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Entrevista da Semana: Eudes Soares de Sá Nóbrega

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

"A parte mais gostosa da minha vida foi quando eu fui para Juazeiro do Norte operar por conta própria 30 pacientes fissurados...Não ganhei dinheiro, mas ganhei a satisfação de fazer algo por pessoas que antes não tiveram ajuda. Senti-me importante como ser humano". É com essa história que o cirurgião plástico Eudes Soares de Sá Nóbrega exemplifica o que de melhor a medicina já trouxe para sua vida.

Nascido na cidade de Fortaleza, Ceará, ele veio para São Paulo estudar cirurgia plástica, especialidade que, no início, jamais pensou em seguir: "Eu dizia que nunca faria medicina para tratar de coisas fúteis como um "narizinho" ou um "peitinho". Até que vi uma menina de 14 anos com o rosto inteiro cortado por uma gilete e tive um chamado, não sei como explicar", lembra.

Casado há 26 anos e pai de três filhos, na entrevista que segue abaixo, Eudes também lembra como teve início sua história de amor com Sílvia, da vida em Fortaleza, projetos e sonhos.

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Jornal da Cidade - O que o trouxe do Ceará a Bauru?

Eudes Soares de Sá Nóbrega - Vim para Bauru quando tinha 31 anos de idade para montar um consultório de cirurgia plástica reparadora, mas de estética também, com um colega da cidade. Na época, a moda era a reparadora, mais nobre e bacana. Antigamente, nos congressos de cirurgia plástica, 70% das palestras eram de cirurgia reparadora e 30% de estética. Hoje virou-se o jogo completamente e só se fala em cirurgia estética. Contudo, eu ainda faço muita cirurgia reparadora.

JC - Bauru foi sua primeira cidade paulista?

Eudes - Não. Saí de Fortaleza com destino a São José do Rio Preto, onde fiz residência em cirurgia plástica. Também estudei no Alabama, Estados Unidos. Três anos depois vim para Bauru. Fiz faculdade, cirurgia geral, em Fortaleza. Hoje já não tenho mais vontade de voltar a morar onde nasci. Todos os anos eu tinha uma recaída, imaginando que voltaria. Agora estou gostando mais de Bauru, a cidade teve umas duas administrações...Agora estamos caminhando. Acredito que a cidade só tem a crescer, atualmente.

JC - Quais são as lembranças da vida no Ceará?

Eudes - Sou o primeiro filho de uma família de cinco irmãos. Filho de comerciante, que importava relógios e vendia para as relojoarias. Tive uma infância de classe média, sem luxo, mas com conforto e com uma formação muito rígida.

JC - Quando pensa em Fortaleza, quais são as saudades?

Eudes - Família, praia, comida. Neste momento, meu filho mais velho, que é procurador do Estado, está por lá, passeando. O segundo filho faz medicina, em Campinas.

JC - Seguir a profissão do pai veio através de incentivo?

Eudes - Não, ao contrário. Ele estava fazendo engenharia de produção e eu estava muito feliz. A medicina é uma carreira muito sacrificada, embora tenha coisas muito boas na parte médica.

JC - E quais são os prazeres que a medicina proporcionou a você?

Eudes - Curar alguém e me sentir satisfeito por isso. Por exemplo, antes da entrevista, eu estava fazendo uma cirurgia gratuita na cidade de Agudos. Gratuito para mim é realizar uma cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), você faz caridade. Mas me sinto feliz por ajudar alguém. Essa é a parte gostosa de ser médico, alguns não sabem o que é isso. É como se fosse um serviço voluntário, algo que não tem preço.

JC - Um trabalho inesquecível.

Eudes - A parte mais gostosa da minha vida foi quando eu fui para Juazeiro do Norte operar por conta própria 30 pacientes fissurados. Não tinha ONG ou nenhum órgão patrocinando, apenas um amigo que me cedeu a passagem e pouso na casa dele. Aquela foi a melhor fase da minha vida. Não ganhei dinheiro, mas ganhei a satisfação de fazer algo por pessoas que antes não tiveram ajuda. Senti-me importante como ser humano.

JC - Qual é o lado ingrato da medicina?

Eudes - É você ser cobrado mesmo dando muito de si e não ter o reconhecimento que deveria ter. Mas a medicina é dar sem pensar em retorno. É uma profissão sacrificada. Você lida com vidas que, às vezes, podem fugir das suas mãos sem a sua responsabilidade e, mesmo assim, você se sente mal e pode até ser cobrado por isso. É tudo ou nada.

JC - Você sempre quis ser médico?

Eudes - Não, eu já quis ser engenheiro. Comecei a estudar biologia e a achar muito interessante a vida dos parasitas no ser humano, por incrível que pareça. Conversei com meu pai e fui estudar. No começo eu me arrependi porque não gostava de ver cadáver, mas superei e segui em frente. A última especialidade que eu pensei em estudar, nessa fase, foi a cirurgia plástica. Eu dizia que nunca faria medicina para tratar de coisas fúteis como um "narizinho" ou um "peitinho". Eu queria salvar, porém, no quarto ano, eu fui dar um plantão voluntário em um pronto-socorro de Fortaleza e vi uma menina de 14 anos com o rosto inteiro cortado por uma gilete. Aquilo me chocou. Tive um chamado, não sei como explicar, mas sabia que deveria ser cirurgião plástico. No Ceará, costuma-se dizer que cirurgia plástica séria é estudada em São Paulo. Foi quando vim para São José do Rio Preto. Nessa época, eu fazia todo tipo de cirurgia, menos fissurados, e vim parar no Centrinho operando fissurados. Olha como a vida é.

JC - Tem publicações médicas?

Eudes - Tenho um artigo na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, no ano de 2009, "Rejuvenescimento da região pudenda, associado ou não a dermolipectomia abdominal", onde falo sobre uma técnica da região pudenda feita com um ponto cruzado que levanta e estreita essa parte do corpo feminino. Fui convidado para um encontro de cirurgia plástica, em Lins, onde vou falar sobre esse trabalho. Tenho outras publicações, como "Cirurgias plásticas, fundamentos e artes", onde falo sobre a cirurgia do palato, uma das cirurgias plásticas mais difíceis que existe.

JC - Você também é especialista em queimaduras?

Eudes - Também trabalho com essa área no Hospital Estadual. Também já fui professor e lecionei em universidades de Botucatu, Campinas, Ribeirão Preto, no Centrinho, inclusive sou preceptor de cirurgia plástica em Botucatu e Ribeirão Preto.

JC - Como você vê a saúde de Bauru, atualmente?

Eudes - Há muito o que melhorar, contudo, parece que há um investimento atual maior. Parece que os médicos plantonistas de pronto-socorro estão sendo melhor remunerados, o que eu acho que eles merecem e muito. Não existe profissão mais espinhosa do que médico de pronto-socorro. Eles pegam tudo e é um perigo: desde um acidente vascular cerebral, meningite, atropelamento...E as pessoas não dão o devido valor a esses profissionais.

JC - Acredita que fez as escolhas certas?

Eudes - Se pudesse mudar, eu mudaria a minha personalidade para ser o que eu sou hoje e não o que fui há uns 10 anos. Era intempestivo, radical, ouvia menos e falava mais. Acredito que você evolui mais com as brigas do que com os elogios, se você olhar para dentro. A gente evolui lentamente e tem gente que nunca evolui. Eu acredito que tenho evoluído muito. Acredito, também, que a maior virtude do homem é tratar bem e respeitar os humildes.

JC - Construiu sua família ainda em Fortaleza?

Eudes - Sim. Quando conheci minha esposa, ela tinha apenas 12 anos e eu, uns 15 ou 16 anos. Eu a vi e a achei a coisa mais linda, porém, ela era muito nova para mim. O tempo passou e, quando eu já tinha 20 anos, entrei em casa e ela estava estudando com minha irmã. Não acreditei que era aquela menina tão pura e tão linda que eu via andando apenas com os pais. Na época, eu namorava com outra moça, com o mesmo nome, aliás. Não pensei duas vezes e troquei de namorada (risos). Estamos casados há 26 anos. Tivemos os dois primeiros filhos no Ceará e a mais nova aqui, em Bauru.

JC - E por que a nota 10 para sua esposa?

Eudes - Pela educação e formação dos nossos filhos, 90% por conta dela. Por causa da minha profissão e, talvez, por eu ser tão ligado e empolgado com a medicina, hoje eu me arrependo por não ter dado mais atenção à família. Eu dava mais atenção para meus pacientes do que para meus filhos. E me arrependo. Em um instante, a infância dos filhos passa e eu não curti tanto quanto gostaria.

JC - Vive a medicina 24 horas?

Eudes - Não, divido meu tempo com a família e o lazer. Ainda pretendo viajar. Já morei três vezes nos Estados Unidos, conheço quase toda a América Latina, mas ainda não conheço a Europa. Já tive diversões que ficaram meio de lado.

JC - É um homem realizado?

Eudes - Sim, mas ainda tenho alguns projetos. Ver meus filhos todos formados, felizes e realizados profissionalmente. Talvez casados, ou não, já que hoje isso não é mais uma regra....Ver netos, quem sabe (risos). Mas posso dizer que estou praticamente realizado. Antigamente eu queria algumas coisas que, hoje, já não quero mais... Profissionalmente, eu quero muito descobrir coisas novas e publicá-las. Coisas inéditas, como as que já publiquei, ou como outro trabalho que estou fazendo em cirurgia reparadora. Quero ver se trago algo de útil para a medicina. Deixar alguma coisa porque eu acho que é obrigação. Os grandes homens da humanidade deixaram grandes invenções que tornaram o mundo melhor do que quando eles chegaram. Então, esse é meu sonho, com minha profissão, deixar o mundo um pouco melhor do que quando eu cheguei.

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Perfil


Nome: Eudes Soares de Sá Nóbrega

Idade: 54 anos

Local de Nascimento: Fortaleza

Signo: Sagitário

Esposa: Sílvia

Filhos: Lucas, Bruno e Luciana

Hobby: Pesca e aeromodelismo

Livro de cabeceira: "O século dos cirurgiões"

Filme preferido: Gosto de suspense, mistério e comédia romântica

Estilo musical predileto: Gostei muito de jazz, mas, hoje, estou mais eclético

Time: Ceará, Palmeiras e Noroeste

Para quem dá nota 10: Ao médico e meu amigo Omar Haddad e para minha esposa

Para quem dá nota 0: Para a impunidade à corrupção no Brasil

E-mail: dreudes@uol.com.br e www.eudesnobrega.com.br

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