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A cultura do pum

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Quando o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim decidiu "atacar" com uma frase de Nelson Rodrigues - "os idiotas perderam a modéstia" - certamente queria provocar a base do governo petista. Mas não é só na aliança política que blinda o poder é que se percebe a ousadia, cada vez maior, dos idiotas. A Câmara Municipal de São Paulo acaba de aprovar projeto de lei instituindo o Dia do Orgulho Hétero, como se fosse um ato igualitário ao Dia do Orgulho Gay. Foram 31 votos a favor. O prefeito Kassab disse que vai san-cionar, tranquilamente, a institucionalização da data consagrada aos machões.

Parece que a idiotia contamina outros se-tores institucionais. De Brasília nos chega a notícia de que a última instância da Justiça do Trabalho deu ganho de causa a uma funcionária execrada pelo patrão por "exceder-se em flatulência" no local de trabalho. O processo foi longe e demorou quase dez anos, por conter matéria constitucional. Sabemos que a Carta Magna defende vários direitos, como o da liberdade de expressão, de informar e ser informado, mas o direito à flatulência, embora aceitável, pelo menos este modesto cronista não sabe em que artigo se enquadra. Os magistrados decidiram pela readmissão da empregada e pelo pagamento de R$ 10 mil por danos morais. Assim fez-se justiça. A Corte reconheceu como "absolutamente normal" a função fisiológica, mesmo com suas nuances perturbadoras, dependendo do espaço, da circunstância, odor e decibeis alcançados. Flatulência é a emissão de gases intestinais, uma coisa que deveria passar despercebida, como a expiração. Talvez o ronco seja pior e por isso cause tantas separações de casais. É uma eterna fonte de conflito entre marido e mulher. Perturba o sono. Quando entra o mau hálito a situação torna-se insustentável. Já no flato, existe uma complexa mistura de gases, alguns dos quais os componentes sulfurosos, principalmente, produzem aquele característico odor, que há milênios ofende as narinas. Lá em casa, o meu poodle Juquinha parou de dar problemas com a simples substituição da ração, e um passeio em volta do quarteirão depois das refeições.

Uma vez, o já saudoso escritor Moacyr Scliar fez todo um resgate do pum através da literatura, inspirado numa obra de arte exposta na Bienal - o Nariz Gigante - que parecia detectar todos os odores do mundo. Lembrou que a última linha de O Inferno, de Dante, parte da Divina Comédia, diz "Ed elli avea del cul fato trombetta" (E ele usou o traseiro como trombeta), o que parece um exagero, mas traduz a indignação das pessoas. A escatologia literária prossegue em As Nuvens, de Aristófanes (comediógrafo grego do século 5º a.C que se celebrizou pela irreverência). Há um diálogo no qual Sócrates sustenta que, quando as nuvens colidem, se produz um forte ruído, ou seja, o trovão. Para explicar o fenômeno, compara-as com o homem que, tendo comido muito, produz gases. E pergunta: "Se o ventre humano, que é relativamente pequeno, faz tanto barulho, como não o farão as nuvens, que são muito maiores?"

O imperador romano Claudius, assinou lei permitindo a emissão de gases em banquetes "por razões de saúde". Acreditava-se que reter os gases era prejudicial para o organismo. Segundo nos conta Jô Soares em O Xangô de Baker Street, dom Pedro 2.º soltava gases em pleno palácio. No julgamento da ação trabalhista um dos juízes até se referiu a este fato histórico. Émile Zola criou um personagem capaz de emitir quantos puns quisesse. Ganhava apostas com essa habilidade. Na vida real, no início do século passado, na França, o marselhês Joseph Pujol tinha um extraordinário controle dos seus músculos abdominais e o esfíncter anal, o que lhe permitia façanhas assombrosas. O célebre cabaré Moulin Rouge anunciava o Le Pétomane (O Peidômano) para audiências que incluíam Edward, o príncipe de Gales, e Sigmund Freud. Conseguia tocar flauta por meio de um tubo de borracha ligado ao ânus, e emitindo também os sons do hino nacional. A história de Pujol inspirou pelo menos dois filmes, um deles com Ugo Tognazzi, premiado como o melhor do ano em 2006, no festival de Nova York. O best-seller Quem Comeu meu Queijo, de Jim Dawson, inclui uma abrange história da flatulência. Uma história, como se constata, que tem muito de seriedade diante da idiotia que grassa em certas instituições nacionais. A relação humana com o corpo e seus componentes gasosos é muito mais fácil de estabelecer do que as relações interpessoais. Estas, muitas vezes, fedem muito mais.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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