Londres - Parte da sociedade britânica está doente. Pais não controlam os filhos, escolas não dão disciplina, faltam valores morais e éticos, há um grave problema de gangues juvenis. O diagnóstico é do próprio primeiro-ministro britânico, David Cameron, depois de quatro dias de saques, vandalismo e confronto com policiais espalhados pelo país.
Pressionado por ter demorado a cortar suas próprias férias, Cameron afirmou que é hora de retomar o controle e contra-atacar. Após aumentar o número de policiais em Londres de 6 mil para 16 mil, agora diz que deve ser usado o que for necessário: balas de borracha e canhões de água.
O primeiro-ministro também pediu pressa nas prisões e nos processos judiciais. A polícia está usando imagens de câmeras de segurança e fotos tiradas durante os saques para identificação.
"Foto a foto, esses criminosos serão identificados e presos, e não vamos permitir que falsas preocupações com direitos humanos impeçam a divulgação dessas imagens e a prisão desses indivíduos", afirmou o premiê.
Mais de 1.000 foram presos desde sábado, e cortes estão trabalhando 24 horas por dia para sentenciá-los.
Um dos ouvidos pela Justiça foi Alexis Bailey, 31 anos, que, ironicamente, trabalha como professor assistente numa escola primária.
Ele confessou ter participado de tentativa de saque a uma loja na segunda à noite.Bailey recebe 1.000 libras (cerca de R$ 2.600,00) por mês.
Outro ouvido foi um menino de 11 anos. Ele admitiu pertencer a uma gangue que atacou uma loja de departamentos na segunda. Alguns foram indiciados por incitar a violência por meio de redes sociais e mensagens de texto.
Crime e economia
Da direita à esquerda, todos concordam que os acontecimentos dos últimos dias são pura criminalidade. Mas alguns apontam fatores econômicos e sociais (desemprego de 20% entre os jovens, desintegração familiar) como galvanizadores.
E ontem o país teve outro dado ruim na economia. O Banco Central rebaixou a previsão de crescimento, de 1,8% para 1,4% neste ano.
A onda de violência começou no sábado em Tottenham, bairro pobre na zona norte da Capital do Reino Unido, depois de protesto pela morte de Mark Duggan, 29 anos, que foi morto pela polícia. Nos dias seguintes, jovens encapuzados ou com lenços cobrindo o rosto atacaram a polícia, saquearam lojas e incendiaram prédios em Londres e outras cidades.
Mortes em saque
Londres - A morte de três homens - Haroon Jahan, 21 anos, e os irmãos Shazad Ali, 30 anos, e Abdul Nasir, 31 anos - durante a onda de violência em Birmingham (centro do Reino Unido) elevou a tensão racial na cidade.
Muçulmanos e de ascendência paquistanesa, tentavam proteger lojas de saqueadores quando foram atingidos por um Audi com quatro ocupantes negros, segundo testemunhas. "Eles foram mortos num ataque racista. Estavam aqui para proteger lojas, sem armas", disse Ali Hussain, primo de Jahan.