Num cômodo reservado da casa repleto de livros, anotações, documentos, fotos e fitas cassete que datam das décadas de 20, 30 e 40. É assim que o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina prefere passar seus dias. O que para muitos poderia ser um tédio, para Gabriel Pelegrina é puro prazer.
Mas hoje, o dia do "seo" Gabriel, como é chamado, deve ser diferente. É que está comemorando 90 anos. detalhe: esbanjando lucidez.
Com impressionante facilidade, o antigo ferroviário e hoje professor honorário da Universidade do Sagrado Coração (USC), é preciso ao datar - com dia, mês e ano - fatos históricos da cidade onde nasceu, casou e vive até hoje com a esposa Naíde Ruiz, 80 anos. Ao lembrar dos 62 anos de casamento, a companheira faz menção à habilidade e paixão de "seo" Gabriel pela História. "Ele parece ter um computador dentro da cabeça. É uma paixão e um trabalho que eu admiro".
E para quem pensa que aos 90 anos o árduo trabalho de pesquisas fica comprometido, "seo" Gabriel revela ter motivação de sobra. Horas antes de receber a reportagem, o historiador esteve no Núcleo de História da USC, criado em 1983 graças a seus esforços e à iniciativa do professor Muricy Domingues. "Eu estou acertando mais alguns detalhes com o pessoal da USC. Eles querem colocar uma pessoa, alguém que esteja buscando uma pós-graduação, para me secretariar. Isso seria ótimo. Com alguém aqui posso agilizar meu trabalho e fazer o que tenho vontade", conta, animadíssimo.
Se não são suficientes para dissertar sobre toda história do município, algumas horas de conversa com "seo" Gabriel bastam para compreender a trajetória de vida de um homem que se dedicou para resgatar os momentos que marcaram Bauru desde sua fundação.
As paixões
Filho e neto de espanhóis que vieram para a região entre 1892 e 1914, o historiador conta que nasceu na quadra 7 da rua Araújo Leite. Com boa memória, faz questão de ressaltar: "Nasci no mesmo dia que Fidel Castro, ditador cubano. Mas ele nasceu em 1926".
E foi ainda pequeno que surgiram os primeiros questionamentos e curiosidades do menino que ao longo do tempo exerceria um trabalho primordial para sua cidade Natal. "Lembro de coisas de quando tinha uns 10 anos, de momentos que presenciei e que questionei. Isso tudo me ajudou a seguir buscando mais informações e respostas para as coisas".
E foi com 10 anos que "seo" Gabriel buscou o primeiro trabalho, na fábrica de meias do pai. Em seguida, veio a contratação pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, da qual tem histórias e dados preservados antes mesmo dos 38 anos em que ali trabalhou.
"Muita gente não sabe, mas a Noroeste não era para nascer aqui em Bauru. A intenção do governo era que a estrada de ferro margeasse o rio Tietê. Então, cinco engenheiros foram contratados e enviados a Pederneiras, mas foram mal recebidos por lá. Foi então que Azarias Leite (que depois seria presidente da Câmara Municipal de Bauru) buscou os engenheiros e os deixou por uma semana em sua casa, com todo o conforto e tudo do bom e do melhor. Uma semana depois, os engenheiros decidiram mudar de Pederneiras para Bauru. Foi assim que ganhamos a Noroeste".
E foi também durante seu trabalho na companhia que, paralelamente, iniciou a documentação da História de Bauru. Curiosamente, na única vez em que esteve longe do município. "Para não ir para o fronte de batalha na 2ª Guerra Mundial, acabei deslocado pela empresa para trabalhar em Três Lagoas, pois nenhum funcionário poderia ser incorporado às fileiras do Exército desde que continuasse trabalhando. E foi lá, lendo os artigos de José Fernandes no Correio da Noroeste, que comecei a me interessar em resgatar a História".
Depois de quatro anos fora, "seo" Gabriel voltou a Bauru para se casar com dona Naíde, que havia conhecido nas visitas que fazia para seu primo, vizinho da futura esposa. "Casamos em 1949, quando voltei para a cidade, exatamente no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Era tradição as pessoas se casarem nesse dia."
Do relacionamento vieram quatro filhos, sendo três homens (Carlos Roberto, Sérgio Eduardo e Luiz Antonio), e uma mulher, a caçula Maria Aparecida. "Hoje já tenho mais dez netos e nove bisnetos. A mais nova é a Sofia, de 2 anos, neta da minha filha caçula", conta.
Questionado se pensa em repassar a tradição para os herdeiros, "seo" Gabriel brinca: "Isso é muito particular, tem que ter uma paixão pelo que você faz, independente do que seja. Eu falo para meus filhos que uma coisa pelo menos é certa: de todo mundo da família eu sou o único que já teve o prazer de ter três carros importados", debocha o historiador fazendo alusão aos modelos Ford 29, Jipe 51 e Ford 33.
Segredo revelado
Ter, aos 90 anos, disposição para planejar e produzir pensando muito mais do que apenas ocupar o tempo não é uma tarefa comum. Mais do que isso, o trabalho de "seo" Gabriel dá continuidade a uma trajetória fundamental para a construção da sociedade.
Com visitas agendadas em cinco médicos diferentes, o historiador mantém a saúde sempre monitorada. "Meu único problema hoje é a perna, devido a uma trombose que tive. Mas é só pegar a bengala para não correr riscos", comenta o homem que não se incomoda com a idade.
A única preocupação de "seo" Gabriel é conseguir catalogar e documentar tudo que tem registrado em sua memória. "Tenho cinco livros já publicados, mas ainda estou trabalhando com mais alguns projetos. Um deles sobre o setor de aviação de Bauru. E estou tentando publicar uma espécie de guia com as maiores curiosidades do município. Tudo que tenho hoje aqui é fruto de doações. E repasso para os lugares que tentam resgatar a História. Por exemplo, se tirassem minhas coisas do museu, poderiam fechar as portas".
O professor que contempla além do registro no Ministério do Trabalho de jornalista historiador e de inúmeras homenagens de diversas entidades municipais e nacionais, revela sempre se deparar com um questionamento comum: como ter disposição e memória para guardar tantos dados?
Assim como todas as lembranças e memórias de um homem que chega aos 90 anos gozando de plena lucidez, a resposta para essa questão está na ponta da língua. "Não existe uma fórmula para o conhecimento. Só se tem informação e respostas se buscarmos isso. E é isso que eu faço há 60 anos. Todos os dias eu leio e releio tudo o que tenho e busco mais coisas para ler e reler. Se algum dia eu tivesse parado de fazer isso, talvez teria me esquecido. É um exercício diário que faço com prazer".
Gabriel, irmão querido
Neste dia tão especial, quando todos se encontram para abraçá-lo com carinho, quero lembrar também a dedicação e o amor de sua esposa Naíde, a base sólida que o fortaleceu sempre, nesta caminhada sublime de 62 anos juntos.
E assim, com fé e muita força, você chega aos 90 anos!
Desejamos que a saúde, o amor e a paz continuem fazendo parte de sua vida, com as bênçãos de Deus ao lago de sua amada e grande companheira. Feliz noventão!