Tendo em vista os antecedentes, seria no mínimo "prematuro" comemorar a nova postura do FMI reconhecendo que a mudança da política monetária no Brasil não vai impedir que a meta inflacionária de 4.5% seja alcançada no final de 2012. O Fundo vai um pouco além, declarando confiar igualmente na administração da política fiscal, condição essencial para garantir ao mesmo tempo o sucesso da política de redução do juro real e o controle da inflação. É interessante a mudança de opinião do organismo internacional, num instante em que analistas que conhecem a nossa situação fiscal levantam dúvidas quanto o cumprimento das metas. O governo deve levar em conta essas observações e procurar desde logo transmitir à sociedade a segurança que os objetivos da política fiscal para 2012 serão inexoravelmente cumpridos, sem truques ou tergiversações. Uma coisa é certa: a política econômica que o governo colocou em prática exige uma estreita e firme coordenação entre política monetária e política fiscal. Para alcançar o objetivo de reduzir a taxa de juro real e simultaneamente controlar o processo inflacionário é fundamental garantir uma execução fiscal hígida. Sem perder de vista a preservação do objetivo maior do crescimento do PIB, com manutenção do emprego.
A recente decisão de antecipar a queda dos juros se deve ao aprofundamento da crise europeia, que deixou de ser limitada à situação de meia dúzia de países. Não se trata mais do fato que algumas economias estão sendo feitas em pedaços, mas a própria estabilidade política está indo pelo mesmo caminho, devido à explosão da insatisfação popular diante do desemprego e da noção clara da cumplicidade dos governos com as patifarias nos mercados financeiros. Algumas mudanças começam a acontecer nos Estados Unidos, com a responsabilização das instituições financeiras que produziram as fraudes. E numa recente entrevista o secretário do Tesouro Tim Geithner sugeriu que os governos europeus deixem de lado a paralisia política, esqueçam os medos infundados com a inflação e voltem as atenções para os problemas do crescimento e emprego.
Ele está lembrando aos bancos centrais que a taxa de juros nominal já é nula e que a taxa de inflação está dentro da meta, mas a taxa de desemprego continua num nível indecente. Logo uma política fiscal eficaz deve ser ativada. Na economia, em geral, a antecipação das expectativas é tão importante quanto o fato e muitas vezes produz o fato. Os brasileiros precisam se convencer da capacidade do governo de realizar os objetivos da rigorosa política fiscal que promete. É importante transmitir à sociedade que a política fiscal em 2012 continuará com as caraterísticas atuais, que compreende a redução do ritmo do crescimento das despesas de custeio abaixo do crescimento do PIB. Mostrar também que manterá a ênfase nos investimentos na infraestrutura sem prejudicar as metas fiscais. O sucesso da política monetária atual depende fundamentalmente da capacidade do governo transmitir às pessoas essas garantias.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento