O crescimento da economia brasileira, marcadamente no setor industrial e de serviços, é apontado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) como o principal fator para o aumento de autorizações concedidas a trabalhadores estrangeiros na região de Bauru. A expectativa é de que, até o final de 2011, o número de carteiras de trabalho emitidas nas 55 cidades de abrangência do órgão chegue ao dobro do total do ano passado.
Até julho deste ano, foram 51 autorizações expedidas a imigrantes, ante as 52 confeccionadas de janeiro e dezembro de 2010. "Estes trabalhadores estão concentrados nos setores de serviços e indústria da região e são originários, principalmente, do Peru e da China", considera o gerente regional do MTE, José Eduardo Rubo.
De acordo com o órgão, das 51 carteiras de trabalho, 17 foram destinadas a sul-americanos, 16 a asiáticos, 13 a europeus e 5 a outras nacionalidades. No ano passado, o ranking seguiu a mesma ordem. "Mas estimamos que o número dos imigrantes estabelecidos irregularmente seja bem maior, principalmente de sul-americanos, que conseguem atravessar a fronteira facilmente", acrescenta. Dos trabalhadores em situação regular, grande parte é formada por engenheiros e técnicos que atuam nos setores da construção civil, tecnologia, telecomunicação e manutenção mecânica.
Conforme destaca o economista Reinaldo Cafeo, o franco aquecimento da construção civil nos últimos anos fez com que a mão de obra estrangeira começasse a ser importada para suprir a falta de profissionais como engenheiros, por exemplo. "Normalmente, são pessoas que não vem ao Brasil para trabalhar em empresas de pequeno porte. E é a própria empresa que vai buscar este profissional fora", aponta ele, que é presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib).
O diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Bauru, Domingos Malandrino, considera que, além da construção civil, engenheiros de outros países também são requeridos para trabalho na área mecânica. Devido à escassez de mão de obra, ele esclarece que os salários cobrados por engenheiros brasileiros se tornaram muito elevados, o que levou os empresários a procurar alternativas fora do País
"Um engenheiro brasileiro custa R$ 15 mil, enquanto um profissional europeu aceita o trabalho por 1,8 mil (R$ 4,2 mil). Engenheiros também vêm do Chile e da Argentina. O problema é que a economia do Brasil cresceu muito, mas não houve um planejamento do governo para capacitação de mão de obra", detalha.
Fronteira
Mas uma parcela dos estrangeiros que desembarca na região também é composta por mão de obra menos qualificada, segundo analisa Cafeo. "São aqueles que saem de seus países pela falta de oportunidades e, no Brasil, aceitam qualquer tipo de trabalho. Neste caso, geralmente desempenham atividades rurais ou mesmo da construção civil", pontua.
Segundo Rubo, o perfil deste tipo específico de trabalhador é formado geralmente por sul-americanos que atravessaram a fronteira ilegalmente, permaneceram irregulares no País por um período e obtiveram direito a residência provisória (por dois anos, com direito a obter carteira de trabalho) por conta da anistia concedida pelo governo. "É um benefício concedido de tempos em tempos (o último foi em 2009) para que os clandestinos possam melhorar suas condições de vida", comenta o gerente regional.
E foi a anistia de 1998 que permitiu que o chileno Alejandro Recondo Ayala, 35 anos, regularizasse sua situação no Brasil. Durante quatro anos, ele permaneceu clandestinamente em São Bernardo do Campo e, depois de se especializar no ramo de manutenção de eletrodomésticos, veio morar em Bauru, onde abriu uma empresa em 2002.
"Vim para Bauru em 2000 e trabalhava consertando geladeiras e máquinas de lavar roupas. Abri a empresa para fazer este serviço, mas em 2009 voltei para o Chile. Fiquei dois anos lá, voltei e reabri a empresa para trabalhar exclusivamente com instalação e manutenção de ar condicionado", detalha.
Hoje, casado com uma brasileira e com uma filha nascida em Bauru, o empresário não pensa em voltar para o Chile e, para tanto, já obteve o visto permanente para ficar no Brasil. "Já me adaptei à cidade, onde eu conquistei família e estabilidade financeira. Ainda guardo minha carteira de trabalho, que tirei quando obtive a anistia do governo. Mas hoje não uso mais porque, felizmente, sou dono do meu próprio negócio", brinca.
Como obter a carteira e o visto
Para obter a carteira de trabalho, o estrangeiro precisa ter sua situação regularizada no País. Para tanto, deve possuir o visto permanente ou de trabalho emitidos pela Polícia Federal. Também pode ter sido anistiado pelo governo federal e obtido residência provisória. "O visto de turista não é aceito como documento", completa gerente regional do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), José Eduardo Rubo.
A última anistia concedida a estrangeiros pelo governo foi em 2009. Por meio desta medida, imigrantes podem obter a residência provisória no País, que é válida por dois anos. O benefício pode ser aplicado tanto para quem chegou legalmente, mas ficou por período maior que o concedido no visto de entrada, quanto para quem cruzou a fronteira na clandestinidade. Ao todo, quatro anistias foram sancionadas no Brasil (1980, 1988, 1998 e 2009). Conforme defendem grupos ligados aos Direitos Humanos, elas contribuem para que os imigrantes tenham acesso ao mercado de trabalho com as mesmas garantias legais dos brasileiros: carteira assinada, saúde pública, educação gratuita, acesso ao sistema bancário e ao crédito e o direito de ir e vir dentro do território.
Três meses antes do fim da validade do registro provisório, o estrangeiro poderá requerer o visto permanente, conforme regulamento a ser definido pelo governo. Para isso, precisará comprovar também profissão ou emprego lícito, bens suficientes para a sua manutenção e de sua família, ausência de dívidas fiscais ou antecedentes criminais e não ter saído do país por mais de 90 dias consecutivos durante o período de residência provisória.
Cidade "adotada"
Assim como o empresário chileno Alejandro Recondo Ayala, a chinesa Lilly Long, 63 anos, adotou Bauru como cidade para viver. Já naturalizada brasileira, ela trabalhou como empresária durante 25 anos em Bauru e, atualmente, ministra aulas de mandarim. De 1996 a 2000, a professora esteve vinculada ao Centro de Linguagem da Universidade Sagrado Coração (USC). Até o ano passado, atuou como voluntária na mesma instituição.
"Vim morar em Bauru com minha mãe, para estudar, quando eu tinha 20 anos. Depois me casei, tive loja e, quando me aposentei, terminei a faculdade de educação artística e passei a dar aulas de chinês", comenta. De acordo com ela, os principais interessados em aprender o idioma são médicos e empresários que participam de congressos e eventos na China, além de estudantes da terceira idade da universidade.
"Infelizmente, a utilidade do idioma ainda é restrita aqui no Interior. Gostaria que mais gente se entusiasmasse em aprender, porque é uma língua muito gostosa de aprender. É surpreendente ver a animação de quem faz as aulas", acrescenta.