A favela do Ferradura Mirim cresce enquanto aguarda do poder público uma solução para suas contradições sociais. Da mesma forma que se encontra com facilidade antenas receptoras de TV por assinatura espetadas nos telhados, imóveis com piscina e casas de alvenaria, há no mesmo núcleo habitações com moradores que consideram que nem existem. Dessa forma se expressou o pedreiro Elizandro Elizeche, 37 anos, morador do que se convenciona chamar de “favelinha”. “A gente nem existe”, afirma. A favela do Ferradura já engloba uma outra favela com imóveis e condições de habitação subumanas.
Elizandro, o irmão Agapto Gomes Rodrigues, também pedreiro, e companheiros ergueram um “sobrado” neste ponto. A favela está se verticalizando, ainda que de improviso, para atender as famílias. O térreo da moradia é de alvenaria e o andar superior é de madeira. Elizandro comenta que a estrutura ainda está sendo reforçada, porque um dia amigos se juntaram aos irmãos e deram uma força na construção. São dois cômodos, um sobre o outro, e muita criatividade para o uso do espaço mínimo entre barracos. O andar superior ganhou uma varanda cercada com tela de segurança para as crianças. A mais nova é Giovana, de 2 anos, as gêmeas Larissa e Lariani têm 4 anos. Letícia é a mais velha das meninas com 7 anos e Jobson é o único menino e o mais velho dos filhos, com 9 anos. A mãe é Josefa Amaro da Silva, 39 anos, esposa de Agapto. Ele comenta que a renda da família não supera os R$ 600,00 por mês. Agapto observa que desta quantia também sai algum dinheiro para ajudar na criação de filhos que residem em São Paulo.
Ele explica que a moradia improvisada é carente de infra-estrutura básica. O esgoto é uma fossa que a família construiu. O fornecimento de água também é um problema porque falta em grande parte do dia exigindo que a família mantenha galões plásticos sempre cheios. Olhando para a fiação de um poste improvisado, Agapto explica que é permanente o risco de danificar algum eletroeletrônico. “Isso aqui é um gato e dos grandes. Se vier um temporal, fica complicado”, define.
Ele é surpreendido com a informação de que existe um trabalho para regularizar as habitações. “Não estou sabendo. Tem que procurar a prefeitura?”, pede informações o morador ao JC.
Como o terreno é minúsculo, Elizandro mostra um muro sendo levantado na divisa com outro imóvel para separar do terreno do vizinho. Agapto comenta que cria galinhas e patos e, para diversificar a criação, já encomendou a vinda de filhotes de peru. Em um canto da frente da casa, a família produz tomate, almeirão e alface em uma horta. No fundo do terreno também há outro canteiro.
Os irmãos pedreiros comemoram porque conseguiram trabalho em uma construção próximo ao Cemitério do Jardim Redentor. Com 7 anos de idade, Letícia apresenta problemas de fala. Josefa explica que a menina já passou por avaliação na Sorri e, agora, precisa que as gêmeas Larissa e Lariani também sejam avaliadas. Ela comenta que residente em Bauru há sete anos. Elizandro completa citando que a família é do estado de Alagoas.
Com novas construções erguidas constantemente, o acesso à moradia da família dos irmãos Agapto e Elizandro virou um mero corredor, que se estreita ainda mais onde só passa um carrinho de bebê conduzido por Rafaela Aparecido, 21 anos, com a pequena Taíse, de um ano e seis meses de idade, seguida pela pequena Tainá que aparece por detrás de Rafaela.
Próximo dali, reside a catarinense Zenilda Gonçalves, 59 anos, que se mudou para Bauru há 16 anos vindo de Curitiba, cidade onde cresceu. Ela conta que, inicialmente, residiu no Jardim Nicéia e depois mudou-se para o Ferradura, onde reside com o esposo Arthur Francisco de Castilho, 62 anos, e o filho Jackson Faria. Ela comemora que o filho se casou e está finalizando uma casa em um terreno adquirido próximo à favela. Conforme a moradora, o casal vive da coleta de materiais recicláveis pelo bairro. Ela e o marido estão substituindo as paredes de madeira por tijolos. Zenilda comenta que só compra o cimento e os tijolos são recolhidos de material de construção descartado. “Até cal a gente já conseguiu assim”, cita.
Como há dependência do encontro de material, o ritmo da obra segue lento e avança com a oportunidade de localização de tijolos em bom estado. Ontem pela manhã, seo Arthur chegou com a carriola cheia de recicláveis que garantem o sustenta do casal. Zenilda diz que já sabe da promessa de regularização de seu imóvel localizado de frente para o campinho na rua 13.
Vice-prefeita conversa com moradores do Ferradura Mirim
Consciente de que as favelas de Bauru seguem uma tendência de crescimento, a vice-prefeita Estela Almagro, responsável pelo desenvolvimento das ações do “Programa Minha Casa, Minha Vida” (PMCMV) em Bauru, visitou na manhã de ontem a Favela do Ferradura, acompanhada pela arquiteta Maria Helena Rigitano, da Secretaria de Planejamento (Seplan), para a inclusão na segunda etapa do “Minha Casa” de 60 famílias, residentes nas piores condições na Ferradura.
A Seplan atua para a regularização das terras onde foi erguida a Favela do Ferradura. Almagro avalia, preliminarmente, que há como integrar as 60 famílias em situação de moradia mais vunerável. Ela projeta a construção de até 100 residências aproveitando o terreno em que estão as moradias atuais e conseguindo uma outra área.
Como a situação das 60 famílias é considerada de risco, elas entrariam diretamente no “Minha Casa”, sem passar pelo funil do sorteio de imóveis. Estela explica que a favela pode ser enquadrada em demanda dirigida. Neste caso, 50% dos imóveis do Programa podem ser destinados para favelas e áreas de risco. A vice-prefeita explica que, na primeira fase, foi utilizado apenas 10% devido ao problema de dificuldade de áreas, mesma situação em que se encontra o Ferradura.
Quanto a projetar entrega de imóveis, Almagro adota a cautela porque há vários problemas a serem superados. “Eu tenho que ter um terreno em condição de entrega para a Caixa. Seja particular ou público, tem que estar em condições legais.”
O passo a passo não é nada simples, porque há uma disputa fundiária do terreno e que se arrasta há anos onde estão os imóveis do loteamento Ferradura. Superada a regularização do terreno, é preciso assentar as famílias que já estão ocupando e dar suporte técnico para imóveis que ainda podem ser aproveitados. A infraestrutura de água, esgoto e energia elétrica também precisa ser dimensionada. Enquanto isso, a favela não para de crescer de forma desordenada.
Loteamento
As famílias da favela do Ferradura já estão cadastradas pelo Cras. A moradia é financiada pela Caixa, com a família tendo uma renda mensal máxima de R$ 1.600,00 e comprometendo 10% de sua renda. A prestação mensal ficará no máximo em R$ 160,00, financiada durante 10 anos. Estela Almagro acrescenta que 80% do imóvel é subsidiado. A casa tem valor estimado de R$ 58 mil, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, medindo cerca de 42 metros quadrados, com laje e aquecedor solar.
A situação fundiária do que se convenciona como favela do Ferradura passa por uma longa disputa de posse. Parte dela, incluindo as moradias das 60 famílias, foi construída exatamente na área de maior conflito e onde várias pessoas reivindicam a propriedade do terreno. Os registros da Seplan mostram que esta área é o loteamento Ferradura e que perfaz, aproximadamente, 162 mil metros quadrados.