Bairros

PM recebe mais de 600 trotes por dia

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Ofensas, piadas, pedidos de telefones de restaurantes, paqueras e falsas comunicações de crimes. Por incrível que pareça, é assim a rotina do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) de Bauru, que encara o duro desafio de separar todas essas ligações daquelas que são ocorrências reais de emergência. Segundo estatísticas da própria PM, são mais de 600 trotes por dia, sendo a maioria feita por crianças. Muito mais do que uma brincadeira irresponsável e nada engraçada, a demanda causa uma defasagem significativa no atendimento da polícia.

De acordo com a PM, o Copom de Bauru, que abrange 39 municípios e possui atualmente 43 atendentes, recebe média diária de 2,7 mil ligações. Desse montante, 23% são trotes, o que corresponde a aproximadamente 620 ligações por dia. Entre elas, há desde pedidos de namoro até solicitação de pessoas que estão com o celular quebrado e querem ser acordadas (leia mais abaixo).

"Os atendentes já são treinados para verificar o que é trote. Entretanto, existem situações em que não é possível fazer essa diferenciação e a viatura é enviada para o local. Há ainda o prejuízo da própria linha que fica ocupada e atrapalha quem está realmente necessitando do nosso serviço", conta o chefe do Copom, capitão João da Costa Duarte.

A reportagem passou algumas horas na tarde de ontem no Copom. Em um desses vários trotes recebidos, a linha de emergência ficou ocupada por 20 segundos. "Para quem precisa, um segundo já é muito. Na verdade, pode ser decisivo em resolver uma situação ou não", relata o capitão.

Além desse risco, ele também aponta outro efeito colateral preocupante: o descrédito de ocorrências reais. "É algo que pode ocorrer. Por exemplo, uma criança liga em uma situação real de emergência ,e como recebemos muitos trotes, corre o risco de acharmos que aquela é outra ligação falsa".

E, de acordo com as estatísticas da PM, as crianças são responsáveis por 70% dos trotes, o que corresponde a uma média diária de mais de 430 ligações. "Os horários que mais recebemos os trotes é na hora do almoço e no fim de tarde, quando as crianças saem das escolas. Por isso, estamos promovendo políticas educativas para conscientizá-los", completa o capitão Costa Duarte.

250 ligações

Em meio às inúmeras ligações que não param de chegar, o soldado André Góis de Oliveira, que é atendente do Copom, relata estatísticas quase surreais. De acordo com ele, já houve casos em que um mesmo número passou 250 trotes em um único dia.

"Perdemos muito tempo em meio a todas essas falsas ligações. A própria pessoa que passa o trote pode se prejudicar, pois o número fica ?fichado?. Então, ela pode ligar para comunicar algo real e acharmos que é trote", explica o soldado.

Vale ressaltar que passar trote é uma prática criminosa. Segundo o artigo 340 do Código Penal, comunicação falsa de crime tem pena prevista em detenção de um a seis meses ou multa. O caso pode ainda se enquadrar no artigo 266 do mesmo código, no qual consta que interromper ou perturbar serviço telefônico pode gerar prisão de um a três anos e multa.

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Cartilhas nas escolas

Por conta do grande número de trotes feitos por crianças, o Comando de Policiamento do Interior 4 (CPI-4), por meio do Copom, desenvolveu uma cartilha educativa para distribuir nas escolas de Bauru e região. Nela, está contida uma história em quadrinhos de um jovem que está passando trote e, ao mesmo tempo, sua mãe é assaltada e não consegue avisar a polícia por conta da linha ocupada.

Ao todo, foram confeccionadas seis mil cartilhas. As 200 primeiras serão entregues hoje, na cerimônia de lançamento da campanha, que ocorre às 14h, no Colégio São José, localizado na rua Antônio Alves, 1266.

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?Me pedem em namoro?, conta atendente

O que poderia engrandecer a auto-estima de Flávia Ferrari é, na verdade, um transtorno. Ela, assim como outras atendentes do Copom, sofrem com pessoas que ligam para paquerá-las.

"Muitos me pedem em namoro ou casamento. Alguns ligam cantando uma música. Geralmente, o trote não passa de um minuto, porém, atrapalha bastante nosso serviço", relata a atendente, que afirma ainda ter "admiradores" ? lê-se irresponsáveis ? fixos.

O chefe do Copom, capitão João da Costa Duarte, explica que é difícil localizar os autores de trotes, uma vez que a maioria é oriunda de telefones públicos. "Quando o caso é exagerado, ligamos no número e, se for uma residência, conversamos com os responsáveis. Quando é na rua, fica mais difícil, porém, se persistir, podemos mandar uma viatura ao local para verificar".

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Serviços equivocados

Já pensou em ligar para a Polícia Militar e pedir o telefone de uma pizzaria? A ideia que parece - e é - absurda, todavia, é praticada frequentemente. De acordo com o chefe do Copom, capitão João da Costa Duarte, além dessas situações, já ocorreram até casos mais absurdos. "Já teve gente ligando para dizer que o celular estava quebrado e perguntando se poderíamos acordá-los mais tarde", afirma.

Ele explica que, fora os trotes, o problema se intensifica com pessoas que procuram o Copom quando, na verdade, precisariam acionar outros serviços. "Muitas pessoas nos ligam dizendo que tem alguém passando mal, entre outros. Elas, na verdade, precisam se informar para acionar os serviços adequados".

Em alguns minutos acompanhando o trabalho do Copom, chegaram várias ligações de pessoas procurando serviços de ambulância e resgate. "Nosso serviço é, na verdade, de patrulhamento policial ostensivo e preventivo. Quando atendemos ocorrências fora da nossa alçada, saímos do nosso foco. E isso é prejudicial para toda a população", finaliza Costa Duarte.

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