Brasília - Em sua fala no plenário da Câmara dos Deputados, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que a piora da classificação de risco dos títulos de dívida dos Estados Unidos fará com que a economia global tenha problemas pelos próximos dois anos. Ainda de acordo com o ministro, o País está preparado para enfrentar a crise, pois "tem um dinamismo que outros países não têm".
Para minimizar os efeitos da crise econômica-financeira internacional no Brasil, o Planalto espera que os partidos aliados ajudem a conter as insatisfações de deputados e de senadores no Congresso, incomodados por causa da retenção do dinheiro de suas emendas ao Orçamento neste ano - nada foi liberado. Uma das principais preocupações do Planalto é a aprovação até dezembro de uma emenda constitucional para prorrogar a Desvinculação de Recursos da União (DRU) até 31 de dezembro de 2015.
A DRU em vigor no momento só vale até 31 de dezembro deste ano. Trata-se de um dos mais importantes instrumentos de gestão orçamentária do governo federal, pois permite ao Planalto usar como quiser até 20% da arrecadação de todos os tributos existentes.
Como se trata de uma emenda constitucional, a DRU precisa ser aprovada por três quintos da Câmara e do Senado, com duas votações em cada uma das Casas. O Planalto teme que o momento político seja um obstáculo para obter apoio ao projeto em apenas cerca de quatro meses, antes dos feriados de Natal e Ano Novo.
O Conselho Político é composto pelos dez partidos que apoiaram oficialmente a chapa de Dilma Rousseff na eleição do ano passado. Além do PT, são eles: PC do B, PDT, PMDB, PR, PRB, PSB, PSC, PTC e PTN. Além desses, há os partidos que se integraram a blocos governistas neste ano - PT do B, PRTB, PRP, PHS e PSL.
Valorização do real
O ministro defendeu ontem as medidas tomadas pelo governo para deter a valorização do real, como a cobrança de taxas no mercado de dólar futuro. Mantega disse que as medidas foram eficazes e continuarão a ser tomadas se necessário. "Não pode dar liberdade para os mercados financeiros, foi a liberdade dada para especulação financeira que quase levaram os EUA à bancarrota. Não permitiremos isso no Brasil", afirmou, durante audiência na Câmara dos Deputados.
O ministro disse ainda que o governo trabalha para proteger a economia brasileira da competição desleal de outros países e das guerras cambial e comercial. Segundo o ministro, isso poderá se agravar nos próximos anos com a continuidade da crise econômica, que levaria a uma redução nos mercados consumidores e o aumento de estratégias comerciais por parte dos países.
"Temos tomado medidas para impedir que haja um abuso que prejudicaria a conjunção brasileira", completou.
Ajuda do Legislativo
Brasília - O ministro Guido Mantega (Fazenda) pediu ao Poder Legislativo que ajude o governo a controlar as contas em um momento de crise econômica e não faça propostas que aumentem os gastos. Mantega disse que é importante manter uma situação fiscal sólida. "É muito importante que haja uma sintonia entre os poderes nesse momento, coisa que não houve nos EUA. O Brasil tem tido um comportamento mais maduro nesse ponto de vista", afirmou, durante audiência na Comissão Geral da Câmara dos Deputados.
Segundo o ministro, seja qual for o andamento da crise econômica, o Brasil está preparado para enfrentá-la. Diferentemente de 2008, quando o governo demorou a admitir que o Brasil seria afetado pelos problemas externos, o ministro admitiu que um novo "agudamento" da situação traria ônus para o Brasil. "O Brasil hoje está respaldado, está seguro e tem reservas. Temos a experiência que acumulamos em 2008 e temos os instrumentos que podemos usar", ponderou.
Mantega disse que a atual crise econômica é uma continuação da que ocorreu em 2008, que nunca deixou de existir nos países avançados.
Ele disse ainda que houve um "exagero político" na demora da elevação do teto da dívida norte-americana e criticou também a atuação da União Européia. "Os países estão demorando para tomar as soluções devidas. Faltou coragem para resolver logo esse problema da dívida da União Européia", afirmou.
O ministro admitiu que, mesmo que não haja um agravamento da crise nos próximos dias, essa é uma situação que deverá continuar gerando problemas nos próximos dois anos. "A perspectiva de correção dos problemas deverá levar um longo tempo porque eles (os países desenvolvidos) não estão conseguindo se recuperar", completou.
O ministro também comentou ontem que a recuperação da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) é uma "compensação" pela forte queda de 8% ocorrida anteontem. Segundo ele, o governo irá observar as reações deste mercado. "A Bolsa tinha caído muito ontem (anteontem). Há uma compensação. Há uma mudança de expectativa com um pouco mais de calmaria. Às vezes, os mercados exageram em um dia e refluem no dia seguinte. Vamos observar".
Questionado por jornalistas se essa crise poderia ser boa para o Brasil, pois ajuda na inflação e na valorização do dólar, o ministro negou que isso possa ser bom. "A crise nunca é boa para ninguém, mas a gente tem de saber reagir bem a ela", concluiu.