Ciências

Órgãos impressos em 3D com biotinta


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A tinta de uma impressora jateada sobre a folha de papel forma desenhos e letras determinados pelo computador e operador. Em segundos, estará seca para ser manuseada ou outra folha cai para nova impressão.

Se as imagens das letras são tridimensionais e a tinta for resinosa, ao ser jateada, se solidifica como uma camada sobre a folha. Se não for retirada a folha do lugar, uma segunda camada é feita sobre a primeira, solidificando novamente e a plataforma de impressão é levemente rebaixada. Depois de 50 ou mais camadas solidificadas, temos uma letra tridimensional feita por depósitos sucessivos de tinta resinosa e que pode agora enfeitar, ilustrar ou adquirir funções para o qual foi planejada.

No computador, no lugar de letras podemos colocar uma caneta, pinça, brinquedo ou ferramenta. De camada em camada, a impressora vai rebaixando um pouquinho a folha e construindo sobre ela um objeto tridimensionalmente de resina ou plástico derretido que atuou como se fosse uma tinta.

Isso pode ser feito com ossos, crânios, cabeças, dentes e outros órgãos a partir de tomografias ou ressonância magnética: o processo se chama prototipagem. A impressora constrói de camada em camada cada detalhe; reproduz igual o que computador manda fazer com a tinta, plástico ou resina em cartuchos. A tomografia 3D fez evoluir muito a arte e ciência do diagnóstico. Se reproduz a parte do corpo como se tivesse tirado o órgão para ser examinado isoladamente. Fantástico!

As cores das tintas na impressora estão separadas em cartuchos individuais. Se o computador determinar que a impressora 3D faça com as cores dos desenhos originais o objeto será impresso tridimensionalmente com várias cores. Isto é feito nas indústrias como rotina. A tinta dos computadores tem cores diferentes pela presença dos pigmentos em sua constituição em forma de micropartículas.

O homem é um ser incrível. Eis a moda biotecnológica atual. No laboratório se colhe células de um indivíduo por raspagem, punção com agulhas ou bisturi. Podem ser coletadas, por exemplo, células epiteliais da parte mais superficial da pele. Estas células são colocadas em líquido rico em íons, aminoácidos e outros micropartículas nutrientes que passa a ser considerado um meio de cultura para proliferarem e aumentar muito o seu número.

Esse gel ou líquido com íons, aminoácidos e células pode ser colocado em cartuchos como se fosse tinta de impressão ou "biotinta". O computador com uma foto da pele a ser reconstruída manda a impressora 3D depositar ou imprimir vinte camadas de células, ou melhor de tinta, uma sobre as outras. Uma camada de células sobre a outra vai reconstruindo a pele. Uma vez terminada a impressão, o "objeto" será levado para o local do paciente que está precisando da pele por queimadura ou outra lesão qualquer.

Quem está lendo pode exclamar: nossa, que legal! Mas fazer a pele assim parece fácil porque a epiderme têm apenas um tipo de célula. Difícil deve ser construir em 3D órgãos que tem três ou mais tipos celulares, uma inter-relacionando-se estrutural e funcionalmente com a outra, como rim, coração, fígado, ossos e vasos. Não é difícil: vamos pensar juntos.

Se com tintas se imprime em várias cores com cartuchos diferentes e a máquina jateia alternadamente cada uma no momento correto formando objetos multicores e tridimensionais, logo, em cada cartucho desta impressora "biológica" pode-se colocar tipos de células diferentes ou biotintas. Conforme a necessidade, jateia-se um dos tipos de células e se constrói um órgão, com diferentes células organizadas tridimensionalmente camada a camada do meio de cultura, uma sobre as outras.

Então será possível construir qualquer órgão a partir das células do próprio paciente? Se tiver como coletá-las e cultivá-las: sim. E se o órgão foi perdido por vírus ou câncer? Uma alternativa é resgatar da medula óssea do paciente as células mais jovens do corpo e chamadas de células-tronco e induzi-las no meio de cultura a se diferenciar no tipo necessário. Essas células têm esta capacidade, embora tenhamos que controlar ainda algumas variáveis indesejadas, mas o homem conseguirá fazer isso, é so uma questão de tempo.

As empresas Invetech e Organovo já começaram a fabricar e comercializar as primeiras bioimpressoras capazes de imprimir tecido humano para os principais centros de pesquisa dedicados à reparação e substituição de órgãos!


Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC

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