Neide Carlos |
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O incêndio que atingiu três empresas no Distrito Industrial 2 em Bauru na manhã deste domingo não havia cessado ontem. O foco principal continua na empresa de materiais recicláveis Reciclar, localizada na quadra 2 da rua Maurita Vaz Malmonge, e está sob rescaldo dos profissionais do Corpo de Bombeiros. Desolados com as perdas, os proprietários ainda calculam os prejuízos causados pelo fogo, que atingiu uma área de 20 mil metros quadrados.
A hipótese do incêndio ter sido criminoso está quase descartada. De acordo com o 1º sargento Valdeci Américo Pereira, que estava no comando do trabalho dos bombeiros na manhã de ontem, o fogo começou em um matagal localizado no final da rua. “A maior probabilidade é de que o fogo tenha vindo do mato mesmo”, disse.
Os focos de incêndio foram se alastrando com os fortes ventos do domingo. A baixa umidade relativa do ar, comum para o inverno, também foi crucial para que o fogo se propagasse. Quem passava pelo local ontem ainda inalava fumaça.
A primeira empresa atingida fica em frente à distribuidora Nacional Gás. Por sorte, esta não foi comprometida e não sofreu nenhum dano. Como os materiais recicláveis ainda queimavam na tarde de ontem na Reciclar, a Nacional Gás não realizou transporte de botijões. Pequenas fagulhas dispersas no ar poderiam causar um incêndio de maior proporção e explosões.
Perdas
A Reciclar ocupa uma área de aproximadamente 14 mil metros quadrados. Dentro de um barracão de tamanho não especificado, 1,5 mil toneladas de material reciclável, principalmente plástico e papel, foram queimados.
“Nós ainda não calculamos o prejuízo porque ainda tem material para ser retirado do barracão. Um engenheiro fará uma avaliação do prédio amanhã (hoje). Não temos seguro. É muito triste porque é o trabalho de sete anos da empresa. Trabalho de uma vida”, lamentou Gilson Guilhermo Molica Rojo, proprietário da Reciclar.
Com os papéis e pedaços do telhado do barracão da Reciclar em chamas levados pelo vento, logo a empresa Ecirtec começou a ser atingida também pelo fogo. Os proprietários do estabelecimento tomaram conhecimento do fato porque o alarme de segurança começou a soar.
“Quando o alarme tocou, a empresa de segurança nos ligou para saber se queríamos ir até o local. Mas como isso quase sempre acontece e não é nada, resolvemos mandar uma viatura desta mesma empresa para que visse o que era. Aí ficamos sabendo que era incêndio”, contou Rodrigo de Oliveira Manzano, um dos proprietários da Ecirtec.
A empresa, que está em uma área de 4,2 mil metros quadrados, trabalha com produção de equipamentos industriais e, para isso, utiliza maquinário de alto valor. As máquinas não foram queimadas porque os proprietários chegaram a tempo.
“Nós chegamos e começamos a retirar algumas máquinas. Quando vimos que o telhado de zinco começou a ficar vermelho, começamos a jogar água com a nossa mangueira de incêndio para resfriar. A água do nosso reservatório acabou bem rápido. Se tivessem hidrantes aqui, com certeza o fogo não teria tomado a proporção que tomou”, opinou.
O madeiramento do telhado ficou escuro, e o ar condicionado próximo ao muro em que pegou fogo derreteu parcialmente. Por conta da água que foi jogada no telhado, as máquinas podem estar danificadas ou totalmente perdidas. “Esse tipo de dano ainda não calculamos. Nós temos seguro e vamos acionar a seguradora”.
‘Perdi o trabalho de uma vida’
A última empresa a ser atingida pelo incêndio no Distrito Industrial 2 foi a Diversiplast, que trabalha com moldes e plásticos injetados. Os dois barracões dispostos em uma área de 2 mil metros quadrados foram atingidos e o proprietário Mário Rubens Gomes calcula prejuízo de aproximadamente R$ 500 mil.
“Demorei 15 anos para sair do Núcleo Otávio Rasi e montar minha empresa aqui. Agora acontece isso. Eu estou pensando pelo lado bom, que era domingo e não tinha ninguém trabalhando na empresa. Então, não temos ninguém ferido”, frisou Mário.
Ele questionou a falta de hidrantes e infraestrutura no Distrito Industrial 2. Sua empresa fica entre dois terrenos onde a mata não pode ser desmatada, de acordo com a Lei do Cerrado. No entanto, Mário supõe que se o terreno estivesse devidamente limpo e aceirado, o incêndio não teria tomado sua propriedade.
“Eu procurei a Cetesb e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) e não pude mexer na área para fazer aceiro por se tratar de área de preservação de acordo com a Lei do Cerrado. Eu até entendo, mas o mato está muito alto, muito próximo à minha propriedade e foi o fogo do mato que atingiu a minha fábrica”, criticou.
O secretário municipal do Meio Ambiente, Valcirlei Silva, explica que é a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) que autoriza ou não os aceiros em áreas de preservação ambiental.
“De qualquer forma, o licenciamento para retirada de árvores é a Cetesb que faz. Não somos nós que licenciamos a retirada de árvores neste caso, e realmente as leis protegem essa vegetação. Se a Cetesb deu a negativa, acredito que tenha sido com base na legislação”, esclareceu Valcirlei.
Bombeiros se revezam no local
O trabalho do Corpo de Bombeiros é incessante no local do incêndio. Desde que o fogo começou na manhã de domingo, os profissionais não abandonaram a principal área afetada que ainda apresenta focos, a empresa Reciclar.
Segundo o 1º sargento Valdeci Américo Pereira, que estava no comando do trabalho dos policiais na manhã de ontem, as equipes de quatro a cinco policiais são trocadas a cada oito horas dividindo os períodos da manhã, tarde e noite.
Na tarde de ontem as viaturas de água estavam sendo poupadas porque, segundo Valdeci, o fogo só cessará quando os materiais recicláveis forem totalmente retirados do local. “Nós estamos utilizando líquido gerador de espuma para tentar tirar um pouco da fumaça e tentando evitar desperdiçar água até que esse material seja todo retirado”.
Investimento em segurança
Não há um critério que define como as empresas devem ser posicionadas nos Distritos Industriais, apesar dos diversos graus de periculosidade por conta de acidentes, incêndios, explosões e contaminação.
Para o coordenador da Defesa Civil em Bauru, Álvaro de Brito, o mais importante nesses casos é que a empresa invista em segurança. “O que importa é isso, investir em segurança. Ter extintores, hidrantes, seguro. Assim, com certeza, o incêndio pode ter menor proporção.”
Os seguros para empresas são calculados de acordo com a cidade, o maquinário utilizado, o grau de periculosidade do material e o seu valor. Por ser muito mais caro do que outros, o seguro para empresas de recicláveis não é tão aderido pelos empresários do ramo.
Faltam hidrantes nos 3 distritos
A falta de hidrantes nos três Distritos Industriais de Bauru trouxe de volta um problema já abordado pelo JC em matérias de setembro do ano passado. A escassez deste equipamento fez o vereador Gilberto dos Santos (PSDB), o Giba, assinar projeto de lei que obriga novos postos de combustíveis, edificações com mais de mil metros quadrados de área construída - exceto casas onde mora apenas uma família - e imóveis que abriguem material combustível ou explosivo em grande quantidade a fornecer um hidrante ao Corpo de Bombeiros.
O projeto também cria obrigações ao Departamento de Água e Esgoto (DAE), como a de instalar hidrantes a cada novo ramo na rede de distribuição de água. A proposta foi elaborada em parceria com os membros da Rede Integrada de Emergência (Rinem) e empresários da cidade.
De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, tanto a Prefeitura Municipal quanto o Corpo de Bombeiros podem solicitar a instalação de novos hidrantes. “Mas tem que ter galerias adequadas e também pressão na água, porque sem isso não adianta ter hidrante. Nos Estados Unidos há hidrantes quase em toda esquina”, diz.
O diretor da regional de Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Domingos Malandrino, pontua que além da falta de hidrantes, os Distritos Industriais não possuem todas as ruas asfaltadas. “Há uma falta de infraestrutura, não há esgoto, asfalto, o que não é diferente nos outros. Se eu não me engano, apenas o Distrito 1 possui um hidrante. Isso nós já questionamos”.
Áreas cedidas
O diretor da regional Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Domingos Malandrino, esclarece que as áreas onde as empresas e indústrias foram instaladas nos três Distritos Industriais foram cedidas pela prefeitura.
“Essas áreas foram concedidas a partir de 2003, e para obtê-las, as empresas precisavam fazer a solicitação. Em seguida é feita uma análise econômica desta empresa para saber qual é a necessidade dela. Depois passa pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico, pelo setor jurídico da Seplan e o projeto de lei é ou não aprovado pelo Legislativo”.
