João Rosan |
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A tatuagem de pimenta vermelha exposta no antebraço denuncia a paixão pelos sabores e revela a profissão da culinarista Marisa Gonçalves, que vem conquistando cada vez mais espaço em Bauru à frente do Buffet Olívia.
Há uma década inovando no setor, a banqueteira é também conhecida por seu trabalho com cardápios temáticos e personalizados. “Estamos voltados para festas com a cara dos clientes. Eles chegam já imaginando o que querem e colocamos em prática”, ressalta.
O dom para a arte de preparar alimentos aflorou ainda na infância, quando Marisa ajudava sua mãe no preparo de pratos para reuniões familiares. “Acredito que o meu gosto pelo trabalho com a comida é algo que veio da família. O cheiro de caramelo é uma das coisas que mais remetem à minha infância”.
Mas antes de se dedicar à boa mesa, a gourmet foi professora de educação física em escolas públicas, onde também trabalhou com o resgate de brincadeiras antigas. Contudo, recorda que não queria ser uma professora que iria ficar sonhando em ter uma escola ideal e não ver isso acontecer. “As crianças queriam aprender e, muitas vezes, não tínhamos o material necessário. Hoje parece que as coisas estão bem melhores. A saúde e a atividade física estão em evidência”.
Casada e mãe de dois filhos, a entrevistada de hoje também fala, a seguir, sobre projetos na área pessoal e profissional.
Jornal da Cidade - Gosta de temperos fortes? Pergunto isso pela tatuagem em seu antebraço.
Marisa Gonçalves - Essa pimenta vermelha revela meu trabalho e minha paixão. Ela marca essa fase da minha vida de banqueteira, de cozinheira e mostra a paixão que eu tenho pela comida. A pimenta tem uma representação legal do que eu faço. Sempre que eu estou trabalhando, eu gosto dos temperos. Eles me fascinam. É com os temperos que você chega onde quer. Eles dão o charme para a comida sair bacana, marcam o aroma...
JC - E de onde veio sua paixão pelos alimentos?
Marisa - Comecei a mexer com comida ainda bem pequena. Foi bem bacana. Lembro-me que eu já pegava o livro da minha mãe, que hoje está comigo, e ficava folheando e olhando as receitas e fazendo algumas delas. Foi um livro que meu pai deu de presente para ela que sempre cozinhou muito bem. Aliás, acho que o gosto pela culinária veio da minha família. Minha casa sempre esteve muito cheia de gente para almoços e festas. Então acho que me vi muito nesse meio desde criança. Mas fiz faculdade de educação física.
JC - Chegou a trabalhar na área?
Marisa - Sim. Fui professora de educação física para crianças durante um bom tempo em escolas públicas. Trabalhei com recreação no resgate de brincadeiras antigas como roda, por exemplo, algo que eu gostava muito.
JC - Por que desistiu da carreira na educação?
Marisa - Eu fui me desencantando pela educação, pelo descaso que ela recebe do Estado e do município. Eu não queria ser uma professora que iria ficar sonhando em ter uma escola ideal e não ver isso acontecer. As crianças queriam aprender, tinham vontade e o material não chegava. Você tem de trabalhar com bola, corda... Aí você abre os armários e não encontra bolas, redes, cordas... Fui me decepcionando. Em algumas escolas eu consegui fazer gincanas e arrecadar dinheiro com os pais para os materiais, mas no próximo ano vinha outra escola e começava tudo outra vez. E o mais triste é que as crianças gostam muito da e educação física. Hoje parece que as coisas estão bem melhores. A saúde e a atividade física estão mais em evidência.
JC - Você deixou de dar aulas para se dedicar à culinária?
Marisa - Não. Na verdade eu tinha vontade de montar um café. Eu sabia fazer bolo e outras coisas, mas não se monta um negócio do dia para a noite. Foi quando eu fui para São Paulo fazer alguns cursos com o Álvaro Rodrigues, um dos meus primeiros professores. Ele também foi uma das primeiras pessoas que me mostrou a culinária de um jeito diferente. Eu comecei fazendo bolos para aniversário, casamento, trufas, pão de mel... Pegava encomendas enquanto fazia os cursos.
JC - Então começou com os doces...
Marisa - (Risos) Os doces sempre me seduziram e ainda seduzem. E eu fui me envolvendo com a culinária até que me vi envolvida e fazendo jantares. Foi tudo muito rápido. Fiz muitos cursos com os principais culinaristas do País, principalmente em São Paulo. Comecei a participar do “Boa Mesa”, um evento anual de gastronomia que reúne os melhores chefes do mundo para aulas sobre os mais diversos sabores da mesa, entre outras atividades. Hoje, não me preocupo apenas com o cozinhar, mas também com a tecnologia que envolve a cozinha e os utensílios. Atualmente a cozinha tem essa evolução. Não fiz uma faculdade, mas não consigo contar quantos cursos fiz durante esses 10 anos na cozinha.
JC - Como é o seu trabalho hoje?
Marisa - O trabalho está muito legal e é exatamente por isso que montamos um blog para contar tudo isso. Tenho um buffet e uma cozinha muito legal onde preparo os eventos. Estamos muitos voltados para festas com a cara dos clientes. Eles chegam já imaginando o que querem e colocamos em prática. É o fazer personalizado. Estou com um casal de noivos, por exemplo, que não querem jantar, querem uma festa onde as pessoas possam chegar, ficar à vontade, comer em pé e interagir uns com os outros. Pensaram em algo mais jovem e descontraído.
JC - Você prefere cozinhar doces ou salgados?
Marisa - Hoje estou cozinhando muita comida salgada, mas tenho uma paixão pelos doces.
JC - O doce é o sabor que também mais agrada o seu paladar?
Marisa - Não. Para comer eu gosto do salgado. Gosto muito de carne. Eu acho que o doce remete ao carinho para as pessoas. Quando alguém come doce ela fica bem, automaticamente. Já o salgado é algo para alimentar, saciar a fome.
JC - Qual é o aroma que remete à sua infância?
Marisa - Acho que o cheiro de caramelo é uma das coisas mais gostosas e lembra muito minha infância. Lembro-me das balas, dos pudins dos domingos feitos com minha mãe.
JC - O que trouxe sua família a Bauru?
Marisa - Meu pai estava cansado de São Paulo e veio trabalhar em Bauru com impressor no auge das gráficas. Estou na cidade desde os 7 anos de idade.
JC - Quais são os seus próximos projetos?
Marisa - Uma das coisas que eu mais quero é deixar o Buffet Olívia com uma cara mais profissional, expandi-lo. Acho que o próximo passo é investir em um salão próprio e em novos equipamentos, além de aumentar a equipe. Minha equipe é ótima, temos uma harmonia muito boa, e isso é fundamental para a cozinha, já que tudo é passado para o alimento. A relação com os clientes é outra coisa fundamental e mostrar coisas diferentes, que surpreendam, é essencial. Se pudesse eu faria um livro contando as histórias engraçadas que vivo em meu trabalho.
JC - E qual seria o título?
Marisa - (Risos) Não sei. Mas não faltam histórias. Uma vez um amigo de coração me ligou e disse que estava morrendo de vontade de comer uma torta de frango que faço. Fiz a torta em casa, ainda nem tinha minha cozinha montada, coloquei no carro e, antes de entregar, passei no colégio para pegar meu filho. Ele abriu a porta, jogou a mochila no banco e entrou. Quando cheguei onde meu amigo estava e abri a porta do carro, a mochila estava em cima da torta que estava toda espalhada no automóvel. Já aconteceu de esquecer uma encomenda para a ceia de Natal e precisei reunir a família para me ajudar a fazer a encomenda e entregar a tempo. São coisas que acontecem e que depois a gente para e acha engraçado. Outras não são engraçadas, como a vez em que uma cliente em fase terminal de câncer disse para a filha que seu último desejo era comer um bolo meu.
JC - Um sonho.
Marisa - Olha, uma coisa que eu já pensei é montar uma escola em parceria com o poder público e entidades assistenciais para moços e moças aprendizes. Vi esse projeto em São Paulo e achei muito bacana. Seria um centro educacional onde eu passaria o aprendizado da cozinha com ênfase no mercado de trabalho em restaurantes.
JC - Você acredita que Bauru tem bons sabores?
Marisa - Bauru melhorou bem nesse sentido. Houve um tempo em que não tínhamos nada. Você ia para São Paulo e via coisas nascendo e aqui, nada. É claro que não podemos comparar, mas eu vivia me perguntando porque não podíamos ter isso ou aquilo. E hoje a cidade está muito bacana, gastronomicamente, principalmente com o curso da USC. Temos público e profissionais para isso.
JC - Você também tem suas criações, imagino.
Marisa - A gente acaba criando bastante coisa e é muito bacana porque tudo acontece na correria do trabalho. A mistura de ingredientes, a criatividade, tudo vai se misturando e se transformando em sabores bacanas e pratos legais. Hoje estou muito feliz em fazer o que faço. Acordo e durmo pensando em comida. Se não estou fazendo ou pensando, estou folheando uma revista ou vendo um programa de culinária. Não sou comilona, gosto mais de bebidas, de degustar os sabores de vinhos e cervejas. A minha paixão mesmo é fazer a comida e ver o prazer das pessoas comendo.
Perfil
Nome: Marisa Gonçalves
Idade: 44 anos
Local de Nascimento: São Paulo
Signo: Capricórnio
Marido: Edward
Filhos: Ian e Nara
Hobby: Correr
Filme preferido: “Festa de Babet”
Estilo musical predileto: Música suave
Para quem dá nota 10: Para meus clientes que confiam no meu trabalho
Para quem dá nota 0: Falsidade
