Ciências

Coceiras e alergias: papo de caverna!


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O sol vai e o homem procura descansar longe do vento, animais e inimigos. Na caverna, relaxa no chão revestido por folhas e encosta sua cabeça na pedra. Lá fora, insetos rodeiam a entrada, alguns adentram silenciosamente e andam sobre os membros expostos do homem que dorme.

Os insetos podem ser grandes, mas muitos são minúsculos, quase que invisíveis e até transparentes. Alguns animais são tão pequenos e circulam entre os insetos que os carregam em suas patas, asas, antenas, ferrões e até mesmo no interior de sua boca e saliva, na intimidade de seus intestinos e fezes ou até no calor de seu sangue. Estes pequeninos animais são chamados de parasitas ou vermes e se dão muito bem com os insetos!

Ao caminhar na pele do homem que dorme, o inseto aproveita para sugar um pouco de seu sangue, ou faz uma picadura apenas para sua própria defesa pois o braço se mexeu repentinamente. Ao picar seus ferrões deixam químicos, toxinas, venenos no interior dos tecidos.

Os parasitas também querem entrar na pele, boca, orelha, nariz ou nos intestinos humanos, mas para isto tem que atravessar o revestimento da superfície. Os parasitas vão a procura de alimentos, alojamentos e locais para proliferarem no corpo humano: faz parte de sua natureza.

Quando alguma coisa estranha e protéica, como os microrganismos, insetos e venenos, adentra no organismo ele tem pronto ou fabrica um conjunto de proteínas chamadas de anticorpos ou imunoglobulinas (Ig) para reagir com o diferente, inibindo e preparando-o para ser fagocitado e eliminado pelas células. Isto acontece todos os dias, o tempo todo em nossa vida: é normal!

Para cada proteína estranha que entra, se fabrica um anticorpo específico. Os anticorpos são armas químicas e podemos dizer que temos 5 modelos diferentes identificados por letras: a IgA, IgD, IgE, IgG e IgM. Os anticorpos estão armazenados e circulam no sangue e outros líquidos, mas apenas um deles, a IgE, devem ir para os tecidos como a pele e mucosas, incluído-se pulmões. A IgE é feita especialmente para parasitas e substâncias de insetos.

Na parte interna da pele e mucosas, cada milímetro cúbico de tecido conjuntivo tem 10 mil mastócitos, uma célula rica em grânulos ou "bexiguinhas" carregadas de mediadores químicos como a histamina e fatores quimiotáticos ou chamadores de eosinófilos, uma das células do sangue.


Mastócitos e fogos de artifício

O anticorpo IgE sai do sangue para a superfície dos mastócitos nos tecidos. Quando um parasita ou substância entra na pele e mucosas é impossível não encontrarem a IgE específica nestas numerosas células. O parasita ou veneno ao reagir com duas IgE explodem os grânulos dos mastócitos derramando seu conteúdo como fogos de artifícios: um réveillon microscópico com muita histamina e chamadores de eosinófilos.

A histamina provoca nos nervos uma sensação intensa de prurido no homem que dormia em nossa história que vai coçar para tirar do local o inseto ou parasita: uma defesa. E o que entrou de parasita ou veneno? Os eosinófilos atraídos do sangue para o local vão inibi-los ou fagocitá-los: outro mecanismo de defesa! A histamina também ajuda os eosinófilos chegarem pois dilatam os vasos sanguíneos e forma o edema ou inchaço. Quando se tem muitos eosinófilos e IgE no sangue pode ser parasitose ou verminose, pois estas células e anticorpo foi feito para combatê-los. Ou então se é alérgico; mas como?

Em algumas pessoas perde-se o controle deste mecanismo e a IgE passa a ser produzida contra pólen, fezes de ácaro, perfumes, alimentos, tintas e outras coisas que não estavam programadas neste mundo quimicamente industrializado. Quando entram no corpo estes produtos reagem com as IgE nos mastócitos e induzem o mesmo fenômeno que originalmente foi feito para combater os parasitas! Nem tudo é perfeito. Esse erro pode ser hereditário ou adquirido e se chama anafilaxia, a mais conhecida das alergias!

Sorrateiramente, bem devagar, com pequeníssimas e crescentes doses de um destes produtos sendo aplicados na pessoa, pode se enganar o sistema que vai produzindo outro tipo de anticorpo contra e que não seja IgE e que não vá para os tecidos, ficando só no sangue. Depois de meses, quando este produto entra. não terá tempo de reagir com a IgE, o outro tipo de anticorpo reage antes, e fica-se sem alergia: isto se chama dessensibilização.

Coceiras, parasitas, mastócitos, histamina, eosinófilos e alergia: eis um papo das cavernas!

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