Oito pinguins aos cuidados diários dos "vigilantes do peso", tucanos que só aceitam bananas se forem cortadas em pequenas rodelas ainda com casca, e um tamanduá bandeira tratado à base de papinha feita com mel, cenoura e beterraba. Foi o tempo em que a refeição dos animais selvagens presos em cativeiro e sob o cuidado humano era feita de maneira desordenada.
A reportagem do JC teve acesso à cozinha do Zoológico de Bauru e pode constatar os cuidados e obrigações de quem trabalha para que a dieta dos cerca de 800 animais atenda as necessidades alimentares de cada espécie.
Fundada em 1980, a área de aproximadamente 20 alqueires abriga 230 espécies com hábitos distintos. Diurnos, crepusculares (os que preferem o final da tarde) ou noturnos, cada uma dessas espécies tem um tratamento específico e são diariamente monitoradas por 52 funcionários. Quatro deles trabalham diretamente no preparo técnico da alimentação e são orientados pela zootecnista Cláudia Cristina Ladeira, responsável exclusivamente pela gastronomia do Zoo.
É ela quem define o que cada um dos animais deve comer e em quais quantidades. "Trabalhamos firme da hora que chegamos, logo pela manhã, até o horário de fechamento. As coisas têm que ser feitas conforme o passado pela zootecnista responsável que, mesmo agora estando de férias, já nos passou toda a cartilha. Toda nossa ação requer muita responsabilidade e tudo tem que ser feito com muito cuidado", conta a servente de limpeza e auxiliar na preparação da alimentação, Maristela Frabetti, 49 anos, 14 deles dedicados ao Zoo de Bauru.
O barracão com aproximadamente 10 metros quadrados é considerado pelo diretor, Luiz Pires, como a "alma do Zoo". "O setor nutricional funciona 24 horas, e qualquer erro que possa partir daqui compromete todo o serviço. Uma contaminação, por exemplo, pode colocar em risco todas as nossas espécies", conta.
Pires explica que mesmo presos em cativeiro, os animais selvagens mantêm seus hábitos e instintos. Principalmente no que diz respeito à alimentação. "Como é complicado encontrar comida na natureza, eles usam artifícios para guardar os alimentos, já que não sabem quando irão encontrar novamente. Alguns, como as cotias, cavam buracos para armazenar comida, e outros reservam os alimentos no papo ou nas bochechas".
O zootecnista afirma que dentro dos cativeiros o gasto de energia dos bichos cai em 30% ou 40%. "Nosso trabalho é de nutrir os animais, mesmo que mantendo a fome aparente, a sensação de barriga vazia. Isso é semelhante ao trabalho feito com os astronautas. No espaço eles não têm condições de comer uma feijoada ou dobradinha, por isso se alimentam de cápsulas que suprem suas necessidades de vitamina. Isso é o que controla a dieta dos animais".
Segundo o responsável, animais selvagens dificilmente demonstram doença. A "lei da natureza" prega que os mais fracos serão presas mais fáceis, e por isso a tendência é que mesmo doentes, os animais ocultem o máximo que puderem os sintomas. "Assim como os humanos, o primeiro sinal de doença é percebido na alimentação".
Para tentar minimizar os riscos de doenças se agravarem, o trabalho do setor de alimentação é fundamental. Por isso, o mesmo funcionário que leva a bandeja para a jaula, a recolhe ao fim do expediente. "Nosso objetivo é preparar a comida de acordo com o peso ideal estipulado pela zootecnista. Depois observamos também no recolher a bandeja se eles comeram tudo e fazemos o relatório a serem entregues, conta Vander Pereira, tratador do Zoo há 15 anos. "Se for constatado que o animal comeu menos, acionamos o setor de veterinária, que deverá avaliar o caso", explica.
Paladar exigente
Na busca por uma alimentação que atenda os requisitos nutricionais de cada animal, o Zoo de Bauru tem uma infinidade de pratos exóticos que compõem o menu. "Com exceção do urubu rei, um carniceiro de origem, todos os animais têm suas preferências e exigências. As pessoas acham que os animais comem qualquer coisa, ou os restos, uma espécie de lavagem. Mas não é assim", afirma o diretor Luiz Pires.
Ele conta que um dos problemas enfrentados em todos os zoológicos é não conseguir fornecer o que os animais encontram na natureza. "Algumas espécies de macacos que vieram da Amazônia comem frutos específicos daquela região. Substituímos por frutos encontrados aqui e que tenham o mesmo valor nutricional."
Na cozinha já estão separadas as bandejas de cada animal. Na do macaco aranha macho, por exemplo, há um pão fabricado ali mesmo, folhas de alface verdes, duas bananas descascadas e milho. Mas existem os mais exigentes. Alguns só comem banana se ela estiver cortada em rodelas pequenas e ainda com casca. Esse prato é servido aos tucanos. "Esses bichos têm o hábito de comer durante todo o dia. Se deixamos a banana descascada, ao bicar ele sentirá um pouco mole e entenderá que está estragada".
Mais exigente ainda é o tamanduá bandeira. Como não possui dentes e tem a abertura da boca reduzida, sua alimentação requer cuidados extras. "O tamanduá está acostumado a comer formigas na natureza, e só consegue se alimentar através da língua".
O jeito foi preparar uma papinha especial. A receita leva 350g de mel, mamão, beterraba, cenoura, banana, 900g de ração e 1,100kg de carne com a adição de vitaminas. "Tudo isso é batido no liquidificador e colocado em um recipiente".
Frutas, legumes, verduras, peixes, carnes, ração e grãos. Todos esse alimentos são cozidos, picados, triturados, moídos ou entregues crus. "Temos a ração que é comprada de indústrias e utilizada para alimentar alguns animais como alguns macacos, o lobo guará, o avestruz, o tucano e o papagaio. Ela resolve e muito o problema de nutrição, pois concentra os requisitos da alimentação de cada espécie", explica Pires.
Preservando os instintos selvagens alguns animais exigem presas vivas. A solução é criar as futuras presas. "Hoje temos aqui criação de grilos, besouros, baratas e tenebrios (gusanos) para satisfazer saguis, lagartos e peixes. Já para alimentar cobras e outros répteis criamos ratos pequenos e grandes, além de coelhos".
O responsável pelo Zoo explica que os animais criados para consumo não são os mesmos encontrados soltos. Eles também têm tratamento especial. "Nossos animais que servem de alimentação são especialmente tratados, pegamos as matrizes de laboratórios e criamos à base de ração".
Ratos e coelhos são criados para atender o gosto das temidas cobras gigantes. A piton reticulada, que mede quase 5 metros, come três coelhos num intervalo de 40 dias. Já a jiboia se satisfaz com 4 ratos. "Jogamos os animais vivos, pois se jogarmos mortos, pelo extinto eles nem vão atrás."
Pinguins, leão e tigre
lutam contra a balança
Assim como os humanos, alguns animais são mais "comilões" que outros, e requerem um cuidado específico. Se não preferem os alimentos com alto teor de açúcar ou gorduras, alguns deles abusam na quantidade.
É por isso que a balança já faz parte da rotina semanal dos oito pinguins de magalhães. Como não se movem tanto no zoológico quanto foram geneticamente programados, o jeito é fechar o bico. "Nossa maior luta com animais em cativeiro é com a obesidade. Em liberdade eles praticam mais exercícios, pois correm atrás de comida, abrigo e água, o que não tem necessidade aqui", explica o diretor Luiz Pires.
Num cubo resfriado a aproximadamente 14 graus positivos, os pinguins originais da região sul da América do Sul vivem em constante monitoramento. "Eles são com certeza os animais mais gulosos do Zoo. Por isso são alimentados individualmente. Cada um come 250 gramas numa refeição (são duas ao dia), e se despejarmos todos os peixes de uma vez, o mais forte vai comer os 2 quilos. Por isso temos que ter o trabalho de ir lá e colocar os peixes no bico de cada um".
Problema parecido passaram duas das principais "atrações" do Zoo. O biólogo Gérson Rodrigues, há 13 anos trabalhando em Bauru, conta que o leão do parque teve que passar por um rigoroso regime logo quando chegou. O "rei da selva" enfrentou a balança e superou o desafio. "Nosso leão chegou aqui comendo 8 quilos por dia, e já conseguimos baixar isso para 6 quilos", diz.
Rodrigues conta que esse é o mesmo peso de carne entregue ao tigre de bengala, novo "gordinho" em observação. "O tigre passou recentemente por um regime. É possível ver um tipo de pelanca na barriga dele, característico de felinos que emagrecem. As pessoas acham até que se trata de uma fêmea, mas não é. Isso é pele mesmo. Mas não tem como sair, só se fizer uma lipo", brinca o biólogo.
No caso dessas duas feras, a alimentação é feita apenas uma vez ao dia, por volta das 16h30, perto do horário de fechamento do Zoo (17h). "É devido ao instinto deles. O momento da refeição é de total stress para esse animais. Eles imaginam que outro pode vir e tomar a comida deles, e por isso priorizamos o horário mais perto do fechamento, com menos visitantes".
O pior dia para esses animais é o domingo, quando leão e tigre fazem jejum para desintoxicação.
E se alguns sofrem para diminuir a quantidade de comida e chegar ao peso ideal, outros precisam ser monitorados para que comam o necessário. É o que acontece com a lagartixa leopardo. Proveniente do Paquistão, o réptil de aproximadamente 25cm não come além de 4 gramas por dia. "A alimentação dela é feita por alguns gusanos e também neonatos (recém-nascidos) de camundongo".