Regional

Ocupação ocorreu na 1a década do século XIX

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

O processo de ocupação da porção ocidental do território paulista, em sua área delimitada pelos rios Tietê e Paranapanema, teve início nas primeiras décadas do século XIX, antes da Lei de Terras de 1850 ser regulamentada.

De acordo com o livro, esta fase foi marcada pelas aventuras dos pioneiros, que se apossavam de terras e, depois de registradas, as vendiam, partindo, talvez, para outras paragens mais distantes. "Rodrigues de Campos foi um dos chamados bugreiros. Conquistou inúmeras pequenas posses territoriais, depois vendia cada uma delas separadamente, por valores irrisórios."

Aos poucos, formaram-se bairros rurais, agrupamentos de famílias, vinculadas pelo sentimento de pertencer a uma comunidade, segundo o livro. "Bairro rural era um aglomerado de sítios. Guardavam um certa distância entre si. No início de 1850, havia no campo dos Lençóes uma população de cerca de 300 moradores."

Em meados do século XIX, bairros rurais se espalhavam por uma extensa área da região. "Quando um núcleo urbano se constituiu e foi elevado à freguesia, depois vila, alguns bairros ficaram distantes várias léguas do ?centro?. No núcleo urbano, as casas eram próximas e os terrenos eram relativamente pequenos; 10X20 braças, 12X30, medida que equivale a 22X44 metros e 26,4X 66 metros."

O bairro Bom Jardim estava a 2 léguas de distância; Cabeceira do Turvo ficava a 5 léguas. "Havia ainda Barra Grande, Paraíso, Boa Vista, grama. Fartura, Cachoeirinha, Pouso Alegre, dos Patos, Corvo branco, da Prata e muitos outros. É razoável supor que alguns bairros rurais tivessem uma população maior que o próprio núcleo urbano. Alguns deles deram origem a cidades, como o bairro dos Agudos e Bauru."

Dentre os pioneiros, segundo o autor do livro, Edson Fernandes, aparecem os nomes de Pedro Nardes Ribeiro, Pedro Francisco Pinto e Sebastião Pereira. "Os primeiros povoadores vieram de regiões de provoamento mais antigo para tentar a sorte nesta área de terras disponíveis e férteis, fixando-se perto dos rios. Eles enfrentaram animais selvagens e conflitos com índio. Vinham de Sorocaba, São João do rio Claro, Constituição (atual Piracicaba), Mogi-Mirim, Descalvado, Itapetininga, Caconde, Casa branca e outros."


Telles: o homem que serviu de médico e farmacêutico

A data correta em que o "Medico-Cyrurgico-Pratico" Francisco Telles do Nascimento chegou à vila de Lençóes não se sabe. O que se tem conhecimento é que ele tinha origem portuguesa e que talvez tenha morado em Ubatuba, antes de seguir para o sertão paulista. Há registros de que em 1875 ele teria sido preso e levado para a cidade litorânea para responder por um crime de falência.

Em Lençóes, em 1870, ele conseguiu autorização da Câmara Municipal a autorização para atuar como médico; "em razão dos muitos curativos que tem feito". Sua prática o habilitou a se tornar vacinador, no ano seguinte. À época a doença das ?bexigas" dava sinais de sua presença na vila.

Um ano depois de conseguir a autorização, ele teria feito nova solicitação à Câmara. Desta vez pediu que os vereadores atestassem sua conduta moral e sua habilidade na "arte medica e cyrurgica". Segundo consta, ele foi atendido.

Em março de 1872, Telles voltou à carga, desta vez com outras intenções. Em um requerimento à Câmara pediu que os vereadores atestassem que ele era habilitado a exercer a profissão de farmacêutico e novamente conquistou o pretendido.

Nessa época não havia farmácia legalmente estabelecida na vila de Lençóes, nem nos arredores. Além disso, "febres intermitentes" atingiam os moradores. Pouco tempo depois, ele estabeleceu sua botica. Mas, segundo o livro, Telles não era um pacato cidadão, preocupado com a saúde pública e educado às "artes médicas".

Era também um sujeito com convicções políticas formadas, por isso angariou aliados e inimigos, talvez mais inimigos. Se envolveu em brigas políticas e em episódios que foram parar em publicações como no jornal Província de São Paulo. Foi tido como homem violento e chegou a ser indiciado em processo. Morreu aos 40 anos.


Curiosidades

As dificuldades eram de toda natureza, nessa época, narra o livro. "Algumas de natureza material, como a ausência de recursos médicos, outras de ordem espiritual, entre elas a ausência de serviços religioso que pudesse confortar a população. "Os índios representavam uma ameaça, assim como a inexistência de um cemitério abençoado por um pároco. Os pobres enterravam seus mortos num cemitério improvisado. Os que tinham mais condições providenciavam transporte até um campo sagrado."

Só em 1851, o vigário Isidoro Gonçalves Campos dirigiu-se a Lençóes, local designado pelos moradores e, na presença de poucos mais de duas dezenas deles, abençoou o cemitério. No ano seguinte, Lençóes era o 10o quarteirão eleitoral da freguesia de Botucatu e contava com 36 votantes, todos lavradores, alguns deles com 50 anos ou mais.

No início da década de 1860 foram criadas duas cadeiras de 1a letra em Lençóes. A do sexo masculino foi criada dois anos antes da classe destinada ao sexo feminino. Em 1861 na escola do professor Theodoro Marques Vieira estavam matriculados 10 alunos.
No início do povoado, as ruas ganharam nomes fáceis dos moradores. Assim surgem a rua da Matriz, da Cadeia, da Ponte Velha, do Baixo, do Commercio.


Freguesia & Patrimônio

No ano de 1853, um abaixo-assinado contendo 100 assinaturas de moradores reivindicando a criação de freguesia em Lençóes foi encaminhado a freguesia de Botucatu. Dois anos depois, recebeu parecer desfavorável dos vereadores de Itapetininga, a qual a freguesia de Botucatu estava ligada.

"A Câmara propunha a criação de freguesia mais adiante em lugar mais povoado de pessoas mais abastadas, no populoso bairro do Bauru, onde havia uma capelinha e com um sacerdote já contratado. Em 1858, apesar dos pareceres contrários, a Assembléia Legislativa Provincial aprovou e o então presidente da província José Joaquim Fernandes Torres sancionou a lei elevando o bairro dos Lençóes á categoria de Freguesia."

Como freguesia, Lençóes não garantia sua autonomia administrativa, o que viria acontecer com a elevação à vila, sete anos depois. "Um núcleo urbano mais consistente tem início quando um grupo de oito fazendeiros comprou uma extensa área de terra e doou parte dela para a constituição do patrimônio de Nossa Senhora da Piedade, padroeira da matriz da paróquia de Lençóes."


Epidemia de varíola levou pânico aos moradores

No final de 1872, uma epidemia de varíola se alastrou na vila Lençóes, levando pânico à população. Até o padre afastou-se por alguns dias com receio de contágio. O juiz de paz, temeroso do contágio, pediu autorização para despachar em seu sítio, localizado um quarto de légua distante da vila. O pedido foi negado pelas autoridades da provinciais.

Relatos da época garantem que parte da população, especialmente aquelas que tinham condições financeiras, fugiram da vila, ficando apenas os pobres. A ?peste da bexiga? ou varíola foi a mais mortal das doenças que atacou os habitantes do Brasil, naquela época.

Os índios desprovidos de imunidade foram as principais vítimas. Em outubro de 1870 constatou ?se a existência de um ?bexiguento? no bairro martins, distante três léguas da vila. Para tentar conter a epidemia, a Câmara Municipal solicitou recursos às autoridades provinciais, "afim de pessoa alguma soffrer perigo com tão horrível doença".

No dia 21 de outubro de 1870 morreu Teresa Maria de Jesus, 24 anos. A mulher não foi enterrada no cemitério local porque fora vítima da contagiosa ?bexiga?. O médico-cirúrgico Francisco Telles do Nascimento assumiu o tratamento dos doentes e conteve a doença. Porém, em janeiro de 1873, ele apresentou à Câmara Municipal a conta das despesas relativas aos curativos feitos nos indigentes acometidos pela varíola. Os vereadores aprovaram a conta de 1:212$000 que foi remetida ao presidente da província.

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