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Nós, os Bruzundangas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O brasileiro tem noção clara dos comportamentos éticos e morais adequados, mas vive sob o espectro da corrupção. Se o País fosse resultado dos padrões morais que as pessoas dizem aprovar, pareceria mais com a Escandinávia do que com a Bruzundanga ? corrompida nação fictícia criada por Lima Barreto (1881-1922). Daí a razão daquele jornalista espanhol não entender por quê os brasileiros não saem às ruas bradando "contra a corrupção". Milhões em marcha pelo "orgulho gay" ou "com Jesus" e ninguém na Paulista para berrar pela restauração da moralidade, se é que houve moral na política, algum dia.

A obra que retrata a República da Bruzundanga foi lançada no ano seguinte à morte de Lima Barreto, autor consagrado por livros como "Triste Fim de Policarpo Quaresma". O escritor reconhecia haver um abismo de separação entre o mundo político e a população. "A nação acaba não mais compreendendo a massa dos dirigentes, não lhe estendendo estes a alma, as necessidades, as qualidades e as possibilidades". E concluiu: "Um povo tem o governo que merece". Sim. Foi ele que criou o clichê com o qual todos concordam, mas esperam que as coisas mudem um dia por providência dos céus. De fato, não é fácil entender nem explicar o que acontece com um governo que perde ? ou troca, se quiser ? quatro ministros em oito meses. É a contabilidade do Governo Dilma, que se não assusta, aturde os que acompanham o dia a dia da política.

Dilma se expôs à sanha das denúncias ao deixar sangrar à vontade o seu ministro-chefe, Antonio Palocci. Depois, veio o Ministério dos Transportes, vítima do "fogo amigo" - as denúncias do irmão do líder do governo Romero Jucá (PMDB-RR). A bola da vez é o Ministério do Turismo, com a descoberta de transações desonestas em investigações executadas pela Polícia Federal. O ex-presidente Lula se diz preocupado com a "governabilidade". Do jeito que a coisa vai, Dilma será obrigada a demitir um ministro a cada dois meses e a preservar a base governista no Congresso.

A corrupção no governo não sobrevive sozinha. Ela depende da colaboração de agentes privados, incluindo fornecedores do governo. Existe um modelo promíscuo a ser seguido por aqueles que querem se eleger e precisam financiar suas campanhas eleitorais. A humanidade não encontrou um formato melhor de democracia que seja capaz de desvincular as eleições de influências do dinheiro nas disputas eleitorais. A população vive com a sensação de que os casos de corrupção somente são combatidos e os poderosos demitidos dos seus cargos quando a imprensa escancara os desvios e os "malfeitos", para usar a expressão da presidente Dilma Rousseff.

Não são muitos os casos de corrupção que explodiram e tiverem punição exemplar sem antes a imprensa ter exposto o mau comportamento para toda a nação. É importante que a população entenda o alto prejuízo que a corrupção traz para o desenvolvimento social e para a distribuição de renda. "A faxina é contra a miséria" ? disse Dilma Rousseff ao lado do ex-presidente FHC. Estava armada a equação corrupção/miséria, a cujo corolário Marina Silva, em inspirado artigo deu uma messiânica dimensão: miséria mata, corrupção também.

Miséria e corrupção constituem um monstro de duas cabeças que o ativista indiano Anna Hazare resolveu enfrentar, destemido e desarmado. Sua pregação cívica empolga milhões de indianos. Morrer de fome na Índia é corriqueiro, sacrificar-se sem comer é uma arma política santificada, imbatível. Graças à ameaça de imolar-se, Mahatma Ghandi encostou o colonizador britânico contra a parede e apressou a Independência da Índia em 1947. Gandhi cunhou a expressão Satiagraha, firmeza na verdade ? que no Brasil tornou-se caricatura de honestidade. Seria demais pedir um novo Gandhi tupiniquim.

Da tribuna do Senado, Pedro Simon formalizou a conclamação de um apoio desinteressado à presidente para que ela avance no combate aos malfeitos. Outras vozes se levantam dentro da classe política: FHC, Jarbas Vasconcelos, conclamam à faxina. O povo parece cooptado pelos sindicatos e a UNE do lulopetismo. Difícil esperar alguma coisa da sociedade dita organizada. Seria de se esperar, pelo menos, uma faixa de algodãozinho barato, pintada com um "basta à corrupção". Levantada aqui e ali, na praça pública ou nos calçadões da vida, já valeria à pena. Disse uma vez um sociólogo que nós brasileiros não somos normais... Estamos sendo normalizados. Quem sabe um dia...

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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