Geral

Falta professor intérprete em Bauru

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 5 min

O estudante de 16 anos Marcos Augusto ficou pelo menos duas semanas sem ir à escola. Ele, que possui deficiência auditiva, não conseguiu assistir às aulas na Escola Estadual Ernesto Monte, onde cursa o 6º ano, pois a turma que frequenta ficou sem professor-intérprete, profissional especializado em libras (língua brasileira de sinais) que atua em sala de aula com os demais docentes para transmitir o conteúdo ministrado aos estudantes surdos.

A libras foi criada pela Lei 10.436 de 24 de abril de 2002 e regulamentada pelo decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005. Para o portador de deficiência auditiva, é a sua primeira língua e a língua portuguesa, a segunda.

Apesar da escola de Marcos ter conseguido contratar um novo professor intérprete nesta semana, a mãe do adolescente, Edna Barbosa de Oliveira, procurou o Jornal da Cidade no último dia 12 para criticar a dificuldade do Estado em contratar esses profissionais. Sem o especialista em linguagem de sinais, a aprendizagem fica prejudicada e o aluno com deficiência auditiva se sente desestimulado. "Está cada vez mais difícil professores-intérpretes assumirem aulas que ficam em aberto", criticou Edna.

"Quando acontece de um professor de outra disciplina faltar, há como chamar outro professor para repor essas aulas. Mas se um intérprete falta, é mais difícil ocorrer essa reposição", acrescenta a mãe, bastante aflita com a situação.

A intérprete que atuava na sala de Marcos deixou a escola pois teria passado em um concurso público, segundo informação de Edna. Mas, desde então, segundo ela, o filho ficou sem estímulo para frequentar as aulas durante o período em que a escola não conseguiu ?repor? esse profissional. "Sem o especialista, ele ficou se sentindo perdido", alega.

A Ernesto Monte, localizada no Altos da Cidade, é escola polo no atendimento a alunos com deficiência auditiva e conta com quatro intérpretes. A unidade de ensino atende cerca de 30 alunos com deficiência auditiva em diversas séries.


Demanda


Edna conta que veio há pouco tempo de São Paulo, cidade onde não precisou enfrentar a carência de profissionais. "Aqui em Bauru estou percebendo que faltam professores que dominam a linguagem de sinais", enfatizou.

Para Luis Mateus da Silva Souza, professor de Libras da Universidade Sagrado Coração (USC), ainda faltam profissionais que dominam a libras no Interior e a oferta de formação nessas localidades ainda é precária. "Nós não temos ainda, no Interior, uma formação de linguagem de sinais em um nível que nós precisaríamos ter. A habilitação em letras, libras e pedagogia bilíngue, por exemplo, ainda é oferecida somente em cidades de maior porte e capitais", alegou. "Mas aos poucos, eu acredito que os órgãos responsáveis vão conseguir adequar a demanda em relação à formação necessária", salientou.

O professor diz que o trabalho com libras é recente no Brasil. "Antes, havia outra linha de pensamento, outra proposta pedagógica em relação ao deficiente auditivo. Hoje, há a proposta de bilinguismo e as pessoas precisam entender que libras não é simplesmente uma mímica ou uma língua alternativa. Libras é uma língua complexa, que precisa de profissionais muito bem capacitados", assinala.

____________________

Procura


A intérprete de língua de sinais e pedagoga do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da Universidade de São Paulo Valderes Elena Rodrigues diz que o mercado é amplo para atuação de profissionais que procuram se especializar em libras. A procura por essa especialidade também tem sido bastante diversificada.

Ela, que atua no curso de língua brasileira de sinais (libras) oferecido no Centrinho, diz que há procura por profissionais da área de assistência social, fonoaudiologia, dentistas e educadores.

A especialista diz que existe uma diferença entre o professor intérprete e o interlocutor, que também atua nas escolas. "O professor intérprete precisa ter proficiência na língua de libras e possuir certificado pelo Ministério da Educação. Já o interlocutor tem que ter o curso de língua de sinais de 120 horas e licenciatura plena", explica.

Independentemente do tipo de habilitação, o desafio desses profissionais é garantir a aprendizagem aos alunos com deficiência auditiva. "Para quem quer seguir a área, é importante fazer um curso de fluência em libras e ter contato com pessoas com surdez, que são fluentes na língua de sinais", salienta. "Enquanto a nossa língua é oral, auditiva, libras é percebida pela visão e feita através das mãos, no espaço. Por isso, o contato frequente com pessoas fluentes é essencial, já que não estamos habituados a usar esse tipo de língua no dia a dia", acrescenta.

Com fluência e domínio da língua de sinais, o profissional consegue passar com clareza os conteúdos escolares para o aluno, conforme expõe Valderes.

____________________

Centrinho já habilitou
mais de mil profissionais


Em Bauru, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP e a Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (Funcraf), entidade parceira do Hospital, oferecem cursos de língua brasileira de sinais (libras) para a comunidade desde 2000. Até agosto de 2011, 1.068 pessoas de Bauru e região já aprenderam libras nestes cursos. Neste ano, 89 pessoas estão matriculadas.

Ministrado por instrutor de libras certificado pelo Ministério da Educação (MEC), o curso é destinado a profissionais de educação e saúde que atuam com pessoas que têm deficiência auditiva e também a interessados em geral. O curso é oferecido em dois módulos (básico e avançado), com duração de um semestre cada. As aulas acontecem uma vez por semana, no Centrinho. São duas turmas, uma nas manhãs de sábado e outra nas noites de terça. A carga horária completa do curso é de 120 horas.

Os interessados devem acompanhar a abertura de inscrição, que acontecem sempre no início de cada ano, pelo site www.funcraf.org.br. Outras informações pelos telefones (14) 2106-0911 e (14) 2106-0908. O curso é promovido numa parceria entre Centrinho e Funcraf.

Comentários

Comentários