A Foxconn, a gigante de componentes eletrônicos da China, fornecedora da Apple, Nokia, Sony e Nintendo, movimentou o noticiário com a visita de seu presidente, Terry Gou ao Brasil, comunicando à presidente Dilma a intenção de investir 12 bilhões de dólares para produzir iPads aqui. O que poderia ser motivo de entusiasmo, além de não confirmado, transformou-se em preocupação. É que a empresa vem enfrentando greves pelas rígidas condições de trabalho e elevado número de suicídios em suas fábricas e tem um programa de substituir os atuais 1,2 milhões de empregados por robôs. Hoje são 10 mil, para o ano serão 300 mil e continuará até um milhão de robôs em 2014. E por que quer vir para o Brasil? Porque sabe que a nossa economia vai indo bem e temos um grande mercado interno. Mas não é só por isso. É porque os operários chineses estão começando a deixar de ser bobos e se cansando da opressão comunista. A mão de obra barata, que vem dando competitividade aos produtos chineses, já está encarecendo e eles acham que podem mandar um exército de robôs para fazer os seus produtos aqui e nós iremos ficar muito felizes de ver os nossos operários desempregados, mas comprando produtos baratos.
Terry Gou justifica o uso da automatização com "o desejo da Foxconn de transferir os trabalhadores de tarefas mais rotineiras para posições de valor acrescentado na manufatura, como a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação". Isso para os operários chineses, como aconteceu no Japão, para onde tem ido muitos brasileiros fazer os serviços subalternos. Trazendo os robôs para cá, os nossos operários poderiam fazer os trabalhos de menor valor aqui mesmo, sem precisar deixar a família e ir para a Ásia.
A robotização é um fato real e progressivo. Durante milhares de anos, o homem fez trabalhos manuais, usando ferramentas que foi aperfeiçoando e realizando obras que hoje são admiradas pelos turistas. As diversas aptidões deram origem às profissões - ferreiro, pedreiro, sapateiro, carpinteiro, escultor etc. As ferramentas foram ganhando complexidade e se transformando em máquinas, ocasião em que o trabalho começou a incorporar outros tipos de força além da humana - animal, eólica, hidráulica, térmica e elétrica. Aí já chegamos ao século 18 e o processo de produção passa a um novo estágio - as máquinas dão origem às fábricas e entramos na fase de mecanização. Com o desenvolvimento das ciências, o seu lado prático também se desenvolveu - a tecnologia de apenas descritiva passou a ser objeto de pesquisa científica e o homem foi transferindo cada vez mais a sua participação direta para a máquina - é a automatização, que, com o uso da informática, se transformou em automação, o estágio mais evoluído do processo.
Os Estados Unidos, que lideraram a automatização, bem retratada em "Tempos Modernos", por Charles Chaplin, na década de 1950, deixaram a sociedade e o governo assustados com a ameaça de desemprego. A indústria automobilística, por exemplo, em 1947, produziu 4,8 milhões de veículos com 626 mil trabalhadores. Em 1966, aumentando apenas para 671 mil operários produziu 10.400.000 veículos. Essa situação provocou grande debate no Congresso, que formou uma subcomissão parlamentar para discutir o assunto. O livro "Consequências Econômicas da Automação", de Paul Eizing, publicado em 1959, relata um diálogo entre um líder sindical e um diretor da Ford. O diretor da Ford disse, em tom desafiador, ao líder sindical: "Sr. Reuther, o senhor vai ter trabalho para recolher as contribuições sindicais de todas estas máquinas." A resposta foi: "Isto não me importa. O que me preocupa é que o senhor terá mais trabalho para vender-lhes automóveis."
Calcula-se que o estoque mundial de robôs de 1.020.700 no final de 2009 vai chegar a 1.119.800 no final de 2013. O aumento maior será nos mercados emergentes, enquanto ficará estagnado na América do Norte, Japão e Europa Ocidental. Não conseguimos dados sobre o número de robôs usados nas indústrias brasileiras, mas comparativamente ainda deve ser modesto. A estratégia para enfrentar o exército robótico chinês é uma melhoria radical no ensino médio, para podermos preparar nossos trabalhadores para funções mais valorizadas e um forte incentivo à pesquisa tecnológica. Talvez o primeiro passo tenha sido dado com o programa Brasil Maior e a mudança do nome do Ministério da Ciência e Tecnologia para Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras