O homem seria poligâmico por natureza para esparramar espermatozoides pelo mundo e perpetuar sua descendência com muitos filhos espalhando genes. Mas a moral social e as religiões ajudam a refrear esta característica, pelo menos aparentemente!
O homem procura a imortalidade cuidando da saúde e fazendo filhos. Uma forma mais sofisticada de buscar a imortalidade explica porque homens escrevem livros, pesquisam ou constroem obras de arte na escultura, pintura e música. Quando os homens percebem que podem perpetuar-se através do trabalho e arte, reduzem o ímpeto de ter filhos! A taxa de natalidade diminui em países desenvolvidos.
Um homem deve ter filhos, escrever um livro e plantar uma árvore. São formas de aproximar-se da imortalidade: a árvore dá sombra, gera frutos para os filhos e papel para o livro, afinal, é bom garantir! Nesta frase a árvore representa a preservação do planeta, talvez, para os filhos viverem e lerem os livros em sombra e água fresca.
Nos primeiros lugares das melhores universidades sempre estão Harvard e o MIT, ambas localizadas em Boston e arredores. Nelas, no início do ano letivo, se distribuem aulas para os graduandos e cria-se um clima tenso e muitas farpas acontecem! Nas duas universidades têm mais ou menos 80 professores prêmios Nobel que brigam para dar aulas na graduação: sabem que representa uma das formas de suas teorias, pensamentos e visão de mundo se prolongarem e durarem mais tempo nas futuras gerações.
No Brasil, em quase todas as universidades, quando o professor chega ao título de livre-docente ou titular ocorre uma metamorfose e os semideuses não querem mais dar aulas aos meninos, apenas para os pós-graduandos. Acho que querem ser esquecidos o mais rapidamente possível, visto que os pós-graduandos são mais velhos, tem seus próprios interesses e, via de regra, tem pensamento mais difícil de ser mudado! Existem poucas e respeitosas exceções!
A ciência permite prolongar a vida e atenuar deficiências. Sem se ater às causas, algumas pessoas não podem ter filhos, mas querem ter a experiência de acompanhar o crescimento de um ser desde o nascimento. Todos os dias perdemos células que descamam de nossas superfícies. E quantas células são desperdiçadas em nossos sangramentos. Outras são jogadas aos milhares em nossas cuspidas e choros, na saliva e lágrima. E lá se vão, cada célula com 25 mil genes. É muita informação jogada fora.
Desperdício
Mas desperdício mesmo acontece com o esperma e suas células! Ou com a menstruação e óvulos perdidos! Com outras células do corpo dá para reconstruir órgãos e tecidos via células-tronco, mas com espermatozoides e óvulos doados se faz novos seres. O mundo todo se preocupa com os direitos das crianças geradas a partir da doação de esperma e óvulos.
No banco de esperma pode chegar um doador e relatar que descobriu ser portador de uma doença hereditária grave e que os descendentes deveriam ser avisados para tratar, prevenir e prolongar a vida! As dezenas de crianças geradas a partir deste esperma deveriam ser avisadas? E se elas não souberem que foram assim geradas! O mesmo pode acontecer com usuários de banco de óvulos.
Nos EUA, um doador tem 150 filhos biológicos e formam um grupo de pessoas muito parecidas. Grupos de meios-irmãos com mais de 50 filhos de um mesmo doador são cada vez mais frequentes. Mas há uma recomendação da Sociedade Americana de Biologia Reprodutiva de que no máximo um doador seja pai de "apenas" 25 crianças para cada 800 mil habitantes.
Lá, como na Inglaterra, a pessoa tem o direito de saber quem é o pai biológico. No Brasil a doação deve ser anônima de acordo com o Conselho Federal de Medicina, mas não há lei sobre o assunto. Incrível!
E se uma mulher for fecundada pelo esperma do irmão ou pai, doadores anônimos? A probabilidade existe e preocupa autoridades e instituições de vários países. E se o homem fecundar o óvulo da irmã ou da mãe que doou anonimamente? Teríamos um incesto involuntário com possíveis consequências para a criança! Quais seriam as suas reflexões sobre estes aspectos éticos, científicos e sociais relacionados a estas situações?
A imortalidade que o homem busca pode ser com suas obras intelectuais e artísticas e respondem a uma intencionalidade consciente. A imortalidade via espermatozoides e óvulos pode ser bondade, mas pode ser para atender um instinto natural de perpetuação de seus genes.
Você doaria seu esperma ou seus óvulos? Sim ou não? Reflitamos.
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br