Fala-se muito em faxina nas terras dos fandangos. Não a faxina comum onde o lixo é de fácil remoção, mas um tipo sórdido de limpeza, onde o lixo humano ocupa espaço deveras importante no interior das alvas taças sobrepostas sobre o mármore faiscante, lugar onde o coração da Pátria pulsa e faz ofegar a alma dos brasileiros. Trata-se de espécie incomum de faxina, onde ninguém quer fazer uso da vassoura, com medo de sujar as mãos, ou talvez pelo desprazer de tocar tão repugnante detrito. E a notícia de que o palácio continua sujo corre o mundo, através de revistas, jornais, panfletos, rádios, TV e internet, proporcionando esclarecimentos sobre a situação em tão suntuoso castelo.
Porém, algo apoquenta a nobreza: Qual a necessidade de informar o povo? Por que a populaça precisa estar ciente do que sucede no berço da soberania popular? Afinal ao povo resta aceitar a carga tributária para engordar o farnel da distribuição de verbas e receber a milagrosa oferenda da penúria! Então, por motivos de força maior a vassoura foi recostada atrás da porta e a faxina foi cancelada! E para que o disque-disque fosse abafado, imperativo que todos permanecessem calados. Doravante ninguém comenta nada sobre a necessidade da limpeza! O silêncio vale ouro! A sujeira restará sob o tapete, quietinha e bem comportada e o tempo fará com que tudo seja esquecido. E para conquistar o cidadão, novas bolsas e ínfimo aumento nos salários, embora parcelados, foram aprovados. Então a vassoura lá restou abandonada, o castelo permaneceu sujo e a caravana carregada de pitéus reiniciou a caminhada.
O povo, fácil de agradar, com pouca coisa silencia. Porém, como calar a voz da verdadeira rainha da democracia, aquela que arrazoa, registra, divulga e tece a herança cultural da nação? É notório que a imprensa falada e escrita perturba sobremaneira os partidários do pecado da omissão que optam pelo cancelamento da faxina. Logo, o método de rápida solução é aplicar o uso da mordaça, técnica muito antiga utilizada para coibir o direito de expressar pensamentos e opiniões que na modernidade substituída foi por repressão. Calar de maneira sutil e ardilosa a voz dos jornalistas, radialistas, escritores, ou seja, silenciar a voz dos arautos da nação é subtrair o direito de enunciar e divulgar os episódios dantescos que deambulam sobre o granito gélido da insensatez.
Enfim, é induzir o cidadão ao efêmero mundo da fantasia. O fato é que, onde a vassoura silente dormita, a mordaça se transforma em mísero pano de chão!
A autora, Valderez de Mello, é pedagoga, psico-pedagoga, advogada, escritora. Autora dos livros: Lágrimas Brasileiras, Flores sobre o Rochedo, A Velha Adormecida e Trama e Urdidura - em edição