“Minha vida não tem rumo. São 24 horas na pedra”. É assim que M.F.A., 40 anos, resume os efeitos devastadores causados pelo uso contínuo de drogas, principalmente crack. Refém da alucinação proporcionada pelas substâncias tóxicas desde os 15 anos, o ex-operador de máquinas que iniciou o caminho da dependência pelo álcool, hoje é apenas uma das muitas vítimas do crack, considerada uma das drogas mais prejudiciais ao ser humano.
Tentando reverter essa situação e criar expectativas a esses dependentes, Polícia Militar (PM) e Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) realizaram na madrugada de ontem a segunda edição da operação batizada de “Revitalizar”.
Por volta das 4h da madrugada de ontem, 20 policiais militares e cerca de 50 funcionários da Sebes (assistentes sociais e psicólogos) abordaram 35 dependentes químicos que vagavam principalmente debaixo do viaduto João Simonetti (13 de Maio), e que corresponde à área conhecida como “cracolândia bauruense”. O espaço compreende ainda a avenida Nações Unidas e ponte JK, prolongada até o viaduto inacabado, abaixo da rua Presidente Kennedy até a linha férrea.
A parceria, que tem como missão tirar o máximo de usuários das ruas, contou ainda com o apoio do Conselho Tutelar e da Defesa Civil.
Titular da Sebes, Darlene Têndolo esclarece que o objetivo da iniciativa é levar acolhimento ao grupo marginalizado. “Essa é uma ação muito bem planejada e de caráter pacificador, pois não obrigamos ninguém a nos receber. Nossa intenção é identificar as pessoas e fazer o trabalho com as famílias. Nesse sentido, trabalhamos com a política de enfrentamento ao crack, uma droga devastadora e que queremos que tenha seus efeitos amenizados em nossa cidade”.
Ação
Assim como na primeira ação, em 13 de maio deste ano, antes do contato dos usuários com os profissionais da Sebes foi realizada uma abordagem pela PM. “Trabalhamos com um efetivo de 20 policiais em uma abordagem de prevenção para ver se existem entorpecentes no local, armas, produtos de furto ou foragidos da Justiça”, comentou o tenente Ângelo. Apenas alguns cachimbos utilizados para o consumo de crack foram encontrados.
A ação também ofereceu café da manhã aos dependentes, com direito a lanche, leite e chá. “A gente nem come direito. Aliás, não come nada. Vivemos alimentados pelo crack. Aí não dá vontade de comer. Não temos fome”, conta M.F.A. entre uma mordida e outra no lanche oferecido.
Após a averiguação da PM, entra em cena o trabalho dos assistentes sociais e psicólogos da Sebes. “Queremos identificar a história e a família de cada um deles. Ver como vieram parar aqui, o que faziam antes, se estudavam, se trabalhavam e, claro, em qual tipo de dependência estão”, explica Darlene Têndolo.
Diagnosticados os problemas, os usuários foram encaminhados para centros de referência social, onde serão conduzidos a projetos sociais específicos de acordo com a necessidade de cada um.
“Não forçamos nada, apenas fazemos o convite e apresentamos uma alternativa. Mas acontece que ninguém quer parecer um zumbi. Essas pessoas estão gritando por socorro e nós queremos minimizar esse desespero”, afirma a secretária.
Segundo a titular, a ação da Sebes não se resume às investidas diretas como a de ontem, se tratando de um trabalho contínuo. “Com os dados recolhidos vamos trabalhar com as famílias dos dependentes, saber se há possibilidade de reencontro e reinserção social. É um trabalho a ser realizado continuadamente, pois uma coisa é certa, o vício não se resolve do dia para a noite”, diz.
Dentre os 35 usuários, apenas um menor de idade foi identificado. Ele deve ser encaminhado ao Conselho Tutelar de Bauru. Nenhum tipo de drogas ou armas foram encontradas, e nem foragidos identificados.
“Meu sonho era ser goleiro do Palmeiras”
A triste realidade dos dependentes químicos revela histórias que se confundem com a de jovens comuns, mas que em determinados momentos tomaram rumos bem diferentes.
Aos 21 anos, L.G., conhecido nas ruas como “Alemão”, perdeu mais do que bons momentos da juventude. Junto com a dependência de crack foram embora também a família, os amigos e, principalmente, os sonhos.
“Eu queria ser jogador de futebol”. Assim como milhares de garotos brasileiros, Alemão sonhava um dia vestir a camisa do seu time de coração, o Palmeiras. “Sou fã do Marcos (goleiro do time). Essa era minha posição. Todo mundo falava que eu jogava bem”, conta.
Da mesma forma que a maioria, ele não conseguiu chegar lá. O problema é que no meio do caminho perdeu muito mais do que a chance de engrenar uma carreira no disputado mundo do futebol.
Há seis meses na “cracolândia de Bauru”, Alemão conta que estudou até o terceiro colegial, tinha emprego garantido, mas não resistiu à dependência. “Eu me separei da mulher com quem morava, fui morar com minha mãe e acabei ‘limpando’ toda a casa dela para comprar droga”.
Só nesse ano foram quatro prisões. “Tudo por causa de furto. Roubei casa e carro para comprar droga”. Uma das passagens pelas celas tirou de Alemão mais um privilégio: “Minha filha nasceu no dia 23 de dezembro e eu não pude ver porque estava preso. E agora não tenho condições”, lamenta.
E se a história de Alemão se confunde antes das drogas com a de jovens comuns, o mesmo pode-se dizer da sobrevivência em relação aos outros dependentes. “Comecei fumando maconha na escola com os amigos, escondido dentro do banheiro. Hoje estou no crack e faço de tudo pra usar. Você não vê a hora de acabar a pedra. Agora, se tem solução? Vai saber né. Só Deus sabe (sic.)”.
Alemão foi um dos abordados pela operação da Sebes que se prontificou a receber ajuda. Ele deve ser encaminhado ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e, posteriormente, a uma das entidades que auxiliam no tratamento de dependentes químicos, como o Esquadrão da Vida.
Ser jogador de futebol já não faz mais parte dos sonhos de Alemão. Mas é com o mesmo tom de esperança de um garoto que ele revela sua nova meta: “Hoje o meu sonho é reconstruir minha família. Só isso”.
‘Como é que um cego pode guiar outro?’
Dos 35 usuários abordados na ação, apenas um deles era menor de idade. J.L.V., de 17 anos, revelou ser morador de Pirajuí (55 quilômetros de Bauru), mas que estava na cidade somente para visitar sua mãe. “Moro com minha avó. Não tenho irmãos, se tiver deve estar tudo preso (sic.)”, contou o jovem que afirmou estar nas ruas há poucas semanas e ser usuário apenas de maconha.
“Para de mentir garoto”, exclamou M.F.A., de 40 anos. Apesar da bronca no jovem usuário, o ex-operador de máquina injetora que se rendeu às drogas há mais de 30 anos faz questão de deixar claro a vergonha de não poder servir de exemplo ao jovem. “Como é que um cego vai guiar outro? Infelizmente não posso dar exemplo pra ele e nem pra ninguém. Não fui exemplo nem para meu filho que tem 18 anos”. Agarrado a um cobertor, o homem de 40 anos não poupa auto-críticas. “Tenho 40 anos, mas aparento uns 50, pode falar, eu sei”.
A aparência, inclusive, fez o homem irreconhecível para o próprio filho. “Não via meu filho há uns quatro meses e o vi na Parada da Diversidade. Sei que eu o vi, mas ele não me reconheceu”.
Assim como no caso de Alemão (leia acima), M.F.A. também aceitou ajuda da Sebes. “Fiquei oito anos sem usar nada, sem colocar nada na boca. Mas um dia um cara enrolou um mesclado (maconha com cocaína) tão cheiroso na minha frente que não resisti. Aí começou tudo outra vez. E era assim, o que tinha ‘na reta’ eu usava. E hoje? Bem, hoje é um pouco pior. A gente (usuários) não dorme, capota por dois ou três dias. Tem hora que o organismo não aguenta. Essa droga acaba com tudo, até com o desejo por mulher”.
Sem trabalho e sem amparo de familiares ou amigos, o jeito foi buscar dinheiro para satisfazer a dependência. “Carpo alguns terrenos e antes de pegar o dinheiro ele já está gasto nas dívidas que tenho. Pra você ter uma ideia, uma pedra de crack custa em média R$ 5,00 ou R$ 10,00, e eu gasto no mínimo de R$ 40 a R$ 50 por dia. E se não tiver dinheiro? Bom, aí os pequenos furtos fazem parte (sic)”.