Bairros

Em busca do elo perdido

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 4 min

Colocar os pés no Instituto Lauro de Souza Lima é sentir o cheiro de história por todos os lados. Milhares delas. Uma a uma, desenhadas de acordo com a vida e as lembranças que cada indivíduo que ali viveu, ou ainda vive, trouxe de seu cotidiano e de sua família, seja pelo convívio ou apenas pelos laços sanguíneos, já que muitas crianças foram separadas para sempre de seus pais instantes após o nascimento.

No passado, estima-se que cerca de 40 mil crianças brasileiras foram separadas dos pais no nascimento e mandadas para educandários porque eles (pais) tinham hanseníase, doença conhecida na época como lepra.

Recentemente, uma parceria feita entre o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), o Instituto Nacional de Genética Médica Populacional (Inagemp) e a Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República, pode contribuir para que essas pessoas descubram seus laços biológicos com pais, irmãos e outros parentes por meio de um exame genético, o teste de DNA. O exame faz  parte do Programa de Identificação de Familiares Separados pelo Isolamento Compulsório de Pessoas com Hanseníase (leia mais no quadro abaixo).

Além de encontrar seus parentes, os filhos separados dos pais podem usar o exame genético como prova para indenização por terem sido separados de seus pais ainda bebês. Desde o ano de 2007, a aprovação de uma lei concede indenização mensal aos pacientes internados nos asilos-colônias.

Jaime Prado é do grupo de voluntários do Morhan e representante no Lauro do projeto Global de Preservação da História dos Hospitais Colônias do Brasil. Ele diz que o Programa de Identificação se inspirou no movimento “Avós da Praça de Maio”, onde exames genéticos foram usados para reencontrar filhos, netos e outras pessoas desaparecidos durante a ditadura militar da Argentina.

Um dos intuitos é mapear documentos para se ter ao menos uma ideia de quem possam ser e onde possam estar os possíveis familiares para que o DNA possa ser feito. “Com tais informações, fica bem mais fácil unir as famílias. Em Bauru, ainda não temos cadastrados no programa, mas estamos em busca dessas pessoas e temos algumas em vista”, afirma Jaime. 

 


Esperança


E quem já tem pista da família é a auxiliar de limpeza Maria da Conceição Carvalho da Costa, cuja história se confunde com a de muitos outros “filhos da hanseníase”. Nascida na cidade de Parnaíba, no Piauí, ela e os quatro irmãos foram separados dos pais que viviam em um asilo-colônia da região e mandados para educandários.


Há mais de 40 anos em Bauru, ela veio para o interior de São Paulo trabalhar com uma família e nunca mais voltou, tampouco teve notícias de sua família. “Acredito que meus pais morreram na colônia mesmo e que devo ter muitos sobrinhos”.

Filha de José Ribamar de Carvalho e Maria Vaz de Aguiar, ela sabe que tem um irmão falecido e que os demais são: Maria Estela de Carvalho, Maria do Espírito Santo de Carvalho e Celso Augusto de Carvalho.

Por ter uma breve ideia de onde possam viver os irmãos, Conceição é uma das candidatas mais prováveis de Bauru a participar do Programa de Identificação. “É uma coincidência, mas parece que o destino puxa a gente. Falo isso porque, hoje, trabalho no Lauro de Souza Lima, que também foi um grande asilo-colônia. Acredito mesmo que posso encontrar minha família perdida. Essa é minha esperança”, emociona-se.

O núcleo bauruense do Morhan já trabalha na coleta de documentos, relatos, imagens e outros indicativos que possam reunir os familiares por todo o Brasil. 

 

Teste de DNA

Amostras da saliva serão coletadas para o exame genético de identificação de parentesco. O teste de DNA, com material colhido em todo o Brasil, será concentrado no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O resultado das análises pode demorar até 15 dias. A iniciativa foi concretizada recentemente com a assinatura de uma parceria entre o Morhan, o Instituto Nacional de Genética Médica Populacional (Inagemp) e a Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República. Neste evento, foi lançado o Programa de Identificação de Familiares Separados pelo Isolamento Compulsório de Pessoas com Hanseníase, criado pelo Morhan.

O Movimento de Reintegração será responsável pelo levantamento histórico familiar e dos documentos de pessoas que já identificaram possíveis familiares, para que o exame genético verifique o parentesco.  

A responsável no Inagemp pelo protocolo de exames, a geneticista Lavínia Schuler Faccini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esclarece ao JC que, inicialmente, a coleta de material genético será feita somente com pessoas vivas. Na hipótese de “um filho perdido” poder utilizar a identificação genética, haveria a necessidade de localização de outros parentes dos pais. Faccini exemplifica que o governo norte-americano comprovou a morte de Osama bin Laden, líder da al-Qaeda, comparando o DNA do cadáver com o de parentes vivos morando nos Estados Unidos. Jaime Prado, voluntários do Morhan, cita que 98% dos cerca de 2.500 pessoas enterradas no Cemitério do Lauro de Souza Lima eram portadores da hanseníase. Prado divulga muito documentos que encontra em seu blog www.jpradoo.blogspot.com. (Ricardo Santana)

 


 

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