Sufoco. Essa é uma das principais sensações de se aventurar, no final do expediente ou nas primeiras horas do dia, a dirigir pelas principais ruas e avenidas da região central da cidade. Atravessar artérias como a Duque de Caxias, Rodrigues Alves ou o trecho central da Nações Unidas no rush, incluindo o “semipico” da volta do almoço”, para quem ainda tem o privilégio de fazer a refeição em casa, faz com que o motorista chegue ao trabalho já estressado, antes mesmo de pegar no batente.
Lentidão após o semáforo abrir, inversão da ordem entre as faixas (quando existe a pintura), de ultrapassagem - a Duque, apesar de recentemente recapeada, é o maior exemplo de onde há um ‘código’ próprio, onde se ultrapassa pela direita e trafega-se a 20 km/h (onde o limite é 50 km/h) na esquerda -, ônibus atrapalhando carro, que corta motociclista, que irrita motorista, vice e versa.
Todo esse aperto no ir e vir durante um dia qualquer, em outros tempos poderia ser atribuído ao cotidiano dos paulistanos, que obviamente, até pelas dimensões da capital do Estado, enfrentam engarrafamento e estresse proporcionais à maior cidade da América Latina.
Contudo, a saturação das ruas e avenidas devido à sempre crescente quantidade de veículos, e consequente nervosismo de condutores e passageiros, há muito não são “privilégio” dos moradores da capital. Bauru, entre outras grandes cidades do Interior paulista, já está com a malha viária estagnada para a atual frota.
De um ano para cá, a quantidade de veículos motorizados - considerados, basicamente, automóveis, utilitários, motocicletas, ônibus, caminhões - subiu 7,2%, saltando do total de 197.523 automotores verificados em abril de 2010 para 211.823 no mesmo mês de 2011, conforme o levantamento mais recente da Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Bauru.
Susto
Os números, que assustam, diferentemente do tráfego, não param por aí. Por ano, são mais de 14 mil novos veículos motorizados circulando nas mesmas ruas, numa média superior a 1,1 mil veículos emplacados por mês nas ruas e avenidas bauruenses. Descontados os autos de cidades vizinhas, de pessoas que trabalham ou estudam em Bauru, a frota local já ultrapassou, e muito, a condição de absorção de fluxo na cidade, observa o engenheiro de transportes Archimedes Raia Júnior.
Doutor pela Universidade de São Paulo, pesquisador e professor de Engenharia e Segurança de Tráfego da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ele é um dos que não descartam, num futuro não tão distante, a adoção até mesmo de medidas mais drásticas para amenizar esse gargalo. Uma delas é o rodízio.
“É uma possibilidade. Em Bauru, mesmo com as recentes Nações Norte ou prolongamento (da duplicação) da Comendador José da Silva Martha, ainda há grandes afunilamentos, pela falta de continuidade, interligação, de nosso sistema viário”, analisa.
Especialista ressalta interligação de vias
Assim como uma artéria entupida que eclode em derrame no corpo humano, as vias urbanas, ainda mais nos horários de pico, já não suportam mais tanto veículo. Facilidades em crediário, ausência de alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), além do maior poder aquisitivo da população em geral incentiva quem antes não tinha a oportunidade de adquirir um carro, a trocar o ônibus pela individualidade e, obviamente, maior conforto do automóvel.
Queira ou não, ter um carro facilita, e muito, a vida. Entretanto, é necessário estrutura para abrigar esse crescimento - de poder aquisitivo e, respectivamente, frota. “Não vejo solução em curto prazo”, decreta o engenheiro de tráfego Archimedes Raia Júnior. “O asfalto da Rodrigues é tão ruim, não há condições. Ela ainda desemboca na Pedro de Toledo, seguida pelo Mauá (viaduto semi-interditado que liga o Centro à Vila Falcão). Falta um plano de interligar as principais vias, que estão isoladas”, observa.
Ao contrário de uma grande corrente que clama pela conclusão do viaduto inacabado, o engenheiro defende o prolongamento da avenida Nuno de Assis, que para ele, deveria desembocar na região da Vila Dutra, abreviando o contato entre essa área e a região central. “Sempre fui contra o viaduto atualmente inacabado”, opina. “Falta interligar as vias principais”, reitera.
Em recente artigo publicado no JC, o engenheiro ainda adianta que a cidade não dispõe de uma via de trânsito rápido, fundamental para áreas urbanas do porte de Bauru. “O sistema viário deve ser hierarquizado em quatro categorias: de trânsito rápido, arterial, coletora e local”, diferencia o engenheiro.
‘Colapso é agora’, afirma especialista
A cidade não vai parar. Já parou. Segundo acreditam alguns especialistas, bem como os próprios usuários das vias urbanas da cidade, o fluxo, ou a tentativa dele, em alguns momentos do dia já atingiu patamares muito acima do que se pode ser taxado de ruim. “Já estamos em colapso”, decreta o e instrutor de trânsito, Ilton Sant’Anna.
Professor de psicólogos peritos examinadores, o estudioso atribui à lentidão e falta de capacidade para atender a toda a demanda por parte do transporte coletivo. Segundo ele, numa relação custo x benefício, de fato é mais vantajoso tirar o carro da garagem.
“Em Bauru, num trajeto em que é possível fazer em 10 minutos com o carro, de ônibus acaba em duas horas, caso o passageiro tenha que tomar dois coletivos”, ilustra Sant’Anna. “Se alguém toma dois ônibus e voltar do trabalho diariamente, gasta em média R$ 10,00. De carro, o mesmo trajeto sai em torno de R$ 2,50 de combustível”, compara.
Os cálculos, além do conforto, incentivam, de acordo com ele, para que cada vez mais automóveis ocupem o apertado e disputado espaço das principais avenidas da cidade. “A frota brasileira dobra a cada quatro anos”, aponta.
O instrutor, autor de “Cartilha Brasileira do Trânsito” (Editora Canal 6, 161 páginas, obra que traduz o Código de Trânsito Brasileiro), é um dos estudiosos na área que não descartam a possibilidade de adoção de um rodízio no interior, a exemplo do que ocorre na capital do Estado, desde 1997. Entretanto, os megacongestionamentos paulistanos comprovam que a medida está longe de ser a solução. “Por isso (rodízio), boa parte das pessoas mantém dois carros”, relaciona.
Principalmente nos horários de pico - por volta das 8h e 17h -, sob a ótica do estudioso, Bauru apresenta traços de lentidão que não devem em nada na perda de tempo e estresse às principais cidades do País.
A solução, para ele, estaria sobre trilhos, a bordo do antigo desejo de revitalizar a malha ferroviária existente na própria cidade. Sant’Anna defende o reaproveitamento de trilhos e composições em inatividade numa espécie de “anel ferroviário” em torno de Bauru. “O material já existente poderia ainda ser aproveitado para um trem turístico”, sugere.
Em meio aos problemas estruturais e no trilhar ao menos hipotético de soluções, contudo, existe outro entrave ao tráfego urbano, elenca o psicólogo. “O nosso trânsito seria muito melhor se houvesse respeito entre os condutores e à legislação”, observa, citando frequentes abusos, testemunhados por ele mesmo, como motocicletas de entregadores, invadindo calçadas, ainda na contramão.
Apesar dos problemas, usuários veem melhorias no sistema viário da cidade
Usuários tanto do sistema de transporte coletivo quanto individual, apesar de cientes dos problemas da malha em absorver a frota cada vez maior da cidade, enxergam melhoras no sistema viário da cidade.
O professor Geraldo Melado, de 25 anos, que utiliza automóvel, vê com bons olhos as melhorias recentes, principalmente na Duque de Caxias, que passou por recapeamento em alguns trechos.
No entanto, ele reclama da falta de sinalização nos bairros periféricos, bem como a ausência de um eixo de interligação entre as regiões mais distantes. “Uma via expressa, ligando os bairros, desafogaria o trânsito”, considera.
O engarrafamento em diversos pontos no horário de pico, pelo gargalo formado na região central, não incomoda quem está apenas ao volante. Quem está sobre duas rodas, muitas vezes criticado, justa ou injustamente, de forma generalizada por barbeiragens, também diz sofrer com a lentidão do rush bauruense.
“Perto das 8 da manhã e 6 da tarde é muito ruim. Nós também temos reclamações, alguns condutores de carros mudam de faixa sem dar a seta ou não olham no retrovisor”, reclama o motociclista Rodrigo Leandro Gomes Porto, de 33 anos, que considera a Duque de Caxias como o pior corredor de tráfego da cidade.
De “camarote”, passageiros do sistema de transporte coletivo observam a “guerra” entre motoristas e motociclistas.
Transporte coletivo
Ouvidos nesta semana pelo JC, apesar de uma recente pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontando que 55% dos usuários brasileiros considera ruim, péssimo ou no máximo regular o sistema de transporte coletivo das cidades, eles dizem estar satisfeito com os ônibus urbanos em Bauru. Morador do Jardim Santa Luzia, o porteiro Cidinei José Picceli, de 50 anos, prefere deixar o carro na garagem para tomar dois ônibus na ida ao trabalho, na região central, e nova baldeação na volta para casa.
“Para mim, pelo menos, é excelente. Não tenho do que reclamar”, aprova. “Tenho carro, mas vou e volto de ônibus. Não há problema algum. Prefiro o ônibus ao invés de encarar esse trânsito”, opta.
Com setenta linhas, de acordo com a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), a um custo, em dinheiro, de R$ 2,40 (tarifa convencional em dinheiro, sem descontos para planos diferenciados com cartões de integração, o sistema de transporte coletivo na cidade, apesar de agradar aos usuários, ainda não compete com o conforto do sonhado possante.
“Eu acho os ônibus bons aqui em Bauru”, avalia a usuária Ângela Damas, moradora do Jardim Ferraz. “Mas, se eu tivesse carro, não andaria de ônibus”, admite.
PM vai intensificar blitze
Para coibir infrações que causam ainda mais problemas à saturação das principais artérias de tráfego da cidade, a Polícia Militar de Bauru, por meio do Pelotão de Trânsito, anuncia para esta semana uma operação especial de fiscalização tanto sobre condutores de automóveis quanto motocicletas.
Vistorias sobre o uso de capacetes, cintos de segurança ou irregularidades como caminhões em locais não permitidos ou condutores que dividem as atenções entre falar e segurar o volante serão intensificadas pela PM, que recentemente participou de uma reunião com lideranças do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg), Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) e Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), ocasião em que o evidente estado de saturação do trânsito na cidade foi colocado em pauta.
Para o tenente Adriano Aguiar, comandante interino do Pelotão de Trânsito da PM na cidade, as irregularidades caminham de mãos dadas com a falta de estrutura urbana para atender à atual frota da cidade.
Ele cita o viaduto inacabado (antiga obra no Centro da cidade, sobre a via férrea, entre o Jardim Bela Vista e Vila Falcão, paralisada desde o final dos anos 1990, atualmente em fase de licitação para reinício) além do viaduto Mauá, parcialmente interditado há quase três anos, como causadores de boa parte dos engarrafamentos na região central. “O fluxo de toda a cidade passa pela região (central) e esses dois (dispositivos) são responsáveis por boa parte do gargalo”, observa.