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Queimadas e vento formam nuvem de fumaça em Bauru; chuva traz alívio

Tisa Moraes e Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 11 min

Um grande incêndio, com provável causa criminal, atingiu na tarde de ontem uma área de cinco hectares (equivalente a cinco campos de futebol) de pasto e plantação de canavial entre as penitenciárias 1 e 2 de Bauru. Segundo o tenente do Corpo de Bombeiros Cláudio Augusto Antunes da Silva, foi preciso mobilizar ao menos dez bombeiros para conter o fogo.

Mais de 10 mil litros de água e pelo menos seis horas de trabalho também foram necessárias para controlar as chamas, que atingiram até pontos da rede de energia elétrica. Até as 18h, homens do Corpo de Bombeiros ainda trabalhavam com abafadores no local para extinguir pequenos focos de incêndio.

As duas penitenciárias (P1 e P2), assim como outras 230 casas do bairro Gariroba, tiveram o abastecimento de energia interrompido, conforme informou a CPFL Paulista (leia mais abaixo). Por causa do incêndio, que teve início por volta das 11h e só foi controlado às 17h, uma grande nuvem de fumaça se alastrou no céu e oferecia riscos a quem trafegava pela vicinal que dá acesso aos presídios e corta a rodovia Marechal Rondon, na altura do quilômetro 358.

A Secretaria de Administrações Penitenciárias (SAP) emitiu nota à imprensa afirmando que foi preciso esperar o fogo ser controlado pelos bombeiros para restabelecer o funcionamento dos serviços. A previsão era de que o reparo na rede fosse concluído até as 22h, depois que as equipes de manutenção pudessem se aproximar da área afetada. “Incidentes de maior gravidade poderiam ocorrer em decorrência deste fato, mas com a ‘saidinha’ de Dia dos Pais nesta sexta, os riscos foram amenizados”, acrescentou a SAP em sua nota.

 

 

Suspeito


Não houve vítimas, mas um suspeito foi detido, acusado de provocar o incêndio. Segundo os PMs José Donizete Crisóstimo e Ícaro Dias, da Base Leste, um homem de 63 anos foi visto saindo do canavial quando as chamas começaram a se alastrar.

“Estávamos averiguando um problema em uma tornozeleira de um detento de uma das penitenciárias e iríamos levá-lo para a unidade prisional”, relataram os PMs. “Contudo, avistamos um sujeito em atitude suspeita saindo do meio do canavial e entrando em um carro. Achamos a situação estranha e resolvemos abordá-lo”, contou a equipe.

O homem, que é agente penitenciário da P2, alegou que estaria no meio da plantação porque iria cortar e colher cana-de-açúcar. Ao ser encaminhado ao Plantão Policial, ele alegou não estar se sentindo bem e foi encaminhado para o Pronto-Socorro Central (PSC), onde foi medicado e permaneceu até o final da tarde, segundo informação da unidade de saúde. Em seguida, foi levado ao Plantão Policial para prestar depoimentos.

Após ouvi-lo, o delegado plantonista Carlos Creppe liberou o homem por não ter encontrado indícios de que ele teria ateado fogo no canavial. Entretanto, um inquérito policial será instaurado para continuar as investigações sobre o caso, segundo Creppe.

 

Doze postes de iluminação são queimados


De acordo com informações da assessoria de imprensa da CPFL Paulista em Bauru, cerca de 12 postes da rede elétrica da área queimada pelo incêndio de ontem foram atingidos e danificados, inclusive os que abastecem as Penitenciárias 1 e 2. Assim, as duas unidades, assim como 230 casas do entorno, ficaram durante toda a tarde e parte da noite sem energia elétrica.

Para Carlos Alberto Martins, coordenador do Sindicato dos Eletricitários de Bauru (Sinergia CUT), os danos na rede elétrica poderiam ter sido evitados se o serviço de manutenção e inspeção da distribuidora de energia fosse feito “de forma mais responsável”. “Se tivessem tomado medidas de limpeza e inspeção nessa área, que se chama área de servidão, estas linhas expostas não teriam sido tão danificadas”, criticou.

Martins também apontou que, por causa de um dano em um ponto da rede de energia atingido neste incêndio, a cidade de Presidente Alves (a 56 quilômetros de Bauru) teria ficado sem energia. “Presidente Alves depende da linha que passa pelo canavial (de Bauru) para receber energia”, afirmou.

Indagada a respeito, a CPFL salientou que realiza todas as manutenções e inspeções necessárias da rede elétrica, inclusive na área atingida pelo incêndio. “O fogo atingiu proporções e uma grande altura, atingindo cruzetas da rede que se encontram a nove metros de altura, por exemplo”, informou a companhia por meio de sua assessoria de imprensa.

A empresa ainda negou que a falta de energia elétrica em Presidente Alves tenha sido causada pelo fogo em Bauru. “Apenas a área rural dessa cidade ficou sem energia devido a um incêndio na mesma localidade”, informou a companhia.

 

Fogo em mato pode gerar multa de R$ 5 mil


Com a chegada do inverno e sua característica estiagem, não é preciso muito esforço para encontrar inúmeros focos de incêndio espalhados pelos bairros de Bauru. Do lixo queimado na sarjeta até os incêndios de grandes proporções em terrenos baldios e em áreas de vegetação nativa, o fogo em mato é um problema crônico da cidade.

O hábito comum, entretanto, é considerado crime e prevê aplicação de multa que pode chegar a R$ 50 mil, num caso extremo de um hectare de mata em estágio avançado ser prejudicado. Se em estágio pioneiro, que incluem os terrenos com mato, a autuação aplicada pela Polícia Ambiental é de R$ 5 mil por hectare danificado. Já a multa mínima cobrada pela Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) em caso de fogo em mato na área urbana é de R$ 500,00.

Mas até mesmo o simples fato de poluir o ar com fumaça pode gerar sanções por parte de Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). De acordo com o Código Penal, se moradores do entorno se sentirem afetados pela redução na qualidade do ar, poderão recorrer à Polícia Militar (PM) e representar contra dono do terreno ou contra quem incendiou a área.

Neste caso, o acusado responderá por contravenção penal cuja punição poderá ser convertida em prestação de serviços à comunidade, além de multa que terá de ser estipulada pela Cetesb. Mas, para a aplicação de multa, é necessário que um técnico do órgão tenha avaliado a qualidade do ar do local no momento em que o incêndio tiver ocorrido.

 


• Serviço


As denúncias podem ser feitas na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, ou pelo telefone (14) 3235-1105. Na Polícia Ambiental, as reclamações são recebidas 24 horas por dia pelo (14) 3203-2700.

 

71 dias de estiagem


Embora tenha chovido timidamente em julho e agosto, incluindo o final da noite de ontem, Bauru ficou 71 dias sem registro de nenhuma precipitação considerável. A última ocorrência foi em 9 de junho, quando choveu 23,6 milímetros, conforme informações do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru.

“Antes desta, teve uma chuva de 21 milímetros no dia 7 de junho. Depois, não houve nada significativo, que fosse capaz de encharcar o solo e melhorar consideravelmente a qualidade do ar na cidade”, esclarece o meteorologista e presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet) José Carlos Figueiredo.

Em todo mês de julho, o acumulado foi de 7,9 milímetros e, em agosto, de 5,8 milímetros, até ontem. O último registro captado pelo instituto foi de 0,3 milímetro no último dia 5. Por conta do período de estiagem, a umidade relativa do ar chegou a 19% nesta semana, índice considerado de alerta pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ontem, com a aproximação de uma frente fria, o nível chegou a 33%, ainda inadequado para a saúde humana, mas já fora da faixa considerada de atenção.

 

Nuvem de fumaça atrapalha moradores

 

A combinação entre um grande incêndio, ventos fortes, altas temperaturas e baixa umidade relativa do ar fez com que uma gigantesca nuvem baixa de fumaça se alastrasse sobre Bauru na tarde de ontem. Além de bairros próximos às penitenciárias 1 e 2 - onde as chamas tiveram origem -, até mesmo a região central da cidade foi afetada. A situação se tornou ainda pior quando, no período da tarde, outro incêndio de menor proporção atingiu a região do Vale do Igapó.

Os transtornos provocados a milhares de moradores se transformaram em reclamação geral, que dominaram inclusive as redes sociais na Internet. A cor acinzentada no céu, em alguns pontos da cidade, levaram algumas pessoas a acreditar que choveria durante a tarde. De tão densa, a nuvem que se formou às margens da rodovia Marechal Rondon, próximo aos presídios, chegou a detectada pela estação de aferição do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru.

“Realmente, era uma nuvem enorme e preta, que chegou a bloquear a luz do sol”, conta a aposentada Dulce Gondo, 60 anos, moradora do Jardim Eldorado. “Por sorte, não tenho nenhum problema respiratório, mas fiquei com o nariz e a garganta ardendo por causa de tanta fumaça. É inaceitável pensar que um sujeito possa ser tão irresponsável e provocar todo este transtorno”, contesta.

Sua vizinha, a dona de casa Meire Rodrigues, 49 anos, relata que chegou a sentir-se mal por conta do forte odor provocado pela queimada. “Tive de fechar a casa toda e ligar o ventilador. Mas, mesmo assim, o cheiro não passava. Hoje foi pior, mas todo dia tem queimada na cidade. É uma falta de consciência que não tem fim”, reclama ela, que precisou lavar o quintal e a garagem no final da tarde para retirar a poeira e fuligem que tomou conta do bairro.

Também em razão da dispersão destas partículas, o açougueiro William Anderson Assis precisou providenciar uma faxina no estabelecimento em que trabalha, no Núcleo Gasparini. “Tive de limpar o chão e passar álcool em tudo, em cima do freezer e do balcão. Formou uma sujeira só”, comenta ele, que tossia por causa do tempo seco tomado pela poluição.

Também moradora do Gasparini, Nathália Nunes Machado, 23 anos, levava seus três filhos, de 2 meses, 3 e 9 anos, para brincar no parque quando a fumaça chegou ao bairro, por volta das 13h. “Estava insuportável. Os olhos ardiam e até as crianças, que não entendiam muito bem o que estava acontecendo, reclamaram”, comenta.

 

 

Ventania


De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, uma combinação de fatores transformou o incêndio próximo aos presídios em um grande transtorno para vários bairros da cidade, incluindo a região central. Um deles foi a ventania registrada no momento em que as chamas se alastravam.

“Os ventos, além de acelerarem o processo da queimada e aumentarem a proporção do incêndio, também ajudam a espalhar a fumaça mais rapidamente. A tendência seria que ela subisse e formasse uma coluna alta. Mas, com o vento, ela sobe até uma certa altura e se dispersa, descendo novamente em direção aos bairros”, detalha. Por volta das 13h40, os ventos chegaram a uma velocidade de 46,2 quilômetros por hora, segundo o IPMet.   

Além de dois incêndios em Bauru, também foram registradas grandes queimadas em Presidente Alves, Jaú e Ibitinga. Conforme Brito, estas partículas em suspensão na região também podem ter ‘viajado’ até Bauru, piorando ainda mais a qualidade do ar na cidade.

Outro fator é a estiagem associada à baixa umidade relativa do ar e às altas temperaturas, que deixam áreas de pasto ou mesmo plantações mais secas e, portanto, extremamente vulneráveis a incêndios. Ontem, os termômetros registraram máxima de 32,9 graus, com umidade do ar em 36%, índice fora dos níveis de atenção, mas ainda inadequado para a saúde humana, de acordo com parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

Frente fria traz chuva


Depois de um longo período de estiagem, a previsão era de chuva para hoje em Bauru. Mas no final da noite de ontem os bauruenses foram surpreendidos com uma leve precipitação, que já elevou a umidade relativa do ar para 65%. De acordo com o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru, uma frente fria que se deslocava ontem pelo Paraná já provocava precipitações em Presidente Prudente e Assis, seguindo em direção a Ocauçu e Marília.

Novas ocorrências isoladas de chuva estão previstas para hoje. “Por causa desta frente, as temperaturas devem cair bastante”, sinaliza o  meteorologista do IPMet e presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet), José Carlos Figueiredo. Para hoje, as mínimas esperadas são de 18 graus. No domingo e segunda-feira não deve chover mais, mas o frio se torna mais intenso, com temperaturas entre 11 e 19 graus.

 

Bombeiros receberam 50 chamados nesta sexta


No dia em que Bauru foi tomada por uma enorme nuvem de fumaça, o Centro de Operações do Corpo de Bombeiros recebeu cerca de 50 chamados para combater fogo em mato. Deste total, nove ocorrências foram atendidas pela corporação, incluindo os dois incêndios maiores, registrados nas imediações das penitenciárias 1 e 2 e no Vale do Igapó. O número, de acordo com o tenente Cláudio Augusto Antunes da Silva, refere-se aos telefonemas efetuados até as 18h.

“O volume de chamados foi além do normal, principalmente porque muita gente ligou por causa do incêndio ao lado dos presídios. Em dias anteriores, a média ficou em torno de 20 a 30 ligações. O problema é que o tempo está muito seco e, com o vento, qualquer pequeno foco tem possibilidade de se propagar muito rápido”, observa o oficial.

Conforme o JC já divulgou, os inúmeros focos de incêndio que se formam pela cidade nesta época do ano sobrecarregam este atendimento específico do Corpo de Bombeiros, que conta com uma estrutura limitada. São apenas três viaturas, sendo um autotanque e dois autobomba para suprir toda a necessidade de Bauru e diversas cidades da região como Arealva, Avaí, Balbinos e Cabrália Paulista.

“Temos de estabelecer prioridades, atendendo os casos mais graves, como fizemos hoje (ontem). Quando uma viatura é liberada, a gente volta a entrar em contato com as pessoas que nos chamam para saber se ainda há necessidade da nossa presença mas, muitas vezes, o fogo já foi controlado pela própria população”, esclarece.

 

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