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Os números da diversidade

João Winck
| Tempo de leitura: 4 min

O nobre professor dr. Zarcillo Barbosa, colaborador deste jornal e meu colega no Departamento de Comunicação na Unesp por vários anos, sabe que a universidade inteira não foi capaz de realizar um evento tão grandioso quanto esse que eu e os meus meninos fizemos. Ele está com a razão quando critica o conceito das marchas democráticas, menos uma: a diversidade não se constitui numa utopia, mas o seu contrário. É uma tenebrosa destopia!

Jamais seremos iguais, senão na palavra da lei e da ordem dos homens. Note-se que as mulheres e os demais seres vivos estão fora desta afirmação. Ao contrário, a criação divina é pautada na biodiversidade, como também na diversidade cultural, sexual, racial e tudo mais que sabemos. Nada é igual a nada, seja vivo, livro ou sonho. Mínimas diferenças compõem a multiplicidade de formas daqui e do além. A igualdade é utopia da revolução burguesa, que acabou dividindo e classificando tudo, conforme os seus critérios, para governar com mais eficiência "científica". A diversidade é a destopia de Deus, negada pelos seus filhos todo-poderosos, criaturas errantes no paraíso a reordenar a obra do seu criador como se ela fosse um laboratório de experiências aleatórias: um verdadeiro Deus nos acuda! Para confirmar isto, basta respirar o ar, beber das águas poluídas, sofrer da violência e do desamor entre as famílias, entre patrões e empregados e os demais.

Sabemos, faz tempo, que a matemática serve mais para dividir do que para somar. As estatísticas são capciosas ao contar que ele comeu dos frangos e eu nenhum. Em teoria cada um de nós, estatisticamente, comeu um. Contudo, experimentei na prática, todos se esquecem, mais do que fome. Passei preconceito, desigualdade, intolerância e violência daquele que se fartou com a minha míngua.

As estatísticas das marchas e os números de participantes sugerem a mesma lógica, segundo Zarcillo. Servem para dividir os seres humanos e seus modos de vida em milhares de grupelhos que, somados, seriam iguais à maioria da população e mais dois: eu e você! Descobrir se os organizadores colocaram 15, 30 ou 50 mil pessoas na Parada da Diversidade de Bauru não significa nada. Apenas mais um desafio de superação de números, cada dia mais assustadores para sua organização. Quanto a mim e você que estivemos lá, agora é um momento de festa, serena e cansada, pois vencemos mais uma vez. E fizemos da Parada da Diversidade de Bauru o orgulho de ser a maior manifestação do gênero de toda a sua história. Tornamos a marcha, estatisticamente, o segundo maior movimento do estado de São Paulo. Os números do impacto social, econômico e político na cidade são gigantes. Tanto que a comissão organizadora ainda não teve coragem para contá-los. Sabemos, por cima, que metade é turista. Cada um gasta em torno de R$ 150,00, estatisticamente. Pelo menos 20 mil deixaram aqui algo em torno de três milhões de reais em apenas um dia. Mas tudo isso é estatística. Ficara aqui o calor humano, a visibilidade de gente excluída e mais uma pequena vitória contra o preconceito, cuja palavra de ordem é: somos, estamos, acostumem-se!

Entretanto, esses números são insignificantes se comparado ao que nós sentimos. Além disso, sabemos que se reuníssemos apenas os LGBT cristãos, judeus, muçulmanos e outros fiéis excomungados de suas crenças, faríamos uma marcha mais numerosa que a nossa própria. Se somados, pais, familiares e amigos dos enjeitados, triplicariam os números, estatisticamente falando.

Ficar em casa certamente é mais fácil. Ocultar-se atrás das teorias, da legislação e da fé é muitíssimo confortável, próximo da salvação do avestruz que, escondendo apenas a cabeça, crê estar totalmente protegido. O difícil é ser e agir o que se é, às últimas conseqüências, sem nenhum vacilo ou perdão.

Mas de todas as estatísticas da Parada, a mais altruísta foram os milhares de elogios que eu recebi acerca da atuação da Polícia Militar. Elegantes, bonitões, alinhados e gentis como lordes ingleses. Quiçá todos os dias fossem assim. Outra estatística positiva foi sobre a cobertura da imprensa, colocando imagens e textos fortíssimos, só para que os leitores se acostumem com a realidade.

Contudo, tivemos a reclamação da ausência da maioria dos políticos locais. Ano que vem ? véspera das eleições ? com certeza todos estarão lá, distribuindo "santinhos" com suas caras de pau estampadas em frente à bandeira do arco-íris, aumentando os números da diversidade. Quando se trata de dar visibilidade às "minorias", a tendência é que as máscaras não resistam por muito tempo e falhem todas as estatísticas.


O autor, João Winck, é professor-doutor e presidente do Conselho de Atenção à Diversidade Sexual - CADS/Bauru

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