É benéfica para o País a vinda de profissionais estrangeiros para trabalhar no Brasil e, nesse momento, a oferta crescente é de pessoal qualificado, formado em boas escolas, o que só pode ajudar a desenvolver nossa economia. Há quem receie essa importação de mão-de-obra estrangeira, demandada no setor industrial, pelo setor de serviços, mas é um engano: existe um desarranjo entre a qualidade da oferta da mão de obra e novas exigências de qualidade da demanda. Com isso se tem um "stress", que tende a pressionar os salários acima do que seria normal e acaba produzindo alguma inflação, mas não é o mais relevante. A questão central é que a falta de mão de obra qualificada atinge os índices de produtividade da economia. Com o crescimento brasileiro, hoje, é importante manter portas abertas para a "importação" de engenheiros, matemáticos, físicos, em síntese, de profissionais que estão desempregados na Europa e nos Estados Unidos, muitos deles em razão do prolongamento da crise financeira mundial. São trabalhadores que poderão ajudar a melhorar a estrutura da oferta de mão de obra no país.
É tempo, sem dúvida, de oferecer estímulos para ampliar a participação de mão de obra bem formada no exterior em nosso processo de crescimento. No fundo, é uma importação de cérebros, uma colheita dos investimentos que outros países fizeram. Da mesma forma que nós investimos na formação de engenheiros, físicos, médicos e quando as oportunidades se oferecem eles vão trabalhar no Canadá, por exemplo, é a sociedade canadense que está se apropriando de um pedaço do investimento que a sociedade brasileira fez para a formação desses profissionais.
Estou convencido que agora é o momento de nós nos beneficiarmos, acolhendo essa mão de obra preparada que está disponível para trabalhar nos setores da indústria química, no setor mecânico, da construção civil e, inclusive, sem esquecer a academia. Há uma oportunidade nas áreas acadêmicas, nas escolas, para físicos, matemáticos, químicos, enfim, uma janela aberta para o Brasil aproveitar um capital humano que foi preparado em outros países. Na realidade, é um presente que nos está sendo oferecido e que poderá ajudar muito o nosso desenvolvimento. Não devemos, por isso, criar nenhuma restrição à importação desses investimentos. Penso que devemos estimular tal importação, pois estaremos nos apropriando dos investimentos feitos em cérebros, por outros países.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento