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O crime da sociedade

Ricardo De Callis Pesce
| Tempo de leitura: 2 min

Sandro Fernandes pode ser culpado ou inocente. A natureza do crime de que é acusado e as condições em que normalmente é praticado dificultam a obtenção de uma certeza absoluta quanto à sua ocorrência. Não por acaso, recomenda-se nestes casos muito cuidado por parte das autoridades e da mídia. O sigilo é imperioso e neste caso não ocorreu. Como conseqüência disto, o advogado está previamente condenado por uma mídia vampiresca e por uma opinião pública de voracidade somente comparável aos leões das antigas arenas romanas. Mesmo que seja inocente, isto não terá a menor importância para o futuro dele, graças à estigmatização de sua imagem, que ficará para sempre. Tudo isto não chega a ser novidade. Afinal, a datenização da tele-visão aberta existe para garantir audiência a todas as emissoras, sem que seja necessário gastar com criatividade.

O que constrange e assusta, notadamente quando vemos a mídia e a própria polícia indiferentes, é a exposição do menor envolvido. A hipocrisia de não mostrá-lo na televisão ofende a inteligência humana. Afinal, todos sabem quem é o pai dele, a mãe dele e, consequentemente, quem é ele. Alguém está preocupado com o que isto pode acarretar na vida futura da criança? Os acusadores, certamente, não.

Segundo notícias veiculadas em Bauru, entre a primeira queixa e a publicidade conferida ao caso houve um lapso de tempo durante o qual a Polícia poderia ter determinado às vítimas maiores de idade que não procurassem os jornais nem a televisão. Esse silêncio em relação ao caso teria evitado o linchamento moral a que assistimos, e possibilitaria tomar providências mais objetivas para a investigação e menos traumáticas para a criança: por exemplo, interrogar as professoras do menino, convocar psicólogos e apurar a ocorrência ou não de mudanças comportamentais que pudessem, à luz da psicologia, definir com maior grau de certeza se o crime teria ou não sido cometido em relação a ele.

Despretensiosa busca na Internet nos dá parâmetros mundialmente aceitos para lidar com crianças expostas a situações como esta. A criança abusada sexualmente apresenta sintomas que incluem agressividade e depressão, em clara desordem comportamental, perturbação de apetite e no aprendizado, regressão, entre outros que, se ocorreram, certamente foram notados por suas professoras e poderiam ser confirmados por psicólogos, em um ambiente neutro e com a utilização das técnicas corretas. Mas nada disso foi feito. O objetivo da mídia foi alcançado. Já não tenho tanta certeza quanto ao sucesso do Poder Judiciário, pelo menos em relação à criança. Afinal, a sociedade como um todo está dando continuidade ao linchamento moral do pai, na figura do filho.

O autor, Ricardo De Callis Pesce, é colaborador de Opinião

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