A teoria das janelas quebradas é fruto da imaginação dos criminologistas James Q. Wilson e George Kelling. Os dois argumentaram que o crime é o resultado inevitável da desordem. Se uma janela está quebrada e não é consertada, quem passa por ali conclui que ninguém se importa com aquilo e que não há ninguém no controle. Em breve, outras janelas aparecerão quebradas, lixeiras serão incendiadas, lixo espalhado pelo chão, as flores dos vasos e canteiros não serão mais regadas. A anarquia se espalhará do prédio para a rua, enviando a mensagem de que vale tudo. Problemas relativamente insignificantes, como pichação, desordem em locais públicos, urinar nos cantos dos muros e mendicância agressiva, são o equivalente das janelas quebradas. O convite para crimes mais graves.
Na década de 1980, a cidade de Nova York vivia uma epidemia de crime, a cidade atingiu uma média anual superior a 2 mil as-sassinatos e 600 mil crimes graves. Nos espaços subterrâneos, no metrô as condições eram caóticas. As plataformas eram mal iluminadas, as paredes eram escuras, úmidas e pichadas. Nesse tempo, os 6 mil vagões da Transit Authority eram pichados de cima a baixo, por dentro e por fora. O calote na roleta era tão comum que estava dando à transit Authority um prejuízo de U$$ 150 milhões por ano. O-corriam cerca de 15 mil delitos anuais graves no sistema metroviário.
Em meados da década de 80, Kelling foi contratado pela New York Transit authority como con-sultor e insistiu que colocassem em prática a teoria das janelas quebradas. Um projeto de bilhões de dólares foi elaborado para reconstrução do sistema metroviário. Muitos defenso-res do metrô disseram na época para que ele não se preocupasse com as pichações, que se concentrasse nas questões mais importantes relacionadas com o crime e a confiabilida-de desse meio de transporte. Mas Kelling insistiu "As pichações são o símbolo do colapso do sistema". Era preciso vencer a batalha contra as pichações.
Na década de 1990, William Bratton foi contratado pela Transit Authority para chefiar a polícia de trânsito. Bratton era um seguidor da teoria das janelas quebradas. Ele resolveu acabar com a viagens de graça, daquele momento em diante ninguém mais pularia as catracas burlando o sistema. Quem tentasse pular as roletas seria preso pelos policiais à paisana nas roletas. A equipe pegava os caloteiros um a um, algemava-os e deixava-os de pé na plataforma. A ideia era mostrar, da forma mais pública possível, que a polícia de trânsito estava falando sério e ia agir com rigor no caso dos espertinhos que tentavam viajar de graça.
Precisamos colocar em prática a teoria das janelas quebradas na gestão do calçadão comercial da cidade de Bauru. Observo com preocupação as condições em que ele se en-contra nesses últimos tempos. As pedras do calçamento estão encardidas, há muito tempo não são lavadas. Quando aparece um burraco a solução simplista é colocar um dos vasos de flores dentro do burraco para que ninguém caia e se fira. Eu mesmo tenho fotos no meu celular de um desses vasos que está há mais de uma semana na quadra 3 do calçadão. No último Dia dos Pais, em que se estendeu o horário comercial do calçadão, a iluminação era uma penumbra.
Devemos perguntar a nós mesmos qual a importância do calçadão para a cidade de Bauru e região? Assim como a cidade de Nova York fez com relação ao seu sistema metroviário. Hoje o metrô de Nova York, graças à aplicação da teoria das janelas quebradas, tornou-se um exemplo de boa administração pública. Vamos fazer o mesmo com o nosso calçadão, vamos recuperar a importância que ele tem para Bauru e região. Devemos consertar, recuperar as janelas quebradas enquanto são apenas janelas. Do contrário isso irá crescer como um fermento. Criar barba. Como diz o ditado, será o caminho para decadência. Eu tenho a certeza de que a população de Bauru e região não quer isso. Queremos sim a tão prometida revitalização do nosso centro comercial, que até agora ficou somente no papel e em belos desenhos nas páginas de nossos jornais.
O autor, Vitalino Luz Jr., é colaborador de Opinião