Cultura

Melancolia amadurecida


| Tempo de leitura: 5 min

"Talvez se eu exorcizasse os meus os meus demônios, meus anjos me deixariam também". A frase é do jazzista americano Tom Waits, tirada de "Please Call Me, Baby", canção do seu segundo álbum "The Heart of Saturday Night", de 1974. Mas a citação vem de outra voz, também marcante, mas menos rouca do que a do criador. Vem de Helio Flanders, de 26 anos, vocalista e principal compositor do Vanguart. "Eu gosto muito dele. Nunca gostei de artistas que aliviam a vida que viviam". De fato, não se pode falar que os cuiabanos aliviem em algo. Pelo contrário, o novo disco, "Boa Parte de Mim Vai Embora", o primeiro pelo selo Vigilante, da Deck Disc, e segundo de inéditas, expõe todas as suas mágoas, dúvidas, dores. É de desconcertar, tirar o ouvinte da zona de conforto afetivo.

Como o nome diz, o trabalho serviu para limpar os corações de Flanders e de Reginaldo Lincoln, de 25 anos, baixista e segundo compositor do grupo. Ambos passaram, no ano passado, por "separações dolorosas", nas palavras do próprio vocalista. Uma parte dos dois, uma parcela de seus sofrimentos e angústias, vai embora com o lançamento do álbum.

A frase de Waits dita por Flanders expõe o medo de perder o prazer de viver. A vida não é só feita de alegrias e hoje, mais do que nunca, o grupo sabe disso. Quando chegaram em São Paulo, em 2006, trouxeram na bagagem o ótimo primeiro álbum, "Vanguart", com seis canções em inglês, seis em português e uma em espanhol. Os cinco integrantes estavam deixando a adolescência. Já havia ali uma melancolia.

O Vanguart não era uma banda feliz, alegre e saltitante. Nunca foi. Mas as canções tratavam de temas distantes da realidade daqueles garotos. Estabelecidos aqui em São Paulo, Flanders e Lincoln tiveram seus casamentos desfeitos. Experiências que fizeram com que os dois amadurecessem depressa. E refletissem isso em sua obra. "Tenho um pouco de medo de parecer que somos uma banda ?corta pulso?. Mas fomos totalmente sinceros com o que estávamos sentindo", diz Flanders.

Lincoln assina cinco canções com o vocalista e uma, "Onde Você Parou", sozinho. "A minha vida nunca foi muito feliz, muito alegre, e não tenho motivo para esconder isso. Passamos por poucas e boas nesse último ano", diz Lincoln. "Os momentos de tristeza chegam para engrandecer."

Ao vivo, no estúdio

Entre os dois discos de estúdio, a banda gravou o "Vanguart Multishow Registro Ao Vivo", em 2009. O resultado não agradou totalmente. "Gravamos com um metrônomo. Achei meio sem graça", diz Flanders. Em "Boa Parte de Mim Vai Embora", por sua vez, optaram por gravar ao vivo no mesmo estúdio em que fizeram o primeiro álbum, o Estúdio Inca. Voltaram mais maduros, agora homens formados.

Gravaram todas as 13 músicas em três dias, com dois takes, no máximo, para cada faixa. O resultado final ainda ganhou contornos rebuscados com a adição de delicadas linhas de violino de Fernanda Kostchak. "Conhecemos a Fernanda em fevereiro do ano passado e a chamamos para gravar um dia. Arranjamos duas músicas. Ela deu o raio de sol que faltava para o disco", define Flanders. "Ela chegou no meio do processo do álbum, e abraçou a gente de uma maneira incrível. E ela não dormiu com ninguém (risos)", brinca o vocalista, que agora está de coração limpo, livre e descarregado. Pronto para um novo romance. "O próximo disco não será assim. Estou em um momento mais ensolarado".

____________________

Grupo de Cuiabá se expõe mais no segundo disco

No primeiro disco dos cuiabanos, "Vanguart", de 2007, já era possível perceber que eles não eram uma banda ensolarada. Até mesmo o hit "Semáforo", que destoa do resto do trabalho deles, não é feliz ("Todos meus amigos querem morrer", diz o último verso). Ainda assim, era algo mais impessoal. Desta vez, não.

O Vanguart se expõe mais em "Boa Parte de Mim Vai Embora". "Existem algumas frases do disco que me incomodaram muito. Algumas eu tirei, outras eu deixei", diz Flanders. Outras tantas frases incomodam o ouvinte que, mesmo sem saber de todo o histórico amoroso do compositor - e isso nem é necessário -, é tomado por um sentimento que não lhe pertencia. Recebe, da voz de Flanders, toda a agonia de uma separação, de rompimentos, de corações partidos. Flanders, Reginaldo Lincoln (baixo e voz), David Dafré (guitarra), Douglas Godoy (bateria) e Luiz Lazzaroto (teclado) são melhores compositores e músicos do que quando estrearam. Neste trabalho, não usaram as artimanhas de estúdio tão recorrentes para maquiar algumas deficiências. Deram a cara a tapa nos versos e nos acordes. A exposição maior também chega às letras, todas em português - apenas alguns versos de "Mi Vida Eres Tu" são em espanhol.

Helio Flanders é um compositor que foge do óbvio. Busca, em suas letras, um lirismo que pode ser até surrealista. É um vocal ora nervoso, ora melancólico. A boa surpresa é a maior presença de Reginaldo Lincoln como compositor e cantor. Se no primeiro álbum ele cantou apenas "Beloved", sua presença é mais marcante aqui.

É um compositor mais pop do que Flanders. Os dois fazem um ótimo dueto em "Nessa Cidade", que ainda tem a presença do trompete do vocalista. "Onde Você Parou" é uma balada pop e triste - como quase todo o disco - só na voz de Lincoln. Você pode não gostar do excelente disco do Vanguart agora. Mas guarde-o em algum lugar e saiba que, um dia, você pode precisar dele. E Flanders e Lincoln estarão cantando exatamente sobre o que você sente. (Pedro Antunes)

Serviço

"Boa Parte de Mim Vai Embora"
Vanguart Vigilante
Preço: R$ 21,90

Comentários

Comentários