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A árvore da vida

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"Deus manda moscas às feridas que deveria curar". Esse Deus cruel põe à prova os seus viventes mais leais. Nada se compara à dor de uma mãe obrigada a enterrar o filho. "O revés de um parto". O quarto arrumado, o violão, são lembranças doridas do filho que já morreu. No filme A Árvore da Vida (Palma de Ouro em Cannes), o diretor Terrence Malick inspira-se em Jó para mostrar como Deus (ou seria Satanás sob sua permissão?) rouba a dignidade do seu mais leal servidor, tira-lhe os bens materiais, a saúde, os filhos. Como Deus permite que milhares morram em prédios atacados por terroristas? A paciência e a humildade ? a "paciência de Jó" ? são os segredos para atravessar as desolações da vida. Fé em que haverá o amanhecer de uma nova vida, em algum tempo e lugar. Deus nos concede o privilégio de conversar, de frente. Mas, há momentos em que vira as costas, como a nos ensinar que somos simples seres humanos, não robôs com programas de felicidade instalados.

O filme A Árvore da Vida (exibido em Bauru em horário único para boêmios) coloca tantas questões diante de nós, que seria impossível discutirmos todas. Sobressai a perda da inocência ? representada pelo encontro de uma camisola feminina por Jack, um menino que até então não sentira as pulsões tão comuns a garotos de sua faixa etária. A descoberta do sexo nunca havia sido expressa de maneira tão sutil, poética e ao mesmo tempo sensual e perturbadora no cinema. Essa dicotomia entre o sagrado e o profano nos é colocada logo no começo do filme, quando a mãe (Jessica Chastain) de Jack (Sean Penn) diz que devemos escolher entre duas maneiras de viver a vida: a da graça ou a da natureza. Vivemos hoje no reino do pensamento binário. Ou somos criacionistas ou evolucionistas. Nós nos apegamos a essa separação radical entre duas maneiras de viver. A natureza já foi, outrora, fonte de muita graça e mística. Os povos antigos não viam, por exemplo, o Sol como simplesmente uma estrela de um sistema cósmico, mas tinham nele a representação de um Deus. Foi o homem moderno, com sua ciência, que conseguiu desmistificar e fazer perder o significado sagrado da natureza. São emblemáticas as cenas de Seann Penn no prédio high-tech do Citicorp, em Nova York. A mensagem que fica é que uma vida sem tormentas, seja em que época for, depende da nossa capacidade de viver enxergando graça e magia, nas situações mais comuns da natureza e do ser humano. Dentro do infindável espectro de emoções, sentimentos e relações que atravessaram milênios na Terra, a dor rege o nosso próprio mundo. O dinossauro prende sua presa indefesa, e a solta por complacência.

Para conviver com a idéia da finitude o homem precisa acreditar na complexidade de tudo que o rodeia no universo, ampliando sua capacidade de entendimento. Em sua parte central, o filme divaga por esplêndidas imagens de natureza, como uma erupção do Etna, as geleiras da Antártida, os oceanos e diversos animais, imagens de nebulosas captadas pelo telescópio Hubble ? que alguns descreveram ironicamente como "momento National Geographic". Se há um perigo com respeito a Árvore da Vida é ser interpretado como filme religioso. É muito mais filosofia embora tenha fundo espiritual, ou seja, anseia explorar além da matéria. Malick abre a sua caixa de ferramentas mais primárias da indústria cinematográfica ? talvez o seu grande pecado. Abusa da montagem, fotografia, trilha sonora e direção de arte. Salva o bom-gosto. Há momentos de beleza singular, quando o diretor utiliza a música de Smetana que descreve a vida como o rio que nasce nas montanhas, cascateia pelos vales até morrer no mar. Brahms (Sinfonia n. 4), Bach (Tocata e Fuga e Cravo Bem Temperado) são outros dos muitos compositores que enriquecem o filme. Robert Schumann aparece com a página em que o autor põe música num verso do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): "Estrelas, lua, sol, flor,/Dois olhos lindos e canções de amor,/Por mais que nos comovam lá no fundo,/Não mudam uma vírgula no mundo". Bem a propósito.

Deus e o pai autoritário (Brad Pitt) plantaram a árvore da vida no centro do Éden, onde se enlaçou a serpente. Ali o homem começou a questionar as suas ordens. Jó quis saber o porquê de estar passando por tantas desgraças. Afinal, ele era um homem justo! Pobre Jó, as fatalidades da vida independem de nossa integridade. "O diabo é dissimulado, Deus age às brutas", dizia o jagunço Riobaldo. A recompensa virá em dobro aos que não perderem a fé. Para os que não creem, fica a lição: a prática da felicidade é uma constante batalha interior, carregada de escolhas, perdas, dores, mudanças, fantasias, desejos, medos e sonhos baseados na realidade de cada um.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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