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Greve atrasa 160 mil cartas e encomendas

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Em apenas dois dias de greve dos funcionários por reajuste salarial, os Correios em Bauru já atrasaram a entrega de aproximadamente 160 mil cartas e encomendas. São objetos que deveriam ser distribuídos dentro da cidade ou partirem do município para outras localidades, mas que continuam represadas em um dos três centros de distribuição da empresa.

Juntas, conforme apurou o JC, estas unidades são responsáveis por receber, triar e distribuir cerca de 90 mil cartas e encomendas ao dia. Como a adesão à greve alcançou índice de 90% entre funcionários do setor operacional, conforme levantamento do sindicato da categoria, a estimativa é de a mesma porcentagem sobre um total de 180 mil objetos não tenha sido encaminhada nos dois primeiros dias de paralisação.

No setor operacional, em Bauru, trabalham cerca de 400 profissionais - entre carteiros, agentes de triagem e motoristas ? indispensáveis para dar destino aos objetos. Destes, 90% teriam aderido ao movimento, mas a assessoria de imprensa dos Correios afirma que este número não passa de 14%.

Mesmo assim, a autarquia decidiu suspender os serviços Sedex e Disque-Coleta, que contam com prazo exíguo para serem efetuados. "E as demais encomendas e cartas, incluindo contas, boletos e faturas, estão sendo entregues aos poucos, com 10% da capacidade", revela o presidente do Sindicato dos Empregados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e Similares de Bauru e Região (Sindecteb), José Aparecido Gimenes Gandara.

"Por isso, a recomendação é para que a população evite fazer postagens, porque as chances de chegar com atraso são grandes", completa. De acordo com ele, a área mais afetada da cidade é a região central, para onde se destina o maior volume de cartas e encomendas. Os Correios, por sua vez, não informam o volume oficial de entregas não efetuadas e considera apenas a "possibilidade" de atrasos devido à greve.

A autarquia também não informou se pretende contratar pessoal terceirizado para cumprir as tarefas que deixaram de ser executadas, mas o JC apurou que esta medida ainda não foi tomada em Bauru. Conforme a assessoria de imprensa da autarquia, até o momento estão sendo providenciadas apenas a realocação de empregados e realização de horas-extras para minimizar os prejuízos à população.


"Corda estourada"


A estratégia, de acordo com os grevistas, não foi uma surpresa, já que os funcionários viriam sendo pressionados a cumprir jornadas extras, inclusive aos sábados e domingos, desde 2009, quando um plano de demissão voluntária (PDV) foi posto em prática, acentuando o déficit de trabalhadores. "Antes do PDV, a gente trabalhava com a corda esticada. Depois dele, a corda estourou. Começaram os atrasos nas entregas, funcionários fazendo horas-extras diariamente, trabalhando aos sábados e domingos. E, desde então, estamos sem nenhum reajuste de salário", critica o vice-presidente do Sindecteb, Luiz Alberto Bataiola, que calcula um déficit aproximado de 60 funcionários somente em Bauru.

Operador de triagem há 25 anos, Demerval Assis da Silva destaca que os Correios anunciaram lucro de R$ 500 milhões no semestre passado, o que torna injustificável a negativa da empresa em negociar o reajuste salarial ou mesmo a demora na contratação dos trabalhadores aprovados em concurso público realizado em maio deste ano. "Nós continuamos sobrecarregados. Ao que parece, a intenção dos Correios é sucatear completamente a empresa para depois privatizar", suspeita. Segundo a assessoria de imprensa dos Correios, até o momento 2 mil dos 10 mil candidatos aprovados foram chamados ao trabalho.

Silva reclama ainda da insalubridade a que estão submetidos os funcionários do Centro de Tratamento de Cartas e Encomendas (CTCE), localizado no Distrito Industrial 1. "No verão, o calor é insuportável, porque o sistema de ventilação é precário. E o local também é mal iluminado. Para quem trabalha à noite, como eu, é péssimo", observa.

Um carteiro que atua há 15 anos nos Correios, e preferiu não se identificar, reconhece, entretanto, que os funcionários recebem bons benefícios. Mas reclama dos baixos salários, que servirão de referência para o cálculo de sua futura aposentadoria. "Ganho R$ 1,4 mil. Quando tiver de me aposentar, simplesmente não tenho ideia de como vou conseguir me manter", argumenta.

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Funcionários entram hoje no 3º dia de paralisação


Sem receber nenhuma nova proposta dos Correios, os funcionários paralisados há dois dias decidiram continuar de braços cruzados em Bauru, após assembleia realizada na sede do sindicato da categoria, ontem à noite. A decisão acompanha o movimento que os trabalhadores promovem em 23 Estados do País.

Após dois anos sem receber reajustes, os profissionais reivindicam aumento de 24%, referentes a perdas salariais desde 1994, além de reajuste linear (para todos os cargos) de R$ 200,00. Atualmente, o piso da categoria é de R$ 800,00 para jornada de oito horas.

Antes de a greve começar, os Correios propuseram aumento de 6,87%, mais R$ 50,00 de reajuste linear a partir de janeiro de 2012. Com o início da paralisação, o presidente da autarquia, Wagner Pinheiro de Oliveira, informou que as negociações sobre o acordo coletivo só seriam retomadas quando os trabalhadores retornarem às atividades. Salientou ainda que os dias parados serão descontados da folha de pagamento.

"A empresa está apostando no esvaziamento do movimento. Mas não vamos voltar ao trabalho enquanto não recebermos uma nova proposta. A greve é a única arma que o trabalhador tem para reivindicar melhores condições no trabalho", frisa Luiz Alberto Bataiola, vice-presidente do Sindicato dos Empregados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e Similares de Bauru e Região (Sindecteb).

A entidade informa que hoje, ao meio-dia, a categoria se reúne novamente em frente ao prédio da Diretoria Regional São Paulo Interior dos Correios, localizada na Praça Dom Pedro II, em Bauru. Após realização de assembleia, os funcionários farão manifestação no local.

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