"O politicamente correto é totalmente incorreto para a criação e para a arte". Essa declaração, do cartunista Maurício de Sousa, dada a uma emissora de TV na semana passada, define bem a linha tênue em que artistas ou demais profissionais que têm na criatividade a principal matéria prima se encontram atualmente.
Por um lado, a busca constante para atrair público ou clientes. De outro, a necessidade de não desagradar a uma tendência que, modismos ou justiças à parte, se faz cada vez mais forte, seja na comunicação, educação, artes ou regras de convívio em sociedade.
A obrigatoriedade em se adotar uma conduta politicamente correta, entretanto, levanta a questão: será que o mundo está mais "chato"? Educadores, historiadores e publicitários defendem, apesar da corrente que aderem, o bom senso.
Se, por um lado, estudiosos condenam práticas politicamente incorretas ao extremo, como incentivar estudantes a se comportarem mal na escola, por outro, eles defendem que nem tudo deve ser levado ao pé da letra, sob o risco de uma postura "cheia de dedos" provocar efeito contrário.
Um exemplo do excesso de tato é dado por algumas escolas infantis brasileiras, aponta o historiador Luiz Antônio Simas. Contrário ao excesso de polidez, ele protesta, em seu blog na Internet "Histórias Brasileiras" (http://hisbrasileiras.blogspot.com/), ante às alterações nas tradicionais cantigas, que embalaram a infância de diferentes gerações.
Atirei o pau no gato, de repente, se transformou em "Não atire o pau no gato". Segundo algumas organizações protetoras dos animais, a canção "incitaria a violência" contra os bichanos.
Mas o que mais revoltou Simas foi o propagado veto às letras originais de cantigas como o "Cravo Brigou com a Rosa", de Villa-Lobos. "Soube que as crianças não cantam mais. A explicação da professora do filho de um camarada foi ?comovente?, o cravo, homem, e a rosa, mulher, estimularia a violência entre casais", comenta.
Na "nova letra", detalha o estudioso, mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o cravo, ao invés de ferido, se torna "feliz". A rosa, de despedaçada, passa para "encantada". "Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha", ironiza. "Será que esses doidos sabem que O Cravo Brigou com a Rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro", indaga.
A nova versão para Samba Lelê, cujo original também é do maestro Villa Lobos, também deixa o professor inconformado. De "cabeça quebrada" a menina Lelê passou a estar com uma "febre malvada". "Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e ?Tia Nilda?, do Jardim Escola Feliz", satiriza.
Bom senso
Em entrevista, por telefone, ao Jornal da Cidade, Simas atenta para a necessidade de limites também nas doses de "politicamente correto" em diversos setores da sociedade atual, que, segundo ele, ao invés de assimilar e transmitir valores, ceifa a criatividade sob a escusa do tato ou pudor, mesmo que em demasia. "O mundo está ficando mais chato", lamenta. "É evidente que existem certos limites, principalmente na educação", reconhece. "Mas acontece que inventam problemas aonde não existem", acredita.
Segundo ele, a preocupação com o politicamente correto, principalmente no que à organização entre os movimentos representam as minorias, é salutar. Contudo, até mesmo causas legítimas, de acordo com o historiador, podem colher um efeito contrário, caso adote-se uma postura, define Simas, policialesca sobre obras artísticas e até mesmo no cotidiano. "É preciso estar alerta, sim, para os abusos, mas não pode virar algo policialesco", diferencia. "Agora, se a gente entrar nessa de xerife versus bandido, existe o risco das lutas de minorias perderem até mesmo a legitimidade, correndo o risco de cair no ridículo", defende.
Ainda sobre a vigilância e alteração nas cantigas de escola, ele considera extremo, de fato, alguns educadores acharem que o fato de alguém atirar o pau no gato incita a violência. "Acreditar nisso é que é extremo. Em nenhum momento a criança pensa desta forma. As vezes, alterar a música e falar para a criança pode até ?levantar uma lebre que não existe. Quem maltrata animais não é por causa de música, é porque é doente mesmo, alguém com distúrbios", argumenta ele citando também excesso de polidez e um certo maniqueísmo até mesmo no futebol. "Ou o jogador é Atleta de Cristo ou então bandido. Essa dos torcedores do Fluminense com o Fred (o atacante foi ameaçado num restaurante por estar bebendo, mesmo fora do horário de treino ou concentração) é um exemplo", ilustra.
Deixa o gato em paz
Doutora em psicologia educacional pela Unesp/Bauru, Marisa Meira o maior problema na atual "moda" do politicamente correto é a sociedade sustentar algo que ela, de fato, não agrega.
"O conceito é falso. É colocado como exigência num sistema que não é politicamente correto", define. "Ao mesmo tempo em que participa de uma sociedade desigual, o indivíduo é chamado a se comportar eticamente", acentua.
Sobre o excesso de dedos na educação infantil, a doutora crava: não adianta querer proteger os pequenos de eventuais sofrimentos, seja tapando seus olhos ou ouvidos, se o meio em que vivem já lhes proporcionam carga suficiente de dissabores. "Querem evitar que as crianças passem por estresse, mas elas vivem isso diariamente", observa.
"Não adianta criar uma bolha em volta delas, dizendo que o "gato não apanhou". O mundo não é esse", define a estudiosa, que defende a educação das crianças para a compreensão crítica do que ouvem e vêem ao seu redor e não, simplesmente, a modificação de cantigas de roda.
O politicamente correto, acentua ela, está de mão-dadas aos conceitos de que é de responsabilidade única do cidadão zelar também pelo planeta e de que todos os problemas de ordem ambiental, exemplifica, estão nas costas dos indivíduos de uma sociedade.
"Ações individuais são incentivadas o tempo todo, querem que as pessoas resolvam questões que são de âmbito coletivo. As empresas poluem, mas querem que os indivíduos mudem. É uma visão maniqueísta, egoísta e ideológica", acentua.