Na famosa história do escritor italiano Carlo Collodi, o personagem Pinóquio era um boneco de madeira com vida, cujo nariz crescia toda vez que mentia. Entretanto, muito além da ficção, identificar uma mentira na face das pessoas tornou-se ciência. Essa "leitura" é possível pois sinais aparecem quando o que sai da nossa boca entra em conflito com o que realmente sentimos. É o que afirma o mestre em psicologia Rui Mateus Joaquim. Com experiência em análise de comportamento, ele explica que nosso corpo funciona como uma "orquestra sinfônica", com todas as informações integradas.
"O nosso comportamento é uma resposta final do nosso cérebro. Assim, tudo está integrado. Quando ocorre um conflito entre essas informações, surge algum sinal que pode ser lido e identificar uma mentira", aponta. Segundo o psicólogo, esses sinais culminam nas microexpressões faciais. Desse modo, quando uma pessoa afirma sentir uma emoção, seu rosto pode apontar outras. "Existem sete emoções básicas. Para identificar uma mentira, é preciso conhecer essas emoções e as microexpressões de cada uma".
Um exemplo dessa "leitura" é quando alguém prova um alimento. Caso a pessoa não tenha gostado, ela pode até afirmar o contrário, porém, alguma microexpressão de nojo pode aparecer em seu rosto. É nesse momento que a mentira é identificada.
De acordo com Rui Joaquim, as microexpressões ocorrem na fração de um quinto de segundo e é exatamente por isso que é difícil identificar uma mentira e ao mesmo tempo controlar esses sinais na face. "As pessoas nem sabem que emitem essas microexpressões. Por isso, é muito difícil controlá-las".
Entretanto, não é só para desnudar uma mentira que é importante saber identificar as emoções de alguém na face. "Algumas vezes, a pessoa está triste e quer ficar sozinha. Ela pode até não falar isso. Porém, quando sabemos ler essas microexpressões, podemos perceber e respeitar o espaço dessas pessoas", afirma o psicólogo.
Profissionais
Conseguir identificar esses sinais não é algo fácil, porém, segundo o especialista Rui Joaquim, é algo que deve ser treinado, principalmente, em alguns profissionais. "Para os próprios psicólogos é importante. Muitas emoções são tão inconscientes que a pessoa não consegue nem mesmo descrever ou até não sabe que está sentindo. Assim, o profissional com essa capacidade consegue enxergar esses sentimentos por meio das microexpressões". De acordo com ele, policiais civis, agentes penitenciários e seguranças também já foram treinados em seus cursos.
A habilidade da "leitura" facial inspirou uma série norte-americana denominada Lie To Me, que narra a história do doutor em psicologia e especialista em microexpressões, Cal Lightman (inspirado no estudioso americano Paul Ekman). Na trama, o psicólogo é acionado para ajudar a polícia em crimes e até mesmo o governo dos Estados Unidos.
Aqui, Rui Mateus Joaquim faz um trabalho mais modesto, porém, conta que já foi chamado para ajudar em algumas situações. "Já fui convidado por advogados que queriam saber se seus clientes estavam falando a verdade. Outra situação que ocorreu foi uma reunião decisiva para fechar um negócio. Quando se observam esses detalhes, a questão não é se a pessoa mente ou não, mas sim por quanto tempo ela sustenta a mentira", finaliza o psicólogo.
Curso
Nos dias 12 e 13 de agosto, o mestre em psicologia Rui Mateus Joaquim irá ministrar um curso no anfiteatro do Hospital da Unimed, em Bauru, exatamente para treinar a "leitura" facial. Denominado "Mentiras e Emoções: a verdade estampada na face", o curso de atualização em neuropsicologia é uma realização do Instituto de Psicologia Maria José Barbosa.
"É uma área nova da neuropsicologia e que queremos dar visibilidade. É algo extretamente importante e que é de interesse de profissionais específicos e da população em geral", explica a psicóloga Ana Paula Camargo, coordenadora do curso.
Mais informações e inscrições podem ser encontradas no site www.institutodepsicologiamjb.com.br ou pelos telefones (14) 3019-0103 e 3223-0225.
As pernas curtas da mentira
Apesar de não haver um gesto ou sinal que evidencie uma mentira, especialistas afirmam que, no momento em que se oculta a verdade, o organismo tem duas manifestações comuns que funcionam como as "pernas curtas" da mentira: a exaltação fisiológica e a dificuldade cognitiva.
A primeira é marcada por ansiedade, transpiração, dilatação das pupilas e aumento da frequência cardíaca. "Já a segunda pode ser vista no modo como a pessoa conta a história. Geralmente, quem mente apresenta gagueira, pausas muito longas e erros gramaticais. A pessoa tem que formar a mentira na sua cabeça e, por isso, apresenta essas falhas na comunicação", completa o psicólogo Rui Mateus Joaquim.
Falsidade necessária
"O que você quer? A verdade ou a felicidade?". Essa é uma das frases presentes no seriado Lie To Me e que retrata exatamente a importância de determinadas mentiras. O psicólogo Rui Joaquim confirma o fato e explica que a sociedade é mantida por meio das chamadas "mentiras sociais".
"A mentira é uma necessidade em determinadas situações. Principalmente, naquelas em que alguém é poupado de um sofrimento. É aquela mentira contada em prol do social e que não faz mal. É lógico que não deve ser exagerada, porém, é importante para alguns casos", argumenta.