Turismo

Enxergando sem retinas

Lucas de Abreu Maia
| Tempo de leitura: 5 min

"O turismo entra pelos olhos." A frase me foi dita pelo meu analista; uma tentativa de explicar a experiência agridoce do tour de um mês que fiz pela Europa. Sob vários aspectos, ele está certo: a absorção de um mundo novo acontece principalmente pelas retinas. A falta de visão, entretanto, me permite formar uma imagem própria dos cenários mais vistos e fotografados do mundo.

Embora já tivesse ido aos EUA, o passeio à Europa foi minha primeira viagem ao exterior para turistar. Seu caráter foi exacerbado porque, pela primeira vez, não pude levar minha cadela-guia, graças às restrições que o Reino Unido impõe à entrada de animais.

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Alemanha, Dinamarca, Bélgica: Segurando no braço de um amigo


P lanejamos tudo (ou qua se tudo): de hotéis e albergues a passagens de trem. Não foi o bastante. Diante da minha cegueira (e, portanto, da impossibilidade de que eu ajudasse na leitura de mapas ou na localização de estações de metrô), toda a responsabilidade por nossa locomoção recaía sobre meus companheiros. Quem já viajou sem guia turístico conhece o estresse potencial que é se virar em um país estrangeiro. Mais planejamento teria poupado aborrecimentos.

As cidades não se mostram de imediato para quem não enxerga. Não há fotos que resumam o lugar, ou imagens aéreas que permitam uma síntese geral. Sem ver, é preciso ir às ruas, aos parques, às pessoas. É preciso tocar, experimentar, ouvir, cheirar. A cidade se desnuda aos poucos, até que seja possível conhecer seu corpo com as mãos, narinas e ouvidos.

Nos museus, igrejas e castelos, os passeios beiravam o hilário. Todas as vezes em que ia aos balcões de informação descobrir o que era oferecido a visitantes com deficiência, sentia no ar uma questão engasgada na garganta do meu interlocutor: "O que esse cara está fazendo aqui, se não vai conseguir ver nada?". Queria que a pergunta tivesse sido feita. Assim, teria explicado sobre a sensação de estar em frente à Pedra de Roseta, ou sobre o arrepio que percorreu meu corpo por estar diante do túmulo de Charles Darwin. Teria contado como é gratificante ver o esforço dos amigos em explicar com palavras o que eles apreendem com as retinas.

E, claro, há vantagens. Em muitas atrações, o visitante cego recebe permissão para fazer o que todos têm vontade, mas são proibidos: tocar nos objetos. Talvez o melhor momento tenha sido em uma destas ocasiões. Em Stonehenge, o círculo pré-histórico de pedras gigantescas no sudoeste da Inglaterra, ouvi berros de indignação e senti os olhares invejosos de 200 turistas enquanto eu, sozinho, tocava em rochas de mais de 4 mil anos.

Em grande parte, ter uma deficiência física significa acreditar na solidariedade. Para mim, estar em um país estrangeiro, cujas regras desconhecia e onde a língua não era a minha, exacerbou a sensação de fragilidade. Daí a experiência agridoce: ao mesmo tempo em que vi minha independência - conquistada com dificuldade - escorrer entre os dedos, fui obrigado a confiar nos meus companheiros. Ao mesmo tempo em que me senti de volta à infância, passei a admirar o esforço dos outros para que aproveitasse a viagem tanto quanto eles. E isto é muito tocante.

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Brasil engatinha na
tarefa de tornar universal direito de viajar


Quartos de hotéis e atividades adaptadas em Socorro. Equipamentos específicos para que turistas com deficiência possam praticar esportes radicais em Brotas. Ônibus rebaixados e passeios de lancha no parque das Cataratas do Iguaçu. Apesar de avanços como estes, que surgem aqui e ali em destinos turísticos nacionais, o Brasil ainda engatinha na tarefa de tornar universal o direito de viajar.

A avaliação é do consultor em mobilidade Edison Passafaro, de 50 anos. O acidente que o deixou paraplégico aos 19 anos não o impediu de viajar muito - ele soma cerca de 50 países no passaporte. Além disso, é mergulhador e atua como conselheiro em questões ligadas à acessibilidade em vários órgãos públicos pelo País. Currículo que permite afirmar que as dificuldades em território nacional - onde o número de pessoas com deficiência chega a 24,5 milhões, segundo o IBGE - são, sim, maiores do que em um bom número de cidades pelo mundo.

Ainda assim, iniciativas isoladas tornam mais amigáveis destinos que fazem parte da lista de desejos de qualquer apaixonado por viagens. E ajudam a driblar a inércia do poder público.

Socorro costuma ser citada como referência nacional, embora ainda haja muito por fazer na cidade, a 135 quilômetros de São Paulo. Graças a parcerias com o Ministério do Turismo e ONGs, projetos conseguiram relativo sucesso, como a adaptação de atividades de aventura - rafting, tirolesa e cavalgada, por exemplo.

"Estamos empenhados em incentivar os empresários e comerciantes a tornar os empreendimentos acessíveis", diz o secretário de Turismo e Cultura da cidade, Carlos Tavares. Pontos turísticos como o Mirante do Cristo, o Horto Municipal e o Palácio das Artes foram adequados às leis de acessibilidade. Socorro receberá, entre os dias 28 e 30 de setembro, o 1.º Congresso Brasileiro de Turismo Acessível (pessoacomdeficiencia.sp.gov.br).

Para o consultor Edison Passafaro, Bonito, Lençóis Maranhenses e Fernando de Noronha são destinos que já estão relativamente adequados à recepção dos turistas com deficiência. Mas o papel da infraestrutura, nestes casos, é mínimo. Em destinos de aventura, o que faz a diferença é o treinamento dos guias e do pessoal que trabalha no setor receptivo - já que é impossível eliminar desníveis e imprevistos da natureza. É o que ocorre, por exemplo, em Brotas, com a operadora EcoAção (ecoacao.com.br), que vem se especializando neste público.

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