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Mulheres têm índice alto de tentativa de suicídio

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

Estudos comprovam que as tentativas de suicídio predominam em mulheres numa proporção média de três para cada homem. Porém, quando o assunto é conseguir o objetivo de colocar fim à vida, a relação é inversa. São três homens que conseguem cometer o suicídio para cada mulher, explica o especialista José Manoel Bertolote.

“Não é que a mulher tem menos coragem. A questão é cultural. A mulher é menos violenta que o homem de modo geral. Ela comete menos crimes. É mais cuidadosa com ela mesma e se mata menos que os homens. Quando ela faz uma tentativa seus métodos são menos letais. Usam algum medicamento e tentam se matar por intoxicação. É uma forma de baixa taxa de letalidade. Já os homens se enforcam ou usam arma de fogo, métodos mais letais.”

Ele enfatiza que é importante entender a complexidade do assunto. “A diferença fundamental do ponto de vista externo é o desfecho. Um método leva a óbito e o outro não. As populações suicidas e tentativas de suicidas são muito distintas. Isso explica, em parte, porque mais mulheres tentam (aumento de 300%) e mais homens morrem (aumento de 2.000%).

De acordo com o especialista, quando se faz um estudo chamado de autópsia psicológica, verifica-se que, no suicídio consumado, a pessoa, maioria homem, tinha a intenção de por fim a vida. “Ao passo que nas tentativas, maioria mulheres, o objetivo era sair de uma situação e não exatamente a morte. Outra diferença é que os suicidas homens tendem a ter mais idade. Enquanto que as tentativas nas mulheres são de jovens.”

Ele alerta que o suicídio está associado a alguns fatores. O mais importante deles é uma doença mental grave, depressão, esquizofrenia e alcoolismo. São três doenças mentais mais fortemente associadas ao suicídio.” Essas doenças podem ser detectadas na infância. “Até pouco tempo, acreditava-se que depressão era muito rara na infância e adolescência, mas chegou-se à conclusão de que ela está presente em todas as fases da vida e que se manifesta de maneira diferente. Ela é diferente em mulher e homem, adolescente e criança. O adolescente deprimido, claro que pode ter o quadro de se isolar e chorar, mas, muitas vezes, se apresenta como um rebelde. Pode praticar atos delinquenciais. É a forma que ele tem de expressar sua tristeza.”

Por isso, orienta o especialista, é preciso avaliar as mudanças de comportamento. “Muita gente pensa que é normal na adolescência ter um comportamento diferente, mas, em alguns casos, é indicador de que algo não vai bem com essa pessoa. É preciso ver se aquilo não é uma depressão que vai aumentar o risco de tentativa de suicídio. O índice aumentou porque perdemos o controle, achamos normal e não nos aproximamos para saber o que de real está acontecendo.”

 

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Olhar atento dos pais pode identificar mudanças nos padrões das crianças

 

O comportamento infantil pode revelar que tipo de adulto será aquela criança. Evidente que isso depende de outras situações e inúmeras nuances. Crianças apresentam os mesmos sintomas dos adultos, tudo adaptado às condições dela, mas alguns sintomas podem levar a um propenso suicida.

O psicólogo Márcio Pinheiro Machado faz questão de frisar que crianças e adolescentes não são sinônimos de quadros fechados, uma vez que estão em fase de crescimento.

“Um olhar atento dos pais pode identificar as mudanças nos padrões de comportamento. A avaliação precoce de um profissional ajuda. Os sintomas são sugestivos para avaliação. Não é que essa criança será um adulto propenso ao suicídio. Tem que avaliar caso a caso.”

Numa situação hipotética, o psicólogo explica aos pais que crianças com mania repetitiva de fala ou de comportamento, um isolamento, choro, agressividade exacerbada, irritação constante e desmotivação para brincar são itens que merecem uma avaliação.

“Imaginar se ela tem uma mania repetitiva de fala ou de comportamento, algo que se repete, da qual ela não consegue deixar de pensar ou fazer e causa sofrimento quando ela não faz, é um exemplo. Isso pode ser o início do pensamento possessivo compulsivo na criança. Ela repete como padrão. Um isolamento, um choro, uma desmotivação para brincar  pode sugerir que alguma coisa não vai bem.”

Os pais são os primeiros a perceber as mudanças, enfatiza o profissional. “A escola costuma avisar os pais quando a criança não consegue se socializar. A criança se recusa a brincar com seu amigos ou tem comportamento agressivo. Tenta agredir os outros em qualquer situação. Tem um descontrole ou quando ela está muito sexualizada ou distraída além do normal. Isso é sugestivo para avaliação.” 

Ele explica que, quando é detectado algum sintoma na fase infantil, o caso é encaminhado para avaliação psiquiátrica.

“Dependendo da constatação desse quadro, a gente encaminha para um serviço especializado na  Unesp.  O Serviço de Saúde Mental da Criança e Adolescente. Eles fazem o acompanhamento. Se for mais tranquilo, nossa equipe acompanha  em grupo específico de criança ou adolescente”, explica.

O tratamento para crianças é todo voltado para a terapia e atividades lúdicas porque elas respondem melhor. São raríssimos os casos em que se usa medicação.

“Na área preventiva, a abertura para conversa facilita. Os pais precisam dedicar mais tempo aos filhos, brincar mais e manter o contato constante. Isso é importante. Com isso, melhora a qualidade de vida da criança e ela vai responder melhor. Só não vai ajudar se a criança tiver um quadro orgânico que possa interferir. Os pais não devem negligenciar pequenos sintomas que, com o passar do tempo, se tornam mais agudos.”   

 

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  Isolamento é um sinal de alerta

O isolamento social em qualquer idade funciona como um alerta de que algo está errado com aquela pessoa. A tendência da sociedade contemporânea é “respeitar” essa saída de cena e deixar a pessoa sozinha. “Isso é mais perigoso. Tem que perguntar se ela precisa de ajuda. A melhor coisa para prevenir suicídio é a aproximação, o diálogo. Dar a mão para ela segurar, emprestar o ombro para essa pessoa chorar”, ensina.

Ele cita uma campanha desenvolvida na Europa para exemplificar. “Eles colocam em um outdoor uma enorme orelha. E pedem que um escute o outro. Empreste a sua orelha para o outro poder falar, se lamentar, desabafar. Essas são as medidas preventivas mais eficazes. Outro item que não pode faltar é a pessoa fazer uma rede de relacionamentos que, numa hora dessa, serve de apoio social”.

Bertolote ressalta que não é que todo suicida não tem família e amigos. Eles têm, mas não enxergam. “Ficam cegos. Não enxergam saída e, se os familiares e os amigos respeitam o isolamento, isso confirma para a pessoa que ela realmente está sozinha. Ela pensa: ninguém me entende, ninguém me escuta, ninguém se interessa por mim. Então, quero partir.” 

O medo de tocar no assunto e precipitar um problema é bobagem, lembra o médico. “Muitas pessoas têm medo de tocar no tema achando que podem precipitar uma situação. Uma paciente me disse:  tive uma ideia esquisita, para não dizer que tinha tentado se matar. A confrontação é a melhor coisa. Quando a pessoa percebe que pode falar daquilo, ela está num território seguro.”

 

Saber lidar com as emoções

Ensinar as crianças a  identificarem suas emoções e lidar com cada uma delas é um processo educativo e preventivo, diz o professor José Bertolote. “Toda criança faz birra e, nessa hora, os pais devem perguntar a ela o que está sentindo. A reação normal é o adulto dar uns tapas ou largar ela no chão. O ideal é fazer a pergunta e ouvir qual é o sentimento da criança naquele momento.”  

Em vários países da Europa, no currículo escolar das crianças, tem uma parte do programa que ensina a identificar as emoções. “Se elas sentem alegria, tristeza, raiva, as emoções básicas. No segundo momento, o que fazer com esse sentimento? Se sinto alegria , não posso pular na carteira. Têm outras formas de expressar minha alegria. Se estou com raiva, não tenho que enfiar a mão no vizinho. Eu tenho que lidar de outra forma com esse sentimento. Se estou triste não tenho que me isolar. Tenho procurar ajuda. Ninguém fala em suicídio, mas previne.”

As crianças são ajudadas na escola a lidar com as emoções e reagem melhor aos problemas quando adultos. “Se alguém é ofendido, ele pode dizer: não gostei do que você me disse. Não quero que isso se repita. Ou pode se fechar e ficar sofrendo e, na terceira alternativa,  pular no pescoço de quem falou. Qual a reação mais adequada? Crianças têm que aprender isso. Esse é o processo educativo das crianças. Se as famílias não fizerem isso, a escola deveria fazer.”

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