Política

A presença de Jânio Quadros em Bauru

Nilson Costa - especial para o Jornal da Cidade
| Tempo de leitura: 6 min

Meio século transcorrido da surpreendente renúncia do presidente Janio Quadros, percebemos que alguns depoimentos vêm a público para tentar explicar e talvez justificar o gesto de um político que marcou carreira empunhando a vassoura com que se dispunha a varrer a corrupção reinante na República e especialmente no Estado de São Paulo, tendo como alvo o governador Adhemar de Barros. Agosto tem sido marcado pela ocorrência da degola de líderes nacionais expressivos. Recordemos o suicídio de Getulio Vargas há 57 anos, fator determinante da precipitação do golpe de 1964. Jânio Quadros viria a preencher o vazio deixado pelo desaparecimento de Vargas. Ninguém poderia imaginar que a consagração sucessiva de Jânio nas urnas paulista e federal seria destruída pouco depois, no rastro de sua tentativa de conquistar poderes que considerava necessários para se desincumbir das esperanças e responsabilidades emanadas das urnas do pleito presidencial.

Um artigo de lavra do economista Jânio Quadros Neto, inserido recentemente na Folha de S. Paulo, adiciona alguns esclarecimentos quanto ao episódio de 25 de agosto de 1961, mas não o elucida. Jânio Neto lembra que, no trigésimo aniversário da renúncia, em 25 de agosto de 1991, ao visitar o avô no hospital Albert Einstein, onde estava internado (morreria seis meses depois), criou coragem e perguntou-lhe sobre os motivos do gesto extremado. A resposta: "Aqueles que os deuses querem destruir, eles primeiro os fazem presidentes do Brasil. Quando assumi a Presidência, não sabia a verdadeira situação político-financeira do País. A renúncia era para ter sido uma articulação, nunca imaginei que ela seria de fato executada. Imaginei que voltaria ou permaneceria fortalecido. Foi o maior fracasso da história republicana do Brasil, o maior erro que cometi. Esperava um levantamento popular e que os militares e a elite não permitissem a posse do Jango, que era politicamente inaceitável para os setores mais influentes da Nação na época. Ser presidente é a suprema ironia, por ser um todo-poderoso e um escravo ao mesmo tempo".

Eu era muito jovem no período áureo das gestões de Jânio. Acabara de me eleger vereador no primeiro mandato, fora recebido pelo governador no Palácio do Governo juntamente com Nadyr de Campos, companheiro de bancada e tivéramos o atendimento de algumas solicitações em favor da cidade, inclusive a instalação do posto de saúde da Vila Cárdia. Minha representatividade política era modesta. Não fazia parte do grupo de apoio ao então prefeito Nicola Avallone Jr., que dominava a cidade e dava as cartas com respaldo do seu jornal, o Diário de Bauru. Mesmo assim, Jânio deu-me força e atenção. Era um desafio aos detentores do poder municipal.

Nas eleições para a Prefeitura, em que enfrentei as poderosas facções de ademaristas (com Nuno de Assis) e nicolistas (com o então vice-prefeito Luiz Zuiani), Jânio não titubeou em mandar mensagem de apoio ao meu nome, conclamando "os ferroviários, os trabalhadores em geral, estudantes e as forças vivas" a sufragarem meu nome nas urnas. Embora perdendo para Nuno de Assis, obtive votação consagradora.

O ex-presidente tinha a virtude de lealdade aos amigos em quaisquer circunstâncias. Não levava em conta as chances de ganhar ou perder. Acima de tudo colocava o dever de lealdade, de valorização dos companheiros. Foi o que o levou a apoiar a candidatura de Sebastião Aleixo da Silva, ou "tio Aleixo" em outra eleição local, em 1963, contra os poderosos Nicolinha e Brisolla, mesmo sabendo das escassas possibilidades do fazendeiro lançado pela UDN. Em comício local a que compareceu, o ex-governador, já ciente das tênues possibilidades eleitorais do seu candidato, declarou francamente: "prefiro perder com o Sebastião a vencer com outro que não reúna suas condições de honradez e humildade".

A foto que ilustra essas informações, tirada na então na residência da família de Sebastião Aleixo, na rua Antonio Alves, esquina da avenida Rodrigues Alves, registra uma visita de Jânio em apoio a seus companheiros locais. Ali estão, entre outros, o deputado Luiz Francisco de Carvalho, o vereador Sérvio Túlio Coube, o vice-prefeito dr. Alfeu Vasconcelos Sampaio, o vereador João Pereira Martins, o vereador Carlos Guimarães, o jornalista Antonio Bueno dos Santos ? o dr. Broncolino ?, o vereador Marco Aurélio Brisolla, Macedo Regiani e Gedeão Tognozzi. Tive o privilégio de posar ao lado de Jânio.

O renunciante morou em Bauru aos 11 anos de idade, quando seus pais Gabriel Nogueira Quadros e Leonor Silva Quadros residiam na rua Araújo Leite quadra 5. Um episódio marcou o então governador. Para demonstrar sua hostilidade ao Instituto Penal Agrícola ? experiência tentada para a recuperação dos detentos em final do cumprimento de suas penas ? o prefeito Avallone Jr. Promoveu a queima simbólica daquelas instalações em ato público. Jânio nunca perdoou o ex-prefeito pela atitude hostil. O troco seria dado em diversas oportunidades.

Quando da carta-renúncia, que não seria para valer, os adversários do presidente tido como "louco varrido" por atitudes não convencionais tais como a proibição das brigas de galos e do biquíni, a condecoração de Ernesto Che Guevara, o apoio à revolução cubana, o reatamento de relações diplomáticas com a União Soviética etc, aproveitaram a oportunidade para eliminar ameaça a seus privilégios. Não chegou a durar um ano a tentativa, via Jânio, de mudar as estruturas políticas do País. Daí para o golpe militar de 1964 foi um passo. E as conseqüências foram sentidas ao longo de duas décadas de supressão das liberdades básicas, para desespero da população e, principalmente, de Carlos Lacerda, Juscelino, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães e tantos outros do alto escalão político brasileiro.

Depois de 24 anos, em condições novamente de participar do processo eleitoral brasileiro, Jânio Quadros viria a concorrer à Prefeitura de São Paulo enfrentando Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy, entre outros. No dia do pleito, 15 de novembro de 1985, o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, publicou a seguinte manchete de primeira página: "Muda o quadro em São Paulo e Fernando Henrique deve vencer".

Na época o regime militar havia proibido a divulgação de resultados de pesquisas eleitorais no período anterior ao pleito. Todavia, a imprensa encontrara um meio de informar a opinião pública, disfarçando os números de suas pesquisas. E como se fosse uma corrida de cavalos, O Globo noticiou: "em São Paulo, Fernando Henrique Cardoso (PMDB) distanciou-se sete corpos de vantagem em relação a Jânio Quadros (PTB-PFL), o qual por sua vez tem dez corpos de vantagem sobre Eduardo Suplicy na relação 36-29-19." A "corrida de cavalos" seria desmentida em seu prognóstico pelo resultado das urnas da capital paulista. Jânio venceu as eleições, para surpresa geral, registrando-se sua reabilitação cívica perante o eleitorado paulista.

Pelo que fez pelo Brasil e pelo que representou na história político-administrativa de São Paulo e especialmente de Bauru, Jânio Quadros não merecia ter sido repudiado por nossa Câmara Municipal que, numa sessão noturna, sem qualquer consulta à opinião pública, suprimiu seu nome da avenida de acesso à zona leste da cidade. Afinal, praticou-se a descortesia para com alguém que desfrutou de nossa hospitalidade e constituiu-se no único presidente da República a ter residência aqui.

O clima reinante no Brasil, hoje, em meio a tantas denúncias de corrupção, faz lembrar a época que deu ensejo ao aparecimento do "vassoureiro" Jânio Quadros. Haveria condições para a repetição do fenômeno estrelado por ele?

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