Ele, nos anos 80, foi meu colega de profissão no Liceu Noroeste. Culto, inteligente. Como muito bem disse Zarcillo Barbosa, em seu artigo na página 2 do JC de domingo, dia 25: "Sabia tudo de tudo". Era formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Nos anos 60, ainda muito jovem, tendo obtido o certificado do "Cades" (um curso rápido, que dava a um profissional de outra área a faculdade de lecionar em escolas estaduais, suprindo a carência de professores formados, com curso superior), veio a lecionar no Instituto de Educação "Ernesto Monte". Nesta ocasião ele viera substituir a professora Prosperina de Queiroz, que lecionava Desenho. Ela havia tirado uma longa licença para tratamento de saúde.
Lá estava eu, ali na condição de aluno de uma sétima série ginasial. Sentado numa das primeiras carteiras, na frente do professor. Ele, informado de que naquela classe havia uns "engraçadinhos" que primavam por promover a indisciplina, entrou "com tudo", sem arreganhar os dentes, cara amarrada. Logo foi se apresentando, dizendo o nome completo e o que iria lecionar para nós.
A classe inteira percebeu rapidamente que ele tinha um problema popularmente conhecido "língua presa".Quando falava, por exemplo:
"três", o som ouvido era "tlês". Trocava o "r" pelo "l". Quero enfatizar aqui que anos mais tarde ele deve ter se submetido a uma frenectomia lingual (ou cirurgia da língua presa), pois notei que quando fomos colegas e profissão no Liceu Noroeste (anos 80) ele havia melhorado substancialmente a sua dificuldade de articulação das palavras. Mas naquele dia a classe ficou sob tensão.
Um silêncio sinis- tro e profundo se instalou na classe quando ele disse que iria chamar aluno por aluno, que deveria falar "presente" e levantar o braço direito, para ser devidamente identificado pelo mestre. A chamada foi prosseguindo, até chegar num determinado aluno. Quando o professor pronunciou o nome dele, este levantou o braço direito e disse solenemen-te: "plesente". O mestre, tomado de repentina e inesperada cólera, vociferou: "Escute aqui seu englaçadinho, você acha que sou palhaço?" Atônito, o aluno trouxe ambas as mãos para o peito e tremendo de medo, disse: "Mas plofessor, eu falo assim mesmo!" Ele também tinha a língua presa, todos os alunos sabiam disto, menos o mestre.
A classe não se conteve de tanto rir, pela situação inusitada, mas cômica. Apesar deste fato, o mestre conquistou o respeito de todo seus discípulos pela sua erudição e sapiência. Era muito rápido nas suas respostas, sobre qualquer assunto. Descanse em paz, Brisolinha!
Gilberto Sidney Vieira - professor