde a Nações Norte foi construída, ainda existe outro fator que intensifica essa ressignificação: por serem áreas periféricas, muitos bairros não têm nada para o lazer. Segundo o professor, a população de renda mais baixa enxerga ali um local onde pode se divertir ? mesmo em um "buraco" sem qualquer urbanização ? e não sofrer qualquer tipo de preconceito.
"Existe algo na antropologia que se chama ?pedaço?. Quando a pessoa diz que aquela é a ?Nações da Periferia?, ela quer dizer isso. Ela sente que as classes mais altas tomaram a outra parte da avenida. Assim, este pedaço, que foi construído agora, é das classes mais baixas".
O professor de história e filosofia da rede de ensino estadual Pedro Fernandes desenvolve atualmente uma pesquisa sobre áreas periféricas. Em convergência com a visão do professor de antropologia Bertolli, ele afirma que o tamanho da área propicia a ressignificação e aglomeração.
"O morador da periferia está acostumado a conviver lado a lado com a criminalidade. E ele faz isso em pequenos espaços. Em uma área grande, a criminalidade também existe, porém, ela está em determinados núcleos. Esses núcleos, por terem espaço amplo, conseguem ficar separados uns dos outros. É um ponto de encontro em que grupos ficam separados", explica.
Moradias
Com foco em assentamentos da periferia, a pesquisa do professor Fernandes elucida outra faceta interessante do fenômeno. A própria estrutura precária das moradias repele a população para as ruas. "As casas são pequenas e geralmente as famílias são numerosas. Assim, não ficam dentro de casa. Preferem ficar na rua. E, como não existem opções de lazer, eles se apropriam do que já existe. É por isso que, na Nações Norte, enxergam e fazem um lazer improvisado", conclui o professor.
Futuro
Para o professor Cláudio Bertolli, a tendência é de que, com a própria urbanização e o passar dos meses, a avenida Nações Norte recupere sua significação natural.
"Ao passo que os motoristas entendam e se acostumem a usar a via, acredito que, dentro de alguns meses, o local voltará a ter seu primeiro objetivo, que é o de ser uma simples avenida".
A utilização do espaço para o lazer deve continuar ? de forma bem melhor - somente se for construído o Parque do Castelo.
Consciência
Em conversas com os usuários do lazer criado na Nações Norte, todos os margeantes são quase que unânimes em afirmar que improvisaram a área por conta da ausência de espaços de lazer. Mais do que um entendimento estrutural e logístico da cidade, o professor de antropologia da Unesp de Bauru, Cláudio Bertolli, explica que essa consciência surge de algo intrínseco ao ser humano: a necessidade de lazer.
"Isso é algo que está presente desde os gregos e egípcios. Todos têm essa consciência de que o lúdico é necessário. E eles buscam isso, mesmo que seja pelo improviso", conclui.
Vizinhos se queixam da falta de mais acessos
Alguns moradores nos entornos da avenida reclamam que a Nações Norte dificultou a interligação entre bairros. Por conta disso, alguns revelam sentimento de estarem praticamente ilhados.
É o caso de Daniela Priscila Bispo, 30 anos. A dona de casa, moradora do bairro Nossa Senhora de Lourdes, tem parentes do outro lado da avenida e afirma que a situação piorou bastante com a obra.
"Ou atravessamos a pista ou temos que dar a volta lá na rotatória, que é lá em cima. Até para ir de carro ficou muito longe. Precisa de mais acessos e de passarelas urgentes", reclama.
Amanda Bonini, 31 anos, também vive a mesma situação. Ela reside de um lado da pista e seu sogro, do outro. "Fico preocupada em alguma emergência. Ficou mais demorado. Até motoristas do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) já reclamaram", conclui, em tom de cobrança.
?Os excluídos dificilmente excluem?, explica professor
Diversidade. É exatamente isso que se vê na Nações Norte. Em meio ao amontoado de pessoas, encontra-se gente de diversos estilos, idades, preferências musicais e orientações sexuais. Uma concentração que, ao contrário do que seria provável, não resulta em qualquer desentendimento.
Para o professor de história e filosofia da rede de ensino estadual Pedro Fernandes, a harmonia ocorre porque todos têm algo em comum: a exclusão. "A maioria das pessoas que estão lá são excluídas. E os excluídos dificilmente excluem. Então, eles sabem conviver com a diversidade".
Para o professor, além desse sentimento comum da periferia, contribui ainda o comportamento pacífico do bauruense. "Esse é outro ponto importante. O povo daqui é pacífico. Às vezes, ocorrem diversos problemas e eles não se manifestam, não brigam. É esse comportamento pacífico que também não faz com que surjam mais problemas".