Desde que nossos ancestrais passaram a se equilibrar sobre duas pernas, até hoje, a destruição de tudo quanto está a sua volta foi à única forma conhecida para prover os meios da subsistência humana. O homem sempre exerceu uma ação predatória em relação ao meio em que vive. Nosso planeta, que há poucas décadas tinha sua superfície coberta por variado tipo de vegetação, com o tempo viu as árvores cedendo lugar às atividades agropastoris e aos cada vez maiores centros urbanos. É a história da ocupação humana.
A continuada supressão da vegetação nativa trouxe consigo consequências; umas imediatamente sentidas outras somente com o tempo se fizeram notar, como alterações no clima, o desaparecimento de inúmeras espécies de animais e vegetais, segundo cientistas, nas últimas décadas, a maior desde o desaparecimento dos dinossauros há 65 milhões de anos. E não só a utilização inadequada dos recursos naturais, em especial do solo, torna mais devastadora a ação do homem, a terra exposta, sem a proteção natural, torna-se incapaz de absorver as águas das chuvas que deveriam abastecer os lençóis subterrâneos, que, por sua vez, abastecem as nascentes de rios e lagos, o que vem provocando o desaparecimento de muitos rios ou a diminuição na sua vazão.
A água que escorre pelo solo desprotegido arrasta para os corpos d?água toda sorte de poluentes, provoca assoreamento dos rios e deixa para trás, na maioria das vezes, o solo erodido. Assim, a água, recurso até bem pouco tempo tido como inesgotável, torna-se cada vez mais escassa. Com um volume estimado em um bilhão, trezentos e quarenta milhão de quilômetros cúbicos, volume praticamente igual há 500 milhões de anos. Deste total apenas 0,01% está disponível para o consumo e não se sabe ao certo quanto desta água apresenta níveis de contaminação que a torna imprópria para o consumo humano.
Já há algum tempo, cientistas de todo o mundo alertam que os avanços acelerados da robótica, genômica e nanotecnologia poderão gerar problemas ingovernáveis. De fato, o vertiginoso desenvolvimento tecnológico tem acelerado a História. O ritmo atual de mudanças não tem precedente. A produção mundial de grãos que até 1950 atingia a casa de 1,1 toneladas por hectare, em 2008, segundo a CONAB ? Companhia Nacional de Abastecimento, no Brasil se aproximou de 3,0 toneladas por hectare. O crescimento da economia mundial que até por volta de 1917, quando ocorreu a chamada "revolução industrial", mal chegava aos 2% ao ano, cresceu sete vezes mais, minimizando qualquer índice anteriormente registrado.
Se por um lado se apresentam como fabulosos os avanços da ciência e os índices que indicam o crescimento da economia mundial, não podemos menosprezar outros números igualmente grandiosos, como o crescimento populacional que desde 1950 foi maior do que em toda história da humanidade até então. Se há poucas décadas éramos medidos em milhares, hoje somos medidos em bilhões de pessoas. Ou ainda o surgimento de novas doenças infecciosas, desde 1974 foram identificadas cerca de 30, como o HIV que ceifou mais de 20 milhões de vidas; o aumento da temperatura na Terra em 0,8ºC desde a revolução industrial; as estimativas da Organização das Nações Unidas ? ONU, que prevê a falta de água para mais de 1 bilhão de pessoas já em 2020, além das cerca de três milhões de crianças que atualmente morrem vítimas de infecções e diarréias anualmente, provocadas pela água contaminada. Os incontáveis casos de doenças respiratórias provocadas pela poluição atmosférica, a desertificação, o derretimento de geleiras, a elevação no nível dos mares e oceanos e o número cada vez maior de catástrofes relacionadas ao clima: enchentes, furacões, ciclones. Tão pouco podemos deixar de considerar o igualmente grandioso volume de lixo produzido, somente no Brasil, estimado em aproximadamente 125.000 ton/dia. E outros tantos efeitos que parecem deixar claro para quem se dispuser entender, que já fomos além dos limites naturais do planeta. Há muito, Gandhi já teria alertado: "O planeta produz o suficiente para saciar a fome da humanidade, mas não para saciar sua ganância".
Na encruzilhada do momento crucial que chegamos, ante o modelo econômico vigente, dilapidador dos recursos naturais, e a necessidade de se fazer algo de concreto em favor da nossa geração e das gerações futuras, conciliando crescimento e desenvolvimento com preservação ambiental, somente possível pelo trabalho conjunto e cooperativo, tanto a nível local quanto global.
O autor, Luís Carlos Barbosa Cardoso, é colaborador de Opinião - luiskardoso@hotmail.com