O fundador da sede regional bauruense do Centro do Professorado Paulista (CPP), professor Rodolpho Pereira Lima, de 80 anos, lança amanhã o livro de sua autoria sobre a história da instituição. O evento será na sede do CPP, a partir das 19h30. Fundador e patrono do CPP, Lima teve sua vida ligada à educação, e como diz José Perea Martins, membro da Academia Bauruense de Letras, no prefácio de seu livro, fez da luta em prol do professorado paulista sua própria razão de ser.
Assim, o livro que se propõe a ser um documento sobre a categoria, é composto por momentos que marcaram a história dos professores bauruenses, representados pelo CPP, mas também retrata a realidade do País em diversos momentos. Fotos, documentos e registros de jornais contam a história vivida pelo professor Rodolpho e por seus companheiros educadores. Um desses momentos, que o autor gosta de destacar, é a primeira greve da classe realizada no Estado de São Paulo, em 1963, organizada pelos diretores do CPP Estadual.
Mas a experiência de mais de 60 anos de magistério - Rodolpho iniciou sua carreira como professor no início da década de 50, lecionando em uma fazenda da região, foi professor primário entre 1965 e 1969, aposentando-se apenas em 1983, pela rede estadual - garante a ele, que também foi vereador por três mandatos, bagagem suficiente para fazer fortes críticas ao ensino atual e à desvalorização da classe, ao mesmo tempo em que demonstra otimismo quanto à recuperação da qualidade do ensino no Brasil. Polivalente, o autor também foi ferroviário. "Quando fui ferroviário, com 17 anos, sai para ingressar no magistério. Naquela época, a ferrovia estava no auge e o magistério público estadual também, era um período áureo do ensino, o ensino tinha padrão de qualidade elevado, prestigiadíssimo. Hoje, vivo a decadência de ambos, tanto da ferrovia quanto do magistério", comenta. Em sua opinião, foi em 1971, com a reforma educacional que criou o primeiro e segundo graus - antigos primário, ginásio e colégio - que teve início a desvalorização do professor, como consequência do desprestígio do ensino, referendado pelo governo militar.
"Daí começou a decadência. Antes disso, o professor secundário era catedrático vitalício. Está na Constituição. Era equiparado a juiz de direito. Mas, depois da reforma, o professor perdeu todas as regalias. A desvalorização do professor foi em função da desconsideração do ensino público estadual. E isto é tão patente, que na Constituição promulgada em 1988 existe o artigo, explícito, que prevê a valorização dos profissionais do ensino, com piso salarial e outras coisas. Há 23 anos, quando os constituintes elaboraram a Constituição, já estavam preocupados com o ensino, com a valorização dos profissionais de ensino. Mas, nossos governantes foram negligentes e não tomaram conhecimento dessa determinação", opina.
O descuido expresso pelo educador, além da proposta errônea de democratizar a educação, no início do século passado, fizeram com que o ensino público passasse a viver uma situação de apartheid social. "Escola pública para filhos de pobres e escola particular para filhos de ricos, quando antes era o inverso. Quando o Instituto Estadual de Educação Ernesto Monti era a maior escola de nível médio de Bauru, não tinha concorrência. Tanto de profissionais quanto no padrão de ensino. Hoje inverteu, porque houve pressão em dizer que as escolas públicas eram de elite, e de fato eram. Com o argumento de democratizar o ensino público, baixaram a qualidade."
Otimismo
Apesar das duras críticas ao formato do ensino público do País, o professor Rodolpho Pereira Lima consegue ser otimista em relação ao futuro da educação. "Nunca se falou tanto em educação quanto hoje. E porque não melhora? Porque a fase é de transição, mas educação não se faz sem dinheiro. Está se dando muita importância em um aspecto e em outro nenhuma. Por exemplo, o povo brasileiro não aceita perder a Copa do Mundo, mas aceita perder uma escola. Mas o mundo gira e ninguém consegue segurar isso. Então, acho que a geração que vive a fase de transição é que sofre muito. Quando minha bisneta de seis anos estiver com 20 ou 30 anos, certas coisas vão ser normais. Acho que vai ser possível reverter a questão da Educação", avalia, esperançoso.
Privatização do ensino X qualidade
Para o professor Rodolpho Pereira Lima, o erro que o governo federal comete atualmente é querer democratizar ensino sem garantir a qualidade da educação.
"Por exemplo, na Universidade de São Paulo (USP), tida como a maior universidade da América do Sul, já está se falando que o ensino está decadente também. O governo fala muito em educação, mas na prática, na hora de agir, diz que não tem verba. Dá a impressão que estão querendo fazer com o ensino o que fizeram com as estradas, colocando pedágio. Estão querendo privatizar a educação no País".
Em sua crítica, o professor não poupa o PSDB, que está à frente do governo de São Paulo há 16 anos.
"O PSDB teve uma oportunidade muito grande de restabelecer o prestígio da escola pública estadual e, infelizmente, vemos a decadência total, e já era tempo suficiente para isso. Estamos vivendo o experimentalismo, o modismo. O que está acontecendo é que todos os governantes do Estado de São Paulo ignoraram o programa de seu antecessor e, em educação, há a necessidade de continuidade", avalia.
Sobre algumas propostas implantadas pela Secretaria Estadual de Educação, como a avaliação por mérito, Lima é ainda mais contundente. "Você não mede, por exemplo, o professor como um vendedor de eletrodomésticos, que pode ganhar bônus com o produto vendido. Dar bônus para o professor? É um absurdo, porque de um profissional como o pedreiro você mede quantos metros de muro ele fez. Agora, vai medir quanto o professor produziu em sala? Isso não existe, porque a competição é no concurso, ingressou e pronto. O que precisa não é bônus, mas salário, porque o professor precisa nas férias de descanso, mas de dinheiro para adquirir cultura em teatros, comprar livros, entre outras coisas. Mas, com esse salário, não se paga nem o aluguel e o condomínio do professor", garante.