Ele já foi chamado de louco e hoje o apelido é mais carinhoso: Gepeto dos trópicos, escolhido por seu irmão. Guilherme dos Reis Pereira, o Tio Gui, nasceu em Bauru no dia 3 de maio de 1966 e no 7º ano do ensino fundamental descobriu que o dom da arte começara a aflorar de maneira espontânea e desenfreada em sua vida. Não concordou que deveria pintar um desenho com as cores indicadas e foi suspenso da escola.
Tudo pela arte. Arte que o moveu pelos caminhos culturais em Bauru passando pela, hoje já extinta, Casa da Cultura, que levava arte aos bairros, e também pela Oficina Glauco Pinto de Moraes. Os fatos mais importantes em sua vida aconteceram em uma única fase: a transição para a vida adulta.
Com 20 anos descobriu que tinha uma grave doença que poderia mudar sua vida: uma otoesclerose. Gui perdeu parte da audição, e quase morreu por conta de uma hipertermia que elevou sua temperatura corporal abruptamente no momento da cirurgia para reparo da doença. Mas a via proporcionaria mais momentos felizes a ele do que tristes. Logo sua primeira filha, Lariana, nasceu. Começou a aprender tudo o que sabe atualmente, até noções de arquitetura e marcenaria no sítio do pai e, aos 16 anos, foi parar no Nordeste pedindo carona por essas estradas do Brasil. O "brinquedista" abriu a sua "fábrica" de criatividade para o Jornal da Cidade e finalizou a entrevista me ensinando a fazer um lindo sapo de dobraduras. Com é bom voltar a ter alma de criança!
JC - Me conte, você nasceu em Bauru?
Tio Gui - Eu nasci aqui em Bauru mesmo. Meus pais são Rui Pereira e Vilma Padilha (eles vão gostar que eu cite eles - risos) e me considero um arte educador ambiental. Nada mais que um "brinquedista". Estudei tecnologia agrícola e sou autodidata em arte. Já sofri muito preconceito por conta disso. As pessoas não aceitam que aprendi sozinho e que não tenho curso de formação na área. Tive muita dificuldade em conseguir dar aula em escolas, principalmente nas públicas. Eu podia dar treinamento para os professores, mas não podia ensinar os alunos.
JC - E como foi que você descobriu que tinha o dom da arte?
Tio Gui - Eu nunca achei certo ensinar teoricamente. As crianças aprendem na prática e colocando a mão na massa. Quando eu tinha estudava no 7º ano de uma escola pública, e me lembro que tinha um livro de educação artística que tínhamos que fazer os exercícios. Tinha o desenho de um Mickey, e tínhamos que pintá-lo com as cores indicadas: as orelhas de preto, o corpinho de preto. Eu me recusei a pintar com essas cores e fui suspenso da escola (risos). Acho que desde aquela época eu já enxergava as coisas diferentes.
JC - E como foi sua infância? Você teve oportunidade de brincar muito, o contrário do que acontece atualmente com as crianças.
Tio Gui - É verdade. Naquela época, com uns 5 anos de idade eu já gostava de fazer carrinhos de tronco de árvore para brincar com meu irmão. Sempre tive consciência ambiental. Brinquei muito no sítio do meu pai. Ali eu inventava muito e também aprendi muito. Alguma coisa de construção, a lidar com os animais. Consegui salvar a minha cachorra, a Dicki, já velhinha, que estava infartando porque aprendi muito a lidar com os animais no sítio. Meu pai criava bicho-da-seda e vacas leiteiras. Uma vez ouvi que colocar música para as vacas ouvirem estimularia elas a produzirem mais leite. Eu coloquei um monte de caixas de som e soltei a música. Parecia que elas gostavam. (risos)
JC - Imagino a cena (risos). E a adolescência?
Tio Gui - Quando tinha 16 anos eu fui até o Nordeste pedindo carona. Juntei dinheiro vendendo sacos de feijão que meu pai plantava. Minha mãe sabia e deixou. Naquela época não havia tanta violência e os caminhoneiros assinavam um termo com a Polícia Rodoviária e recebiam uma placa da "Carona Amiga". Assim poderiam dar carona aos passageiros, até que a malandragem começou a aparecer. Mas tudo começou porque meu pai me deu um rádio amador e eu conversava muito com as pessoas de lá. Então já fui sabendo quem eu iria encontrar. Meu código era PX2G1426 QSL? (risos). De lá conheci uns cariocas e fui para a favela da Penha no Rio de Janeiro. Cheguei lá debaixo de tiros (risos). Não tive medo. Dormi lá com o pessoal. Foi uma experiência inesquecível.
JC - Que aventura! (risos) Quando resolveu cursar tecnologia agrícola?
Tio Gui - Então, foi aos 18 anos. Trabalhava também como garçom e era atuante no movimento cultural bauruense. As coisas aconteceram todas juntas em um único momento em minha vida. Quando eu trabalhava como garçom, eu ainda "soltava o gogó" e cantava. Gostava de fazer imitações, tipo o cantor Nelson Gonçalves. O pessoal adorava. Todo mundo devia me achar um louco: um cara cursando tecnologia agrícola no meio de um monte de "cowboys" usando bolsa de crochê (risos).
JC - Quando começou a atuar no movimento cultural em Bauru?
Tio Gui - Foi nessa mesma época. Naquela época o movimento cultural era muito forte em Bauru. Tínhamos caminhão palco, o Parque Vitória Régia e levávamos cultura até os bairros. Eu ia até lá, pesquisava qual era a necessidade da população e levávamos filmes, música, bandas. Era o máximo! Atuei também na oficina Glauco Pinto de Moraes, logo que inaugurou em Bauru. Ali eu era responsável pela grade de programação. Montei dois bares também nessa época. Foi muito legal mas o trabalho tomava muito tempo e parei. Foi nesse momento também que conheci minha esposa, Maristela Moreno.
JC - Sua esposa também era atuante no meio cultural?
Tio Gui - Eu a conheci em um coquetel super chique com o secretário de cultura da época. Eu tinha 20 anos. Cheguei na festa vestido de bruxo, para "cutucar" mesmo! (risos). Aí ela resolveu montar na minha vassoura! (risos). Ela era prima do secretário, e acabamos nos conhecendo. Foi amor à primeira vista e continua até hoje.
JC - Destaque algum momento muito marcante em sua vida...
Tio Gui - Tiveram vários. O mais impactante foi a hipertermia que sofri na cirurgia que fiz para corrigir a otoesclerose. Descobri a doença aos 20 anos, comecei a escutar mal e foi piorando, Até que procurei um especialista. Fui encaminhado ao Centrinho daqui de Bauru e fiz a cirurgia em Botucatu. Lá eu tive um problema na volta da anestesia geral. Eu me lembro do médico falando algo de um medicamento. Ainda brinquei com ele: nossa doutor, essa droga é forte! (risos) Fui colocado em uma mesa de metal com um monte de gelo. Ali fiquei horas. Minha esposa e meus pais esperavam do lado de fora. Até que eu voltei. Mas poderia ter morrido.
JC - Você imaginava que seria pai bem cedo?
Tio Gui - Não. Mas como eu morava com a minha esposa, sabia que isso podia acontecer. Foi maravilhoso. Foi por ser chamado para ajudar em um trabalho sobre o índio na escola da Lariana, quando ela tinha 7 anos, que surgiu o Tio Gui. Eu ensinei as crianças a fazerem arco e flecha, e elas ficaram maravilhadas. A escola gostou e me contratou. Depois disso, também fui parceiro do JC Criança por três anos, começando em 1999. Lá eu ensinava as crianças a fazerem brinquedos, dobraduras. Criei também o site do Tio Gui. Naquela época a internet era muito lenta e custava caro. Tinha que entrar depois das 0h. Mas criei o personagem Tio Gui, que virava o Fazildo. Mas para virar o Fazildo era preciso passar pela porta, que não tinha um relacionamento muito bom com a fechadura. (risos) Depois da porta o Fazildo criava muito. Ele contava com a ajuda da cadela Dicki, minha cachorra.
JC - Que imaginação! A partir disso o Tio Gui ganhou espaço...
Tio Gui - Foi. Aí tive a oportunidade de participar de programas de rádio na Unespinha. Foi bacana porque as crianças começaram a ouvir rádio. Fui chamado para dar aula em 11 escolas e fiz inúmeros trabalhos com as crianças. Tinha que ensinar algo a eles em 40 minutos. E eu ensinava. E eles faziam. Nada de teoria, só prática que tinha sempre a ver com a física, química. Tudo com material reciclado, reutilizável. Elas adoravam. Fizeram marionetes, fantoches de dedo, bonecos, telas confeccionadas por elas mesmas. Ensinava elas a criarem cores. Não pedia material nenhum. Utilizava o que tinha na escola. Era muito legal. Uma vez fiz uma caravela em cima do telhado de uma escola com caixas de leite. Ficou lindo. Mas esse monte de aulas começou a ficar muito pesado e comecei a diminuir. Também precisava ajudar a loja de decoração minha e da minha esposa. Hoje estou lá, atuando no administrativo da empresa.
JC - Você me disse que o site do Tio Gui está sendo indicado pela Unicamp?
Tio Gui - É verdade. O site do Tio Gui hoje tem mais de 1 milhão de acessos e 10 milhões de páginas abertas. Eu recebi um e-mail do pessoal da Unicamp dizendo que eles indicavam o site para terapeutas que usavam o site com crianças especiais. Disseram que as crianças ficavam mais tranquilas pela quantidade de atividades que tinham ali. Hoje o Tio Gui está um pouco "esquecido". Estou terminando de construir o espaço para realizar oficinas com pais e filhos. Quero promover essa aproximação. Ensinar eles a fazerem carrinhos de rolemã e depois sairemos para andar na praça. É muito importante, principalmente nos dias de hoje, que os pais estejam juntos em momentos com os filhos e também atentos à consciência ambiental.
JC - O que você acha do "marketing" da sustentabilidade?
Tio Gui - Eu acho errado. Porque as pessoas separam o lixo em casa, acham que estão fazendo muito e quando saem da porta para fora jogam lixo na rua. Acho que ser sustentável é colaborar com o meio ambiente. Eu acho que sempre tive consciência ambiental, porque eu convivi com o sítio, os animais, e vi como o mundo mudou, para pior. Hoje, a sustentabilidade é questão de sobrevivência. Eu costumo dizer que para construir o mundo demora uma humanidade e para destruir bastam duas gerações. Tenho medo das gerações futuras e por isso sempre cuidei do meio ambiente. Aqui em casa já reutilizo água com a gravidade, porque reutilizar com a ajuda de um motor não é válido. Também uso luz para iluminar o jardim com energia solar. Minha casa está longe de ser totalmente sustentável, mas consegui construir este local melhorando muita coisa.
JC - Qual o tipo de música que você gosta?
Tio Gui - Eu gosto de todos. Sempre gostei muito de música. Agora me aventuro uma hora por dia tocando pandeiro. É um instrumento que se encaixa em qualquer estilo, um instrumento alegre. Mas gosto muito de flauta também. Fiz um tambor de cerâmica.
JC - E como você se define hoje?
Tio Gui - Eu digo que sou um apaixonado por caçambas! (risos) Meu irmão também me chama de Gepeto dos trópicos porque adoro construir as coisas. Gosto muito também de astrologia. Tenho um telescópio e uma luneta, mas prefiro ver as estrelas a olho nu.