Geral

Moradores ressignificaram a avenida

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

O comportamento dos margeantes da Nações Norte pode ser explicado. Para professores, o que ocorre é um fenômeno de ressignificação do espaço e, consequentemente, de seus objetivos principais. No ponto em questão, o fato é intensificado pelas condições periféricas dos bairros próximos, que, no bom sentido, impuseram uma "rebelião" no local.

Para o professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Cláudio Bertolli, esse fenômeno que colocou em segundo plano o sentido de acesso na avenida é bastante visto em obras desse porte.

"A sociedade, por sua própria natureza, toma os espaços. Quando a urbanização ocupa lugares, a primeira reação do grupo é reagir e resistir. É uma rebelião. Por isso é que se encontram pessoas andando na via como se não passassem carros e motoristas sem o costume de andar por lá", explica.

No caso da região onde a Nações Norte foi construída, ainda existe outro fator que intensifica essa ressignificação: por serem áreas periféricas, muitos bairros não têm nada para o lazer. Segundo o professor, a população de renda mais baixa enxerga ali um local onde pode se divertir ? mesmo em um "buraco" sem qualquer urbanização ? e não sofrer qualquer tipo de preconceito.

"Existe algo na antropologia que se chama ?pedaço?. Quando a pessoa diz que aquela é a ?Nações da Periferia?, ela quer dizer isso. Ela sente que as classes mais altas tomaram a outra parte da avenida. Assim, este pedaço, que foi construído agora, é das classes mais baixas".

O professor de história e filosofia da rede de ensino estadual Pedro Fernandes desenvolve atualmente uma pesquisa sobre áreas periféricas. Em convergência com a visão do professor de antropologia Bertolli, ele afirma que o tamanho da área propicia a ressignificação e aglomeração.

"O morador da periferia está acostumado a conviver lado a lado com a criminalidade. E ele faz isso em pequenos espaços. Em uma área grande, a criminalidade também existe, porém, ela está em determinados núcleos. Esses núcleos, por terem espaço amplo, conseguem ficar separados uns dos outros. É um ponto de encontro em que grupos ficam separados", explica.


Moradias


Com foco em assentamentos da periferia, a pesquisa do professor Fernandes elucida outra faceta interessante do fenômeno. A própria estrutura precária das moradias repele a população para as ruas. "As casas são pequenas e geralmente as famílias são numerosas. Assim, não ficam dentro de casa. Preferem ficar na rua. E, como não existem opções de lazer, eles se apropriam do que já existe. É por isso que, na Nações Norte, enxergam e fazem um lazer improvisado", conclui o professor.

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Futuro


Para o professor Cláudio Bertolli, a tendência é de que, com a própria urbanização e o passar dos meses, a avenida Nações Norte recupere sua significação natural.

"Ao passo que os motoristas entendam e se acostumem a usar a via, acredito que, dentro de alguns meses, o local voltará a ter seu primeiro objetivo, que é o de ser uma simples avenida".

A utilização do espaço para o lazer deve continuar ? de forma bem melhor - somente se for construído o Parque do Castelo.

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Consciência


Em conversas com os usuários do lazer criado na Nações Norte, todos os margeantes são quase que unânimes em afirmar que improvisaram a área por conta da ausência de espaços de lazer. Mais do que um entendimento estrutural e logístico da cidade, o professor de antropologia da Unesp de Bauru, Cláudio Bertolli, explica que essa consciência surge de algo intrínseco ao ser humano: a necessidade de lazer.

"Isso é algo que está presente desde os gregos e egípcios. Todos têm essa consciência de que o lúdico é necessário. E eles buscam isso, mesmo que seja pelo improviso", conclui.

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Vizinhos se queixam da falta de mais acessos


Alguns moradores nos entornos da avenida reclamam que a Nações Norte dificultou a interligação entre bairros. Por conta disso, alguns revelam sentimento de estarem praticamente ilhados.

É o caso de Daniela Priscila Bispo, 30 anos. A dona de casa, moradora do bairro Nossa Senhora de Lourdes, tem parentes do outro lado da avenida e afirma que a situação piorou bastante com a obra.

"Ou atravessamos a pista ou temos que dar a volta lá na rotatória, que é lá em cima. Até para ir de carro ficou muito longe. Precisa de mais acessos e de passarelas urgentes", reclama.

Amanda Bonini, 31 anos, também vive a mesma situação. Ela reside de um lado da pista e seu sogro, do outro. "Fico preocupada em alguma emergência. Ficou mais demorado. Até motoristas do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) já reclamaram", conclui, em tom de cobrança.

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?Os excluídos dificilmente excluem?, explica professor


Diversidade. É exatamente isso que se vê na Nações Norte. Em meio ao amontoado de pessoas, encontra-se gente de diversos estilos, idades, preferências musicais e orientações sexuais. Uma concentração que, ao contrário do que seria provável, não resulta em qualquer desentendimento.

Para o professor de história e filosofia da rede de ensino estadual Pedro Fernandes, a harmonia ocorre porque todos têm algo em comum: a exclusão. "A maioria das pessoas que estão lá são excluídas. E os excluídos dificilmente excluem. Então, eles sabem conviver com a diversidade".

Para o professor, além desse sentimento comum da periferia, contribui ainda o comportamento pacífico do bauruense. "Esse é outro ponto importante. O povo daqui é pacífico. Às vezes, ocorrem diversos problemas e eles não se manifestam, não brigam. É esse comportamento pacífico que também não faz com que surjam mais problemas".

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